Teclando com data vênia - São Paulo São

Tudo começou num sabadão, daqueles sem nada para fazer. Cabeça vazia oficina do diabo... e lá foi ela para o notebook. Estava lendo contos meio “perva”, de Dalton Trevisan, e pensou "ficar sozinha por quê? Tantas pessoas entram em sites de relacionamento.” Após muito tempo em busca de sites interessantes, resolveu entrar naqueles que bate o coração nos dedos, digo, no teclado. 

Foi bem assim que encontrou a ficha de um cara que não tinha foto, mas, a maneira com que “se vendia” para as moças de plantão, a convenceu. A descrição de “rato de biblioteca” e “louco por jazz” casava com alguns de seus interesses. Codinome do moço “Wild”... Uau, o bacana deve ser caliente!...

E-mail daqui e dali, teclaram muito naquele final de semana, até que, no meio da outra semana, ele pediu seu telefone. Moral da história: duas horas de um papo maravilhoso. Ele era advogado da Caixa Econômica e tinha nome e sobrenome pomposo, como é mania dos “data vênia”.

Combinaram de encontrar numa cantina simpática nos Jardins. Ele não havia mentido, era mais velho, grisalho, nada de fofo, era gostoso mesmo. Foi uma noite adorável. O santo bateu, como dizem por aí. Ele morava perto dali e ela o deixou em casa. Desquitado, sem filhos, tudo preto no branco. 

Ficou em estado de graça. Será que seria uma a mais a engrossar a lista das que se deram bem pela Internet? A partir deste encontro não teclaram mais. Ás vezes, ele mandava alguma gracinha para desejar-lhe um bom dia, um durma bem ou vem para cá. Na medida. Fora isso, telefonemas mil. A solitária que, antes, preferia um bom DVD a jogar conversa fora com gente desinteressante, agora nem pensava em assistir TV à noite, tinha coisa melhor. Um casamento de almas, um conversê que não acabava nunca e uma coisa meio animal de um ir sentindo o cheiro do outro, ao invés de pular em cima. Ela estava achando mais e mais excitante. Já fazia um mês que se encontravam duas vezes por semana e, até então, nada! Era só uma guerra de hormônios e excitação, tesão geral. Quer coisa melhor?

Ele sumiu por uma semana. “Ah, esses homens são todos iguais, previsíveis, agora ele se faz de difícil, para que eu imagine que tem outra ou que não sou mais a prioridade”, ela pensou nesses dias.

Uma bela manhã, sua amiga que sabia do caso e estava torcendo por ela, a acordou às 7h30: - Oi, o seu cara da internet, o advogado chama-se “Um Dois Três de Oliveira Quatro”, certo? 

- Certo, por quê? 

- Porque acabo de ver o anúncio de uma missa de sétimo dia para um cara com este nome. 

- O que? Tá louca, em qual jornal? 

Esperou dar nove horas, abrir o expediente da Caixa Econômica Federal e, então, ligou: - Bom dia, por favor, o “Oliveira Quatro” já chegou? 

- Quem quer falar com ele? 

- Uma amiga que não o vê há algum tempo. 

- Desculpe-me moça, mas o “Oliveira Quatro” teve um infarto, foi fulminante. Hoje é a missa de sétimo dia dele. 

Ela nem conseguiu agradecer a informação. Choque total. Morte ao romance iniciado, morte às expectativas que não se concluíram. Só restava olhar para o teto. Pasma. 

***
Marina Bueno Cardoso – Jornalista, foi colaboradora da Folha de S.Paulo, Nova, Playboy e 4 Rodas; cronista do Jornal da Tarde entre 1993 e 1995; trabalhou com Comunicação Corporativa .Publicou em 2015 “Petit-Fours na Cracolândia”, com Prefácio de Ignácio de Loyola Brandão pela Editora Patuá


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