Paladares da vida - São Paulo São

Hoje fiz uma sobremesa simples, mas que me encheu de alegria pelo paladar infantil resgatado: gelatina Royal de cereja. Lembrei-me da minha infância, quando minha mãe fazia rotineiramente, alterando os sabores, pois como eu e meu irmão éramos gordinhos, a festa dos doces era um bolo no final de semana ou quando almoçávamos na casa das avós.

Minha avó paterna, tinha loucura por strudel de maçã e strudel de papoula, coisa que herdou de sua mãe vienense. Outra coisa que gostava era marzipan, que meu avô comprava para ela na Kopenhaguen. e vinham em formas de frutinhas ou dentro do chocolate. Eu me esbaldava. No ginásio, quando ia com amigas ter aulas com meu avô, elas amavam os lanches e os doces, ai que doces...

Já minha avó materna gostava de um doce mais caipira – arroz doce, pudim de pão e ovos nevados eram campeões. Com a casa cheia sempre, nunca faltava um docinho de sobremesa, que delícia! Só de lembrar dá água na boca. Ou se não havia nada, o nada era uma goiabada cascão ou doce de abóbora com queijo de Minas.

E os lanches na escola, quando não usava mais lancheira? Comprava na cantina hot-dog e chocolate Mirabel “Dois Amores”, que combinava chocolate preto e branco.

Essa coisa do resgate de situações relacionadas ao paladar tem sempre um bom motivo. Tenho um amigo querido, o Vicente Nero, que é engenheiro e cada hora está em um projeto mais bacana que o outro fora de São Paulo. É fácil saber se ele está em SP: ele posta foto no Face de seu café com leite com pão na chapa na padoca mais próxima. Segundo ele, em todos os cantos que vai, tenta comer seu pão na chapa, mas nada fica perto dos de SP. Memória afetiva que aguça o paladar e o traz, sempre que vem para as padocas de SP.

Viajando no tempo, lembro-me das férias na fazenda de meu avô, quando Dona Nair, mulher do administrador, seu Zé Moreno, era uma doceira de mão cheia. Ficávamos grudados na cozinha e à tarde começávamos a ajudá-la a preparar os sequilhos, de araruta e de pinga e a puxar a bala de coco para fazer torcidinha... Hummm..., era uma maravilha, ficava molhadinha por dentro e sequinha por fora, derretia na boca.

Mas há muitos locais onde se revive emoções pelo paladar. Para mim, um lugar que é de babar é uma confeitaria de Cunha, no interior de SP, da doceira Cidinha, ponto de visita sempre que vou para lá. Se for para mergulhar nos prazeres e sabores da vida, lá é o local. Bolo recheado com pêssego, ameixa ou abacaxi, com aquele creminho de baunilha e cobertura de suspiro, é de matar qualquer regime. Olho de sogra, cajuzinho, camafeu, brigadeiro de gente grande! E, como é você não sai de lá de mãos abanando, tem sempre um doce de abóbora em calda, geleias variadas de tangerina, de laranja ou jabuticaba que você carrega para viagem de volta e se delicia em casa, tendo como recuerdo passagens da sua vida para compartilhar com os amigos.

Não sou boa cozinheira, me viro no trivial, mas, hoje, comer esta prosaica gelatina foi como rememorar a casa da Capitão Antonio Rosa, onde vivi 20 anos e ótimos momentos de minha vida. Que delícia!

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Marina Bueno Cardoso é Jornalista, trabalhou na imprensa em SP e na área de Comunicação Corporativa. Autora do livro “Petit-Fours na Cracolândia”, Editora Patuá. Publica crônicas quinzenalmente no São Paulo São que são replicadas no site literário www.musarara.com.br

 



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