São Paulo devora cidadã na pior das tragédias - São Paulo São

Acordo atrasada, corro. Sem café, não saio. Fast coffee. Fast city... Goooooo faster. Marginal é o rumo. Para me manter no prumo matinal, salto das notícias para as banalidades. É mais saudável ouvir uma música instrumental ou clássica? Zapeando no dial, eu vou e vou: entre berinjela composta, zap, PUC Cogeae, zap, surge Lobão na cena, perfeito: “A cidade enlouquece sonhos tortos (...). Mas não tente se matar / Pelo menos essa noite não...”

Troco a noite pelo dia. Parafraseio o som que acabo de ouvir, fechando os vidros do carro. Toneladas de caminhões seguem como elefantes em dia de funeral, fila indiana total. Não tem jeito, não consigo olhar para o lado, óculos escuros em dia nublado e, à minha frente, vejo estampado “Jesus, príncipe da paz”... De que lugar?, me pergunto. Certamente, não anda passando por aqui...

Parada na Bandeirantes, e a ponte gagueja, o carro é bolinado pelo peso da cidade. Mais um farol pedinte amigo, retorno e estou lá: mergulhada no dia de dentro. Sou uma insider, sem tempo para lembrar onde estou ou para onde vou. Rio, falo, falho e tomo muita água para fazer uma faxina de cabeça, tronco e membros. Vou num batidão legal, resultados para o cliente... É o minuto a minuto. Bandejão, frutas, saladas, massas, feijoada... Uma esbórnia por quilo. Mil intermezos para pito nicotinado, adrenalinas florais e cá estou...

Passadinha no dentista e... casa.

Motorzinho bom, fecho os olhos e relaxo com a destreza do tal cirurgião dentista. Boca fechada e conta paga, tchau. Tento chegar em casa numa hora digna de ouvir um som e desligar os ruídos antes de jantar. Já me vejo no meu lar sem cães nem gatos: recados no zapzap; checar e-mails; responder; só deletar junk mails mil.

Enfim, ainda estou no trânsito. E olho ao redor, moribunda entre floristas da hora do rush da Brasil esquina com a Henrique Schaumann. Ai, ai, mereço um pôr do sol, só que o horário já foi. Paisagem, caleidoscópio, terror. Em uma só quadra, minha paisagem é: Midas Autocenter, Coca-Cola, McDonald’s. Para acompanhar, comidinhas não faltam: qualquer pizza por nove reais e noventa centavos, Blockbuster total, Suvinil nos olhos e de cara com a Varig, nossa companhia aérea... É mole? Dá-lhe Hair Center, e vem mais aquele gostoso “Faz um vinte e um”, a Telefônica 15 mais embaixo, AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARGH! É tudo blablablá, “sangue, amor e poder de São Paulo.”

Falta pouco. Caminhões só de segunda a sexta, das seis horas às vinte e uma horas. Itaú é pedra tupi? Não, é banco mesmo. Cambridge Hotel surge na tela monstro, quem sabe este será meu refúgio? “Mas não tente se matar / Pelo menos essa noite não...”

Dá um tempo, o celular tocou, deve ser você.

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Marina Bueno Cardoso, jornalista, trabalhou na imprensa em São Paulo e na área de Comunicação Corporativa de empresas. É autora do livro “Petit-Fours na Cracolândia”, Editora Patuá. Publica crônicas quinzenalmente no São Paulo São que são replicadas no site literário www.musarara.com.br