Um outro Jardim Paulistano - São Paulo São

Quiaqui, quiaqui, quiaqui... O grito de guerra da turma da Rua Capitão Antonio Rosa, para falar que já tinha gente livre de lição de casa e que era hora de se reunir.

A turma da Capitão se dividia em duas: a verdadeira, e a turma do morrinho, que nem sei por que tinha este nome, mas o fato é que as mães falavam que eles eram do babado forte, e não podíamos brincar com eles.

Nem sei qual foi o primeiro dia que vi Karin e Adriana, minha dupla de amigas prediletas do bairro. Naquela época, o Jardim Paulistano não era de casas chiques e com guarda na porta. Era um bairro em expansão e na rua não faltavam terrenos com mamona para brincar com estilingue, e a pracinha – atual Praça Gastão Vidigal – era totalmente nossa, com direito a sorveteiro da Kibon com sua corneta a nos chamar.

Brincávamos de jogar taco com os meninos, pula sela, as garotas jogavam saquinho feitos de pano recheados com arroz e eram craques em pular elástico, que ficavam presos nas pernas de duas, enquanto a terceira saltitava com elástico cruzando entre os pés.

Quando queríamos fazer algo muito diferente, íamos ao Sirva-se, onde a Vera e a Odete, que trabalhavam na lanchonete, faziam milk-shake de chocolate, frapê de coco e até o banana split. Delícias daquela época. Mais tarde, quando o Sirva-se se transformou em Pão de Açúcar, elas viraram gerentes, e eram umas queridas. O Sirva-se tinha o Joãozinho, um anãozinho que era garoto simpático e sorridente, e levava as compras para casa no carrinho, quando não dava para nossas mães carregarem tudo. 

Os meninos eram muitos: Caco, meu irmão; Aurélio e Ricardo, que eram vizinhos de Karin e Thomas no predinho simpático de dois andares; Claudio e Sergio, irmãos de Adriana; Xampu seus irmãos; e mais tarde, Beto, Maria Silvia e seus irmãos menores. Isto só na Capitão Antonio Rosa, nas ruas ao redor moravam outros amigos.

Eu me lembro bem da Karin garota. Como poderia esquecer de minha primeira grande amiga. Éramos vizinhas, eu morava num sobrado e ela no prédio ao lado. No prédio era uma farra: eram só dois andares, mas bom motivo para movimento. A Karin tinha um irmãozinho, Thomas, que era café com leite nas brincadeiras, como dizíamos na época, pois tinha três anos a menos. Era para ele e para Serginho que fazíamos promoção quando brincávamos de lanchonete.

A limonada era com água da torneira do jardim e o biscoito era de Jacareí, de uma lata enorme que não acabava nunca – também, pudera, era seco de grudar no céu da boca. Os dois queriam ganhar a competição de quem bebia mais sucos e comia mais bolacha. O prêmio era um gibi do “Superhomem” outro do “Mandrake”, para os meninos, e da “Lili, a Garota Atômica”, para as meninas. No dia seguinte, as mães dos dois pirralhos vinham sempre falar com minha mãe: eles haviam confessado ter bebido uma jarra da limonada com água da rua e estavam com a mais legítima caganeira.

Daria todos os meus jogos, que ficavam empilhados na estante, mais minha coleção de livros da Mme Sèguir, e algumas bonecas, para ter o fogãozinho alemão da Karin, que dava para fazer comidinhas quentes de verdade. Além disso, o Opa, o avô dela, morava também no prédio com a Oma e fazia casinhas de boneca em miniatura com sua habilidade na marcenaria. Eram verdadeiras jóias. Eu adorava!

Quando o Aurélio e o Ricardo estiveram no Rio e falaram que lá tinha um lugar, o Castelinho, que era a coisa mais bacana desse mundo, quisemos montar o nosso clube, com carteirinha e tudo, e logo o nome escolhido pelos paulistaninhos foi Castelinho Club, que imaginávamos um lugar mágico. 

Achávamos muito importante sermos amigos do Aurélio e do Ricardo, vulgo Zica Bolinha, com seus dentinhos para frente, porque o tio deles era o Aurélio Campos, que nos anos 60 tinha um programa de entrevistas na TV . TV era algo novo em casa, com portinha e tudo. Tão surpreendente, que quando meus pais saiam à noite e ficávamos com Rosa – que ajudava a cuidar da casa e de nós e era crente –, ela falava que na sua igreja era proibido ver TV e, de Bíblia na mão, pedia sempre para assistir o “Moacyr Franco Show”, do qual ela era fã, e cantava junto “Vai que aprendi a esperar por ti”...  

Agora a garotada não tem mais turma de rua, de brincar fora dos portões. Seja em condomínio ou edifício, o fato é que ninguém mais faz aventura de ir de bike até o Morumbi, sem medo do trânsito, com nove anos de idade. Ninguém deixa filha ir a pé para a escola, sozinha, como eu ia, na plenitude da infância, com oito anos, caminhando livremente pelas calçadas, lancheira cruzada no peito, por uns seis quarteirões, carregando a maleta de couro – não se usava mochila para ir para a escola. Tempos bons da turma da Capitão. 

***
Marina Bueno Cardoso, jornalista, trabalhou na imprensa em São Paulo e na área de Comunicação Corporativa de empresas. É autora do livro “Petit-Fours na Cracolândia”, Editora Patuá. Publica crônicas quinzenalmente no São Paulo São que são replicadas no site literário www.musarara.com.br

 



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