É possível viver sem conexões virtuais - São Paulo São

Por algumas horas, voltei no tempo. Sem conexão WiFi, nem sinal de TV, me senti no universo off-line, e por um intervalo de três horas resgatei aquela função do celular quando ele foi inventado, e o utilizei para chamar o serviço de atendimento ao cliente.

Do outro lado da linha uma voz humana, masculina e gravada, ao reconhecer o meu número disse que na região onde resido estava ocorrendo um problema técnico, e que todos os esforços estavam sendo dedicados para restabelecer os serviços no prazo mais rápido possível.

Pensei comigo: que cara inteligente, sem que eu tenha dito nada ele me deu a resposta objetiva, que não aliviou o meu problema, mas evitou que os atendentes verdadeiros escutassem e respondessem as reclamações dos milhares de usuários que ficaram a ver navios e totalmente desconectados de tudo o que aconteceu naquele período.

Aproveitei as horas sem conexão para fazer outras coisas: ler um livro, meditar, tomar café, lavar louça e escrever esta crônica; primeiro à mão, com caneta, reutilizando uma face das folhas de papel para impressão.

Reconheço que adoro escrever usando lápis e caneta, porque me permite exercitar a caligrafia, a fim de evitar que, por pouca utilização, os textos se transformem naqueles garranchos incompreensíveis dos médicos de antigamente.

Graças aos avanços tecnológicos e à eficiência dos profissionais que atuam nos bastidores dos serviços de telecomunicações, tudo voltou ao normal antes do prazo previsto, e não foi necessário seguir a orientação da voz humana que me atendeu pedindo para desligar os aparelhos da tomada de energia a fim de restabelecer os sinais.

Vale ressaltar que essa eficiência no conserto também pode estar relacionada às normas da ANATEL, entidade reguladora do setor, que deve aplicar multas expressivas dependendo do período em que os serviços ficam fora do ar. Resumo da ópera: nos dias de hoje somos dependentes das conexões, mas é bom viver, pelo menos por algumas horas, sem os sinais que nos mantém ligados instantaneamente no mundo virtual. Por aqui, fico. Até a próxima.

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Leno F. Silva é diretor da LENOorb - Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Escreve às terças-feiras no São Paulo São.



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