Entre perucas e solidéus - São Paulo São

Faz alguns meses que aconteceu minha experiência com a tradição e festejos judaicos. Apesar de ser real, me sentia como num filme, às vezes de Woody Allen déjà vu, outras de Fellini, quando me lembrava de minha bisavó judia, e outras vezes, ainda, de Ingrid Bergman. Sem dúvida foi uma bela noite de Shavuot, que celebra a entrega da Torá no Monte Sinai. Não é necessário ir longe para compartilhar tanta alegria e respeito por uma data festiva religiosa com bom motivo: celebração dos 10 Mandamentos.

Cheguei atrasada na sinagoga ortodoxa, a cerimônia já havia começado. Vendo que o andar térreo era reservado aos homens, a vontade era de entrar e sentar lá no meio deles, dando uma de desavisada. O que será que aconteceria? Será que me expulsariam ou ficariam todos mudos com suas vestes negras e seus chapéus negros e outros com seus solidéus variados, olhando em minha direção para me intimidar?

Lembrei-me do rígido e careta Colégio Rio Branco, no qual estudei, onde havia escada para meninas e escada para meninos. No primeiro dia de aula subi pela dos meninos: fui parar na Diretoria. E lá na sinagoga, o que aconteceria? Subi e encontrei Kattya e sua mãe, querida dona Amenay, que, filha de ortodoxos, teve 22 irmãos – mas essa é outra história. Fui seguir as orações do rabino no livro, lendo as traduções do hebraico de trás para frente, como todos os orientais. Eram orações de louvor e agradecimento a D’us, como eles escrevem, pelos ensinamentos encontrados na Torá. Pelos ensinamentos dos 10 Mandamentos, que D’us deu a Torá aberta para que os homens pudessem melhorar com sua prática. 

Eles leem rapidíssimo, em hebraico, acho que muitos sabem algumas passagens decor, e todos falam ao mesmo tempo e cada um numa entonação. O som reverbera e lembra o árabe, o aramaico, mas só com vozes masculinas. No andar superior, as mulheres acompanham e passa uma criança brincando shhhhhhh.  São as mães as responsáveis pela transmissão da tradição judaica na família, por isto as mulheres sentam-se no alto.

Fim do primeiro ato. Lá fui eu e acendi a minha vela, como fizeram todas as mulheres. Descemos, fomos lavar as mãos com a caneca de duas alças, uma para cada mão, jogando água três vezes em cada uma delas. Tudo tem significante e significado. O ritual é cumprido em silêncio, pois só depois de agradecer e comer um pedaço de pão é que se pode falar. Pronto, liberado para falar. O rabino vem, faz uma prece pelo vinho e Le’chaim! (Tim-Tim, santé, chears, saúde), mas lá é mais intenso, significa à Vida. Não é lindo?

Um vinho doce que bebi pouco. O rabino não pode ter Parkinson, pois segura o copinho de vinho cheio até a boca, e dá-lhe de orar e orar até que libera e fica equilibrando o vinho sem cair com o copo ereto.

Estou sentada ao lado de uma importante Rabanit (esposa de Rabino) que tem cinco filhos e cuja filha de 26 anos já tem três filhos e espera o quarto. Um dos garotos filhos dela, parece travestido de menina, pois ainda não completou três anos e não pode cortar os cabelos. Para segurar a cabeleira, ele usa um elástico com xuca com bichinho – e os cachinhos são enormes... 

A de sua filha, casada com um jovem rabino, é um modelito despenteado, fazendo um estilo mais displicente e jovial, de acordo com sua idade, e você jura que é não é peruca. Outras senhoras usam meio Chanel no corte e as que não são casadas, ou não são tão ortodoxas, não usam peruca.  Tudo tem um porquê. Usar peruca é sinal de recato para o marido, só ele vê os cabelos de sua mulher. Penso na corte de Luis XV, onde se usavam perucas enormes, e penso também em Cleópatra, com a seguinte dúvida: será que usava peruca? Preciso perguntar para Leusa Araújo que sabe de tudo sobre cabelos.

Já estávamos jantando quando o rabino chegou a nossa mesa. Um prazer enorme tê-lo com a família conosco. E ele iniciou uma oração de agradecimento pelo jantar e pelo vinho “Baruch AtáHá-Shem Elo-kei-nu Me-lechHaOlam, BorePeríAgáfen” – Bendito sejas Tu Eterno nosso D´us, Rei do universo criador do fruto da videira”. Na mesa ao lado outro rabino cantava aos urros dando murros na mesa e batendo os pés, no auge da alegria, parecia uma coisa meio delirante, ele repetia sempre as palavras “ChagSameach”, ou boas festas, e muito lalalálalaárielalá e outros homens batiam palmas (momento Woody Allen, eu querendo rir, sem poder). Tudo superanimado, mas, uma pena, mulheres não podem cantar.

Entre um gefilte fish de entrada, sopa, frango com molho agridoce e arroz com açafrão, entremeados por Le´chaim entre os goles de vinho doce, tudo muito bom. Para mim, o rabino cantante mor já tinha tomado umas antes de chegar na sinagoga, estava animadíssimo. Rezamos depois da sobremesa e do chá e eu pensando na minha bisa Gisela Braun, judia ashkenazi, antes de se tornar a mulher de um gói, meu bisa José de Souza Queiroz. Que mulher incrível! Mas essa é outra história (momento Bergman).

Foi muita informação para uma noite só, não aguentei ficar para a cerimônia religiosa após o jantar. Chego em casa, ponho um som escancarado com AmyWinehouse – que por sinal era judia –, interpretando Body & Soul com Tony Bennett, e tomo uns três cálices de licor de jabuticaba dos bons. E a tradição está viva. Estamos no ano 5776. Você sentiu?!

***
Marina Bueno Cardoso – Jornalista, foi colaboradora da Folha de S.Paulo, Nova, Playboy e 4 Rodas; cronista do Jornal da Tarde entre 1993 e 1995; trabalhou com Comunicação Corporativa .Publicou em 2015 “Petit-Fours na Cracolândia”, com Prefácio de Ignácio de Loyola Brandão pela Editora Patuá


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