Fofa, gordinha ou plus size? - São Paulo São

Ao ler a matéria de Otávio Janecke, publicitário que se tornou galã plus size e que, a princípio, se incomodou com a indagação se queria ser fotografado, por achar que havia sido chamado de gordo, lembrei de minha estreia – primeira e única – como fofa posando para foto de moda.

Foi no final dos anos 70. Soube que a Bernard Models estava com dificuldade para encontrar quem fosse gordinha e topasse posar para umas fotos da revista Nova, publicação da Editora abril, que teria a Fafá de Belém como uma das fotografadas. Quem me contou isso foi meu primo Ruyzito Ferraz que, antes de ter uma assessoria de imprensa – a Pro-Fashion, referência na divulgação da moda brasileira –, trabalhava na tal agência de modelos. Como nunca fui magrinha, exceto quando nasci, uma ratinha feinha, o assunto despertou meu interesse. Daí perguntei a ele mais detalhes, como seria a foto e se tinha cachê, uma vez que, como estudante, queria um dindim para desfrutar como bem quisesse.

Ao chegar no estúdio do conhecido fotógrafo Fernando Louza me disseram que precisariam dar um jeito em meus cabelos longos. Já que coque não tinha ficado legal, optaram pelo solto com ventilador voando. No início, estava um pouco tímida; depois, achando a maior bacaneza. No rosto um make-up suave, afinal era garota. Quando vi o vestido, não acreditei! Era branco de jersey, com renda, um show! Tinha sido criado por um dos destaques na alta costura da época, o estilista mineiro Markito, que fazia cerca de 300 vestidos por mês para artistas como Sonia Braga, Christiane Torloni, Marilia Pera, Sandra Brea, Gal Costa e Fafá de Belém, entre outras tantas. E mais: em Nova York sua clientela também era de arrasar. Liza Minelli, Bianca Jagger e Diana Ross costumavam desfilar seus looks no Stúdio 54.

Fiquei horas no estúdio tentando corresponder ao que pedia o fotógrafo e, por fim, o resultado foi bom, a foto saiu bacana. Na legenda colocaram algo como, “Marina já nasceu gordinha, com quase 5 quilos”!!!. “Não tô nem aí” foi a minha reação. Podiam me chamar de gordinha à vontade, já que tinha ficado bem feliz com o cachê da foto, ter vestido uma roupa de Markito e o dia de glamour ao lado de outras moças, assim como eu, fofas e felizes.

A loja foi fundada em 1939 e agora se atualizou no slogan: grandes marcas para tamanhos especiais. Foto: Divulgação.A loja foi fundada em 1939 e agora se atualizou no slogan: grandes marcas para tamanhos especiais. Foto: Divulgação. Mas agora a coisa não é ser fofa ou fofo, o que procuram são as e os modelos plus size. Tem uma loja tradicional masculina, a Camisaria Varca, que usava antigamente na placa “A loja do gordo elegante” e na vitrine tinha um modelo gordão vestido com roupas da época. A loja foi fundada em 1939 e agora se atualizou no slogan: grandes marcas para tamanhosespeciais. Politicamente correto. Sei bem, pois meu pai que media 1,93 de altura e pesava seus 110kg tinha problema em achar roupas para seu tamanho. Geralmente, fazia sob medida, inclusive os calçados, encomendados num sapateiro na Barra Funda, próximo da casa de meus avós.

Na luta para perder meus quilos a mais já fiz de tudo. Quando era adolescente descobri com umas amigas um médico na Rua Guaipá, na Lapa. Chamávamos o consultório de “Casas da Banha”. A fila para atendimento era quilométrica. Tinha que madrugar para pegar lugar e o tal médico (será que era médico?) fazia as consultas a toque de caixa. O tal doutor media sua pressão, conferia seu peso, não fazia nenhum exame, não perguntava de seus hábitos alimentares e, de cara, indicava os remédios manipulados que vendia na farmácia ao lado, que deveria ser dele, suponho. Os remédios e o tratamento eram iguais para todos e depois a dieta: arroz com feijão, croquete, macarrão, pastel, empadinha, batata-frita... Era um vale tudo. E o retorno da consulta em um mês.

Loucas para perder uns quilinhos, eu e minhas amiga fomos a esse consultório algumas vezes e depois, munidas das “bolas” que vendiam na farmácia, íamos embora para perder peso comendo de tudo. Ao final de um mês o resultado surpreendia. As bolas tiravam a fome e aceleravam o metabolismo. Certamente continham laxante, um primo do Laxix, hormônio para tireoide, anorexígenos que eram anfetaminas puras e muito mais. Faziam mal, é claro, mas quem ia para a Casas da Banha voltava feliz e maluquinha, pois as boletas deixavam qualquer uma a mil e faziam emagrecer. Só que vigorava o efeito sanfoninha: bastava parar de tomar as bolas, voltava tudo de novo.

 Ao final de um mês o resultado surpreendia. As bolas tiravam a fome e aceleravam o metabolismo. Foto: Getty Images. Ao final de um mês o resultado surpreendia. As bolas tiravam a fome e aceleravam o metabolismo. Foto: Getty Images. Depois disso tive outras experiências. Com o médico endocrinologista da moda, em que todas iam, fui também. Por que não testar? Após ver meus exames, ele recomendou doses cavalares de hormônio para tireoide (afirmou que eu tinha tireoide fetal) e Hipofagin, dois ao dia!!!  Quando cheguei em casa e contei o diagnóstico para minha mãe ela ficou apavorada e logo agendou com Dr. Cassio Ravaglia, um ótimo endócrino que era amigo de meu pai. Ele viu os exames, apalpou minha tireoide, fez uma consulta aprofundada e exclamou: “Esse famoso médico é um caso de polícia! Se você tivesse o que ele alegou não teria se desenvolvido. Seus exames acusam que sua tireoide está normal. Você não precisa nem deve tomar hormônios, tampouco mergulhar nesta dose de anfetamina para tirar fome.” Após me dar uma dura, passou uma dieta de calorias e mandou fazer exercícios.

Mas, na ânsia de perder medidas, embarquei em outras experimentos como, por exemplo, a receita de um farmacêutico do bairro. A dica foi de uma amiga: - Ele aplica um coquetel de Thiamucase com outras coisas que precisam de receita. Porém, indo no final do dia e dando uma caixinha, ele aplica sem receita, uma vez por semana, por um mês.

O que não fazia uma adolescente gordinha, me conta?

Hoje, me preparando para deixar de fumar, preciso perder mais cinco quilos para dar uma folga. Sigo o programa do “Vigilantes do Peso” e a coisa agora é fácil: o diário dos pontos pode ser feito no celular. Já se foram três quilos! É lento, mas cansei de ser piloto de prova de médico endocrinologista e de nutricionistas que têm ideias muito estapafúrdias. Não, não sou plus size, mas, como todas as fofas, me cuido. Afinal, depois de tanta experiência maluca, chegou a hora da boa e velha reeducação alimentar. 

Estou curtindo muito cozinhar pratos gostosos para não cair na mesmice. Foto: Freepik.Estou curtindo muito cozinhar pratos gostosos para não cair na mesmice. Foto: Freepik. Estou curtindo muito cozinhar pratos gostosos para não cair na mesmice. Sei  o que alguns quilos a menos fazem com a auto-estima não tem preço quando se mantém a saúde. E mais, concordo plenamente com Drauzio Varella, que disse que entregar aos deputados e senadores a questão da liberação de inibidores de apetite – proibidos nos EUA e na Comunidade Européia – é loucura mansa.

Como tudo pode acontecer, lembro-me de uma tia que a filha queria tomar as tais fórmulas. Sabe o que ela fez? Levou a garota de 13 anos no médico e combinou antes com ele para dizer que com essa fórmula incrível não podia tomar refrigerante, comer doce nem farináceos, pois dava um revertério brabo. Pegou a receita, disse para filha que ia mandar fazer. Na farmácia pediu para colocarem na cápsula leite Ninho. 

Não deu outra, minha prima levou a sério a recomendação do doutor de evitar tais alimentos e bebidas, sem saber que estava tomando placebo ficou magrinha e fazia a maior propaganda do médico. Coisas que a fofa descobriu só depois de dois anos, mas daí já nem precisava mais de drogas para emagrecer.

***
Marina Bueno Cardoso, jornalista, trabalhou na imprensa em São Paulo e na área de Comunicação Corporativa de empresas. É autora do livro “Petit-Fours na Cracolândia”, Editora Patuá. Publica crônicas quinzenalmente no São Paulo São que são replicadas no site literário www.musarara.com.br



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