Um tributo ao eterno “rapaz latinoamericano” - São Paulo São

Viva o Belchior! Antônio Carlos Gomes Belchior (1946-2017) de voz inconfundível, jeito de cantar poderoso, e um bigode com muita personalidade, o compositor nascido em Sobral, Ceará, se transformou em artista nacional pelas maravilhosas interpretações que Elis Regina fez de suas poesias.

O nome de Belchior ganharia grande notoriedade com o lançamento de Falso Brilhante, em 1976, disco antológico da cantora em que ela interpretava, de forma visceral, “Velha Roupa Colorida” e “Como Nossos Pais”.  O álbum Alucinação, lançado por ele no mesmo ano, ainda ecoa várias canções por rádios, TVs, shows e regravações em todas as partes do Brasil.

Observador do seu tempo, ele soube captar as nossas inquietações e as lapidou em letras com forte carga política e social, sem abrir mão da sensibilidade. Suas canções, assimiladas principalmente pela juventude dos anos 1970, inspiraram reflexões e foram reconhecidas como símbolo de engajamento de toda uma geração que lutava contra a ditadura militar e pela redemocratização do país.

Tributo a Belchior: show inédito com as participações de Ana Cañas, Karina Buhr e Taciana Barros tendo uma banda base com guitarras, violões de aço e nylon. Foto: Edison Ferreira.Tributo a Belchior: show inédito com as participações de Ana Cañas, Karina Buhr e Taciana Barros tendo uma banda base com guitarras, violões de aço e nylon. Foto: Edison Ferreira.

A pesquisadora da Universidade de São Paulo, autora de uma dissertação de mestrado e de uma tese de doutorado sobre Belchior, pela USP/Sorbonne, Josely Teixeira explica por que a obra do cantor se mantém tão atual mesmo depois de tanto tempo. “Belchior fala da luta diária para sobreviver nos centros urbanos, das migrações entre sertão e cidade, das relações de desigualdade entre povo e poderosos, dos sofrimentos dos excluídos, da força dos brasileiros e latinos diante de tudo isso. Enquanto houver isso no Brasil e no mundo, Belchior será atual”. 

Além do diálogo com a tradição literária, Belchior também foi um dos compositores que mais se propuseram a travar, dentro das canções, embates com outros criadores e artistas. Caetano Veloso, por exemplo, foi um dos alvos de seu olhar contestador. “Mas sei que nada é divino, nada, nada é maravilhoso. Nada, nada é sagrado, nada, nada é misterioso, não”, canta o cearense em Rapaz latino-americano em uma referência clara a Divino maravilhoso, de Caetano.

O tributo

“Belchior, o Tributo“: Foi catártico, amoroso, delirante”, contou Ana Canãs. As cantoras e a banda nos bastidores do show. Foto: Sato do Brasil / Instagram.“Belchior, o Tributo“: Foi catártico, amoroso, delirante”, contou Ana Canãs. As cantoras e a banda nos bastidores do show. Foto: Sato do Brasil / Instagram.É impossível não se emocionar com algumas músicas de Belchior. No tributo que aconteceu no SESC 24 de Maio no último dia 14, vivi uma noite de êxtase, em show inédito que contou com as participações de Ana Cañas, Karina Buhr e Taciana Barros tendo uma banda base com guitarras, violões de aço e nylon. Foi realizada uma detalhada pesquisa de cada composição escolhida para que as versões recuperassem elementos como solos e riffs das gravações originais e dos violões das apresentações ao vivo de Belchior. 

Os arranjos potencializaram a face poética, filosófica e musical do genial e fundamental artista. Intercalando com quatro pequenas entradas,  Martha Nowill, atriz convidada, apresentou os climas e inspirações que geraram as composições ao ler trechos do livro que deu origem ao projeto, a biografia "Belchior - Apenas um Rapaz Latinoamericano", escrita por Jotabê Medeiros. No livro, os fatos específicos das várias fases da vida e da obra do compositor cearense são apresentados num assemblage que parte do perfil biográfico (iniciado com Belchior ainda vivo) e chega ao ensaio biográfico, com ares por vezes de biografia romanceada.

“Cantar Belchior é transcender qualquer expectativa. É muita sensibilidade e genialidade. Quando o público canta junto – e canta mesmo! –, dá uma emoção louca. Foi catártico, amoroso, delirante”, contou Ana Canãs. 

Lembro-me que na época do seu falecimento, em 2017, circulou pelas redes sociais o pedido “Volta Belchior”. Durante o show tive a sensação de que ele não morreu. Apenas não está aqui e, como os grandes seres humanos, sempre viverá em nós como o eterno “rapaz latinoamericano”. Até a próxima. 

***
Leno F. Silva é diretor da LENOorb - Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Escreve às terças-feiras no São Paulo São. 

 



APOIE O SÃO PAULO SÃO

Ajude-nos a continuar publicando conteúdos relevantes e que fazem a diferença para a vida na cidade.
O São Paulo São é uma plataforma que produz conteúdo sobre o futuro de São Paulo e das cidades do mundo.

bt apoio





 
 
APOIE O SÃO PAULO SÃO

Ajude-nos a continuar publicando conteúdos relevantes e que fazem a diferença para a vida na cidade.
O São Paulo São é uma plataforma que produz conteúdo sobre o futuro de São Paulo e das cidades do mundo.

bt apoio