A lenha, a fogueira e a maturidade - São Paulo São

– Que reta final que nada, D. Lourdes! A sra. ainda tem muita lenha para queimar!”

 – Você que pensa, minha filha! Não sabe o quanto já queimei... hahaha… Tenho 96 anos muito bem vividos! Agora é hora de descansar…

D. Lourdes começa a falar baixinho:

– Vou contar uma historinha: era começo dos anos 70, eu já estava viúva há mais de 10 anos… (E viúva, sabe como é, né? Tem que se cuidar, porque qualquer coisa já saem falando!) Mas aí um dia eu saí do trabalho e fui para o ponto do ônibus, como fazia todos os dias. Ali na Praça do Patriarca, sabe? Então, estava ali esperando meu ônibus quando encostou um carro, um rapaz abriu a porta e começou a falar comigo. Veio todo educado, dizendo que me via todos os dias ali, no mesmo horário, que sabia que eu pegava o Lapa (!!!), que era o mesmo caminho que ele fazia… e que ele poderia me dar uma carona. Olhei para ele e disse assim: “Carona? E eu lá sou mulher de pegar carona com desconhecido?” E ele: “Não seja por isso, eu me apresento: me chamo Alberto Oliveira (nome fictício), tenho 56 anos, trabalho no Banco do Brasil e moro na rua Camilo”. Ele tinha uma cara boa, falava muito bem… e naquela época a violência não era como hoje, sabe? A gente confiava mais nas pessoas. Aí eu pensei: “Bom, funcionário público, eu também; mora na Lapa e trabalha no Centro, eu também; bem apessoado, educado, tem mais ou menos minha idade… por que não?” Aceitei.

Pausa. E, em seguida, numa explosão de alegria, D. Lourdes gargalha:

– Quem diria que aquela “carona” ia durar oito anos, hein?!… hahaha…

Essa história (real) vive permanentemente na minha memória. Mais do que o enredo, impressionou-me a maneira como D. Lourdes contou tudo isso: com leveza, humor, prazer… e uma certa malícia que, até então, eu jamais esperaria ver em uma senhora de 96 anos.

Durante dias refleti sobre o episódio. Por que aquela conversa tinha me impactado tanto? Não éramos muito próximas, e sem dúvida ter merecido sua confiança me deixou tocada. Mas não era apenas isso. Por que ter ouvido uma idosa falar sobre sedução e desejo me pareceu tão surpreendente?

 “Amantes no quarto do andar de cima de uma casa de chá”, Kitagawa Utamaro (xilogravura, final do séc. XVIII) “Amantes no quarto do andar de cima de uma casa de chá”, Kitagawa Utamaro (xilogravura, final do séc. XVIII)

A resposta é simples: porque, em nossa sociedade, não falamos sobre a sexualidade na idade madura. Tudo que se ventila sobre o tema aparece sempre vinculado à juventude – como se, a partir de uma certa idade, esse aspecto absolutamente natural na vida das pessoas deixasse de existir. Em nosso imaginário coletivo, predomina ainda o estereótipo dos “velhos avós” que, depois de criarem filhos ou se aposentarem, “penduram as chuteiras”, abandonando o jogo da sedução e do desejo. Uma senhora de cabelos brancos, com filhos, netos e bisnetos, falando com malícia e prazer sobre uma aventura romântica vivida aos cinquenta e tantos anos, subverte nossas expectativas.

Mais do que a sexualidade na idade madura, a sexualidade da mulher nessa fase é, em especial, um completo tabu, cheio de rótulos e pré-conceitos. Em uma recente entrevista à revista Fausto Mag, a antropóloga Mírian Goldenberg, pesquisadora do envelhecimento e autora, entre outros, do livro “A Bela Velhice” (Ed. Record, 2013), aponta esse como “um tema tabu MUITO importante de ser debatido para acabar com as rotulações”. Se, por um lado, os homens maduros são socialmente valorizados quando se mostram sexualmente ativos, a mulher “que continua exercendo sua sexualidade é acusada de velha sem noção, coroa periguete, velha assanhada etc.”. (Como bem disse D. Lourdes: mulher viúva…)

Lily Tomlin e Jane Fonda em cenaa de ‘Gracie and Frankie’, série do Netflix. Foto: Divulgação.Lily Tomlin e Jane Fonda em cenaa de ‘Gracie and Frankie’, série do Netflix. Foto: Divulgação.

Precisamos entender que a velhice mudou, completa e rapidamente. Nossos “velhos de hoje” não têm nada a ver com aquela imagem dos “antigos velhos”– de chinelos, dentro de casa, à frente da televisão ou cozinhando para netos. (Um recente artigo publicado pela “The Economist” aborda esse tema com mais profundidade.)

Os “novos velhos” estão inaugurando uma “nova velhice”: aos 60, 70, 80, continuam vivendo em sua plenitude. São ativos, produtivos, cheios de vitalidade. Praticam atividades físicas, compram roupas, frequentam restaurantes, se divertem. Estão “na roda”, namorando, casando, separando, experimentando. E fazem isso não porque querem parecer mais jovens – estão confortáveis com seu percurso. Simplesmente querem seguir fazendo o que sempre fizeram, o que gostam de fazer.

Mas querem tudo isso com conforto e qualidade. Querem produtos e serviços que atendam a seus gostos, suas preferências e, claro, suas novas condições e limitações – porque a idade traz, sim, mudanças e limitações a todos. Querem praticar sua atividade física numa academia onde não toque uma música eletrônica a 180 decibéis, mas que também não se pareça com um centro de reabilitação. Estão dispostos a comprar um creme antiidade que custa US$ 100, mas querem pelo menos conseguir ler sua bula. Querem usar roupas bonitas, contemporâneas, por meio das quais possam se manter fiéis a seus respectivos estilos – mas que tenham sido pensadas para os novos contornos de seus corpos (afinal, ninguém está a fim de se vestir como se tivesse assaltado o guarda-roupa do filho, nem tampouco o do avô).

Cena de 'As Pontes de Madison' (1995) com Merryl Streep e Clint Eastwood sobre o amor de um fotógrafo e uma dona de casa. Foto: Divulgação.Cena de 'As Pontes de Madison' (1995) com Merryl Streep e Clint Eastwood sobre o amor de um fotógrafo e uma dona de casa. Foto: Divulgação.

E, sobretudo, querem continuar a amar e ser amados. Ter desejo, ficar a fim, beijar na boca, andar de mãos dadas, fazer sexo – seja casual, seja com um(a) novo(a) companheiro(a) ou com o(a) aquele(aquela) da vida toda. O fato é que, na maturidade, a forma pode até ser outra, mas desejo, atração e sexualidade continuam existindo.

Ainda bem, né?  ;o)

P.S. Naquele mesmo dia, antes de ir embora, D. Lourdes me chamou de lado e disse assim:

“– Pensei melhor. Já queimei muita lenha, mas se hoje alguém ainda estivesse disposto a me dar uma carona, eu bem que aceitava, viu?... hahaha…”

***
Valéria Midena, arquiteta por formação, designer por opção e esteta por devoção, escreve quinzenalmente no São Paulo São. Ela é autora e editora do site SobreTodasAsCoisas, produtora de conteúdo e redatora colaboradora do MaturityNow.

 



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