O Uber gold! - São Paulo São

A rua era de apenas uma mão. Estava atravessando e olhei para o único local por onde poderia vir os carros e atravessei.

Foi numa fração de segundos que veio um carro de ré na contramão a mil por hora e me pegou pelas costas Voei e cai de quatro, sem estatelar meu rosto no chão. Umas mulheres gritaram e foi só aí que ele parou, quase em cima de mim.  

O impacto nas costas me tirou o fôlego, a dor do baque era grande. A bolsa foi para um lado, os sapatos para o outro, guarda-chuva voou. Era quarta-feira e estava na frente do prédio de minha terapia. O moço desceu do carro e logo acionou o SAMU. Com dor do baque forte, liguei para minha terapeuta, pois estava indo para a sessão, e ela desceu para me socorrer. Também liguei para meu primo – que é mais que um irmão – e ele disse para aguardar o SAMU e avisá-lo para onde iam me levar, pois achava que seria para um hospital público.

Cavalheirismo na década de 60. Foto: Vintage Everyday.Cavalheirismo na década de 60. Foto: Vintage Everyday.SAMU chegou supercompetentes, perguntaram se eu mexia os pés, me imobilizaram, tiraram pressão, conferiram os batimentos cardíacos, tentaram me acalmar e, aí, chorei. Perguntei se poderiam me levar para o hospital do meu convênio. Responderam que sim. Minha terapeuta nota 10 disse que iria me acompanhar até o hospital. No HCor, o médico perguntou onde doía. As costas e uma costela na frente. O mais incrível é que há duas semanas havia começado fisioterapia para uma dor terrível no ciático, que não desejo pro pior inimigo.

Lembrei de minha mãe, que numa queda na minha casa quebrou quatro costelas e a contusão lesionou a pleura, coisa que lhe rendeu a dor, além das costelas, das punções que teve que fazer no pulmão, superdoloridas.

Quando meu primo chegou ao pronto socorro, eu já estava sendo medicada com soro com Profenid, Traumel e mais outros dois analgésicos. Vendo o shake poderoso nas veias, ele falou: – Olha só, essa remediaiada toda vai curar sua dor no ciático, você vai ver. Eu queria rir, mas tudo doía. Entrei às 11h no hospital e só fui fazer tomografia às 19hs. Duas amigas queridas vieram dar uma força. Finalmente, o resultado: não sofri nenhuma fratura. Ufa!, que benção, meu anjo da guarda não estava de férias neste dia.

Lembrei do motorista do carro, que era um Uber, que ao me ver estatelada chorava e dizia: ela tem idade para ser minha mãe, Deus queira que nada de grave tenha acontecido.

A policial me deu a ocorrência e colocou no verso o celular do motorista. Informou que eu teria 180 dias para entrar com queixa e processo.

Só pensava na próxima aula da oficina que eu estava ministrando o SESC Taubaté. Seria a última aula e eu tinha que estar boa para pegar um busão e finalizar o curso. Na sexta-feira, minha dor no ciático havia desaparecido com o coquetel de analgésicos, mas estava com o corpo dolorido e um roxão na coxa. Resolvi ligar para o Uber do atropelamento, o Edson, pois não conseguiria ir by bus apertado para Taubaté no sábado. Queria saber o quanto cobraria.

Ele ficou felicíssimo ao saber que não tinha acontecido nada grave comigo. Contou que nos dias anteriores ficou falando com a mulher sobre o acidente, preocupado comigo, e não tinha meu celular.

Falei que precisava ir para Taubaté. “Só me diz a hora que eu pego a senhora. É por minha conta”, disse ele mais do que rápido. No dia seguinte, me pegou em casa e foi aí que entendi o porquê da dor nas costas: a traseira do Jac sedã é alta. Às 11h saímos para a estrada. Fomos conversando no percurso. Ele é filho de uma família de 12 irmãos, perdeu sua mãe cedo e o pai, de 80 anos, teve um AVC, mas se recuperou. Edson disse que o Natal na casa dele era uma alegria, só a família mais os primos dava uma festa e tanto.

Quis lhe oferecer o almoço, não consegui. Ele foi, sim, imprudente em dar uma ré na contramão, mas sua delicadeza, toda gentileza e atenção do rapaz para se desculpar da sua manobra maluca, se contrapôs ao seu gesto temerário no volante.  

Na volta, agradeci muito a ele por ter me proporcionado conforto na viagem. A última aula da oficina literária realizada em novembro, no SESC de Taubaté, foi maravilhosa e com ótimo feedback dos alunos, que pretendem fazer um blog e já estão se articulando para postarem os exercícios e darem continuidade na produção de crônicas. Valeu o dia!

 Ao chegar em casa, não aguentei e dei um dinheiro para o Edson comprar uma caixa de chocolates bem caprichada para o pai dele. “Diga que foi uma moça quem mandou, pelo filho que tem”, brinquei.  Ele ficou sem graça, pediu desculpas novamente, se colocou à disposição para o que precisar e partiu rumo a sua casa, naquela noite de sábado. No Natal farei uma boa surpresa para ele. Sim, sem dúvida, este é o lançamento do que é um Uber Gold! 

***
Marina Bueno Cardoso – Jornalista com passagens pelos principais veículos da impresa, publicou em 2015 “Petit-Fours na Cracolândia” pela Editora Patuá. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.



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