O vai e vem de brasileiros e portugueses - São Paulo São

Esses dias recebemos pessoas muito queridas do Brasil aqui em casa. Não nos víamos desde que chegamos, em janeiro. E família reunida tem conversa na sala noite adentro, um bom vinho, queijos, risadas. As noites quentes de agosto ficaram ainda mais calorosas nessas duas semanas de encontro. E apesar de não ter tdo roda de samba no apartamento ou pancadão na madrugada, um dos vizinhos não gostou muito. Um bilhetinho anônimo debaixo da porta na manhã seguinte nos alertava que nós, “brasileiros que fugíamos do Brasil”, deveríamos respeitar mais a vizinhança, sob pena de a polícia ser chamada, em caso de reincidência. Sem nome, sem identificação e sem uma ligadinha no interfone, se era algo que incomodava tanto. O fato, vale frisar, é bem isolado e não representa a maneira como temos sido tratados desde a nossa chegada. Gentileza e acolhimento marcam a nossa passagem por aqui, principalmente com os nossos outros todos queridos vizinhos. Mas trouxe o exemplo porque posso até imaginar que essa enxurrada de brasileiros, para aqueles mais rabugentos, possa mesmo incomodar um pouco.

Ovar é uma cidade pequena e já se nota a presença brasileira por onde se vá. É gente trabalhando, investindo na cidade, comprando imóveis, abrindo negócios. Em uma das imobiliárias da região (que, claro, já tem também corretora brasileira), o público que vem do Brasil já responde por mais de 70% do faturamento. Mas também tem aqueles que chegam para “assuntar”, pesquisam, fuçam as possibilidades de trabalho, de lugar para morar, descobrem que nem tudo são flores, e preferem voltar. Vida de recém-chegado não é fácil mesmo e exige uma grande dose de abertura para o novo, de flexibilidade, de resiliência. Tem também uma fatia grande de portugueses com um pé no Brasil, seja por terem família e origem no país tropical ou por manterem negócios no “país irmão”.

Ovar é considerada a cidade museu do azulejo. Foto: Lurdelinhas.Ovar é considerada a cidade museu do azulejo. Foto: Lurdelinhas.

escrevi aqui que a história de Ovar – especialmente no que diz respeito às fachadas de azulejos tão lindas e características das casas e edifícios da cidade – passa pelo Brasil: portugueses que fizeram dinheiro do lado de lá do Atlântico em séculos passados voltavam para cá e “enfeitavam” suas casas com a arte azulejar, exibindo com orgulho um novo status social da riqueza construída no Brasil. Enfim, essas ondas de portugueses e brasileiros indo e vindo não são novidade para nenhum dos lados e tem deixado mais benefícios do que complicações ao longo dos anos. E pode-se dizer, sem medo de errar, que essa dinâmica de vai e vem – agora mais de “vem” do que de “vai”- de brasileiros em Ovar é a mesma de outras cidades portuguesas.

Dados recentes do Banco de Portugal mostram que Brasil e Reino Unido foram os dois destinos que tiveram as maiores quedas de gastos de portugueses no exterior no primeiro semestre deste ano, apesar de, no mesmo período, os portugueses terem aumentado suas despesas fora do país em mais de 156 milhões de euros. Ou seja, o português está gastando mais, mas não no Brasil. Nos seis meses iniciais de 2018, foram mais de 20 milhões de euros que deixaram de ser gastos no Brasil pelas mãos dos portugueses. O Brasil ocupa a décima posição neste ranking, com pouco mais de 44 milhões de euros de gastos turísticos contabilizados pelo banco central português. Quando comparado com o mesmo período de 2017, a queda foi de 32%. Hoje, o Brasil representa apenas 2% de todos os gastos dos turistas portugueses. Como referência, quase 5% dos euros portugueses (cerca de 106 milhões de euros) vão para os Estados Unidos. Quanta oportunidade o Brasil está perdendo... Além de Brasil e Reino Unido, os portugueses também gastaram menos nos Estados Unidos (-0,5%), Suiça (-2,4%), Irlanda (-8,8%) e Angola (-30,1%).

Ingleses formam o maior grupo a passear em Portugal, superando os 20% de todos turistas estrangeiros no país. Foto: Getty Images.Ingleses formam o maior grupo a passear em Portugal, superando os 20% de todos turistas estrangeiros no país. Foto: Getty Images.

No sentido contrário, o turismo brasileiro em Portugal continua trazendo muito dinheiro para a terrinha, junto com a turma de norte-americanos, o que tem minimizado uma grande preocupação das autoridades portuguesas: o número de britânicos – tradicionalmente, a maior fatia dos estrangeiros que visitam Portugal - que seguidamente vai caindo. Nos primeiros cinco meses deste ano, de acordo com os dados recém divulgados, o número de turistas norte-americanos subiu mais de 20%, seguidos pelos brasileiros e canadenses, ambos com alta de quase 13%. Em 2015, foram 300 mil norte-americanos desembarcando em Portugal, número que saltou para 600 mil em 2017 e, estima-se, irá ser ainda maior em 2018.

A região do Algarve tem o melhor campo e hotel de golfe de Portugal. Foto: Quinta do Lago / Divulgação.A região do Algarve tem o melhor campo e hotel de golfe de Portugal. Foto: Quinta do Lago / Divulgação.

Já os ingleses... a preocupação das autoridades se baseia no fato de que este é o maior grupo a vir passear por aqui, superando os 20% de todos os estrangeiros turistando em Portugal. Quando se isola determinadas regiões, o número é ainda mais alto, como é o caso do Algarve (40%). Comparando os primeiros meses deste ano com igual período do ano passado, há uma diferença de cerca de 30 mil britânicos. Os ingleses estão viajando menos? Não exatamente, explicam os especialistas. A diferença é que o euro valorizou em relação à libra e Portugal passou a ficar mais caro. Além disso, países como a Turquia, ao contrário, ficaram mais barato, também em função das variações cambiais. Por fim, mudanças no setor da aviação, como o fim de uma importante empresa que fazia a ligação entre os dois países, ajudaram a alterar o cenário. Por outro lado, há um ponto positivo em toda essa mudança: os ingleses, apesar de em menor número, tem aumentado os gastos per capta. Na análise dos mesmos períodos, os gastos subiram mais de 8%, fazendo com que a receita turística gerada pelo Reino Unido tenha ficado acima dos 370 milhões de euros.

Mesmo com outros destinos voltando a aparecer, como Egito, Turquia e Tunísia, Portugal segue a crescer como destino turístico, apesar de em um ritmo mais lento. Nos primeiros meses de 2017, a alta girava em torno dos 12% em número de pessoas, enquanto no mesmo período deste ano ficou em pouco mais de 1%. Por outro lado, em receita o crescimento no período foi de 9,5% (contra quase 19% em igual período de 2017). Quanto aos ingleses, o governo já anunciou que vai investir um milhão de euros no Algarve e na Madeira para aumentar a procura, principalmente na época baixa, de outubro e 2018 a março de 2019.

O vendedor falava “brasileiro” e de maneira muito simpática respondeu: “não se preocupe, a gente sabe o que é banheiro porque assiste muita novela e tem cada vez mais clientes do Brasil”. Foto: SAPO.O vendedor falava “brasileiro” e de maneira muito simpática respondeu: “não se preocupe, a gente sabe o que é banheiro porque assiste muita novela e tem cada vez mais clientes do Brasil”. Foto: SAPO.

Ovar não aparece nos detalhes de nenhuma destas grandes estatísticas, mas como mero observador posso afirmar que a quantidade de brasileiros por aqui aumentou muito desde janeiro. Já se ouve o nosso português no balcão da lanchonete, nos parques, nas lojas, no supermercado, nos cafés, na praia. O “nosso” idioma e suas palavras diferentes não assustam mais ninguém. Estes dias fomos numa grande loja de material de construção e coisas para casa. Quando pedimos para ver algo para o banheiro, até tentamos corrigir rápido para “casa de banho”, mas não foi preciso. O vendedor falava “brasileiro” e de maneira muito simpática respondeu: “não se preocupe, a gente sabe o que é banheiro porque assiste muita novela e tem cada vez mais clientes do Brasil”. Viva a simpatia, viva essa troca deliciosa de cultura, viva o vai e vem de brasileiros e portugueses. E pro meu vizinho: não, não viemos fugindo do Brasil!

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Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.



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