Menos é mais - São Paulo São

Ludwig Mies van der Rohe (1886 -1969). Imagem: ArchDaily.Ludwig Mies van der Rohe (1886 -1969). Imagem: ArchDaily.

Louis Sullivan, arquiteto americano considerado o "pai" dos arranha-céus de Chicago, é reconhecido também pela influência que teve sobre alguns dos mais importantes arquitetos modernistas do século XX, como Frank Lloyd Wright e Ludwig Mies van der Rohe. Ainda em 1896, anos antes de Mies cravar sua famosa frase "less is more" (usada para se referir a uma linguagem de clareza e depuração, traduzida em formas geométricas básicas e também em sofisticação e cosmopolitismo, características de seus edifícios de aço e vidro), Sullivan já havia afirmado que "a forma segue a função" – uma  referência aos padrões de proporções e à interdependência dos princípios conceituais ("utilitas" "venustas" e "firmitas", respectivamente "utilidade", "beleza" e "solidez") estabelecidos por Vitruvius em seu "De Architectura" (aprox. 27 a 16 a.C.).

O Homem Vitruviano, por Leonardo da Vinci.  Fonte: British Library.O Homem Vitruviano, por Leonardo da Vinci. Fonte: British Library.

Com esse conceito de depuração – ou seja, de utilizar o estritamente necessário para chegar ao perfeito equilíbrio entre beleza e eficiência (e, no limite, entre estética e ética) –, o chamado "minimalismo" atravessou décadas e se expandiu para muito além da arquitetura. Seja nas artes plásticas, na literatura, na comunicação visual, no design de produtos ou na música, chegar a um nível de despojamento que revele a verdadeira essência de uma obra e ao mesmo tempo coloque o espectador em estado de contemplação, leveza e espanto, é alcançar o sublime.

Piet Mondrian, "Composition in Red, Blue, and Yellow", 1937-42. Fonte: MoMA.Piet Mondrian, "Composition in Red, Blue, and Yellow", 1937-42. Fonte: MoMA.Ernest Hemingway, Raymond Carver, Dalton Trevisan, Piet Mondrian, Frank Stella, Mira Schendel, Luis Barragán, Paulo Mendes da Rocha, Bob Gill, Alexandre Wollner, Chet Baker, Philip Glass, João Gilberto... cada qual em sua época, e independentemente de rótulos ou movimentos, esses excepcionais artistas sempre buscaram se despir do supérfluo para chegar ao essencial – usando (com maestria) o mínimo para mostrar (e dizer) o máximo. E trilharam esse caminho de diferentes maneiras, todas elegantes, belas e (mais comovente ainda) únicas.

Pensei em tudo isso depois de ter assistido a um show da cantora paulistana Anna Setton, dias atrás. Vivemos hoje uma época de hipervalorização da intensidade e dos ornamentos musicais, com grupetos, mordentes e trinados exaustivamente utilizados por cantoras e cantores brasileiros; em meio a esse vendaval de excessos, ouvir uma intérprete que se dedica justamente a depurar uma canção, chegando à essência por meio da precisão, da delicadeza  e do despojamento, foi para mim um bálsamo.

Foto: Anna Setton / DivulgaçãoFoto: Anna Setton / Divulgação

Clique para ouvir  Anna Setton em "Speak Low" (Kurt Weill & Ogden Nash), acompanhada de Evaldo Soares, Lito Robledo e Jorge Saavedra. 

Não bastassem a beleza de sua voz e sua magnética presença de palco, a maturidade, o conhecimento musical e o domínio técnico da cantora são incontestáveis, já que sem eles não seria possível alcançar a sofisticada simplicidade de suas interpretações. Do standard americano ao samba contemporâneo, passando pela chanson française e pelo pop italiano, Anna flui despretensiosa e cativante, provando que Vitruvius, Sullivan e Mies sempre tiveram razão: não importam os vendavais, menos ainda é mais.

Para conhecer e ouvir: http://www.annasetton.com.br/

***
Valéria Midena, arquiteta por formação, designer por opção e esteta por devoção, escreve quinzenalmente no São Paulo São. Ela é autora e editora do site SobreTodasAsCoisas, produtora de conteúdo e redatora colaboradora do MaturityNow.