Silencioso entendimento - São Paulo São

O americano Irving Penn foi um dos grandes responsáveis pela construção da imagem da mulher ocidental da segunda metade do século XX.

A moda de Issey Miyake por Irving Penn. 'White and Black', Nova York, 1990.A moda de Issey Miyake por Irving Penn. 'White and Black', Nova York, 1990.

Tendo ingressado na Vogue ao final da década de 40 pelas mãos de Alexander Liberman (com a função de “dar ideias para as capas”), acabou por se firmar como talentoso criador de imagens de moda, repletas do glamour e da sensualidade aos quais aspirava a sociedade americana do pós-guerra. Se por um lado seu olhar quase aristocrático privilegiava poses de rígido formalismo – que remetiam às fotografias das décadas anteriores – por outro lado o minimalismo e o despojamento percebidos nas imagens que criava mostravam, sem dúvida, o caráter inovador de seu trabalho. Mesmo quando a própria moda era construída por excessos, pelo olhar sensível de Penn filtrava-se o supérfluo, e o resultado eram sempre imagens de grande elegância e sofisticada simplicidade.

 A curadoria é de Maria Morris Hambourg, curadora independente, e de Jeff L. Rosenheim, curador do departamento de fotografia do Met. A curadoria é de Maria Morris Hambourg, curadora independente, e de Jeff L. Rosenheim, curador do departamento de fotografia do Met.

Desde a semana passada, e até 18 de novembro, está em cartaz no Instituto Moreira Salles (IMS Paulista) a retrospectiva “Irving Penn | Centenário”. Organizada pelo Metropolitan Museum of Art em parceria com a Irving Penn Foundation, a belíssima exposição (que antes passou por Paris e Berlim) é a maior sobre o trabalho do fotógrafo já apresentada na América do Sul.

A mostra é uma homenagem aos 100 anos de nascimento de Penn, e traz mais de 230 fotografias concebidas ao longo de seus quase 70 anos de carreira – desde os trabalhos iniciais em Nova York, na América do Sul e no México, até imagens de alta-costura, de povos indígenas peruanos (a primeira de muitas séries que fez sobre pessoas comuns, em várias partes do mundo), além de muitos de seus inesquecíveis retratos de personalidades como Picasso, Audrey Hepburn e Miles Davis.

Em 1986 Irving Penn fotografou Miles Davis (1926-1991), para a capa do álbum "Tutu" do trompetista.Em 1986 Irving Penn fotografou Miles Davis (1926-1991), para a capa do álbum "Tutu" do trompetista.

Entre os diversos e icônicos projetos aos quais Irving Penn se dedicou ao longo da carreira, há o registro, por mais de 20 anos, do trabalho de Issey Miyake – sem dúvida, um dos mais geniais designers de roupas do século XX.

Nascido em Hiroshima 7 anos antes de a cidade ser destruída pela guerra, Miyake, muito além do rótulo de “designer japonês” que a imprensa internacional lhe costuma atribuir, jamais restringiu-se à identidade nacional, buscando sempre o equilíbrio entre tradição e inovação para criar projetos universais. “Eu crio não para expressar meu ego ou personalidade, mas para tentar trazer respostas àqueles que estão se perguntando sobre nossa era e como deveríamos viver nela.”

O trabalho de Issey Miyake no olhar de Irving Penn. Imagem: Divulgação.O trabalho de Issey Miyake no olhar de Irving Penn. Imagem: Divulgação.

Partindo de um conceito simples e minimalista – “fazer roupa a partir de um pedaço de pano” – o trabalho de Miyake resulta do antigo princípio de envolver uma figura tridimensional com material bidimensional utilizando-se de dobras. Aliando tecidos japoneses a cortes ocidentais, novas tecnologias e funcionalidade, seu “less is more” constrói arquitetonicamente formas simples, elegantes e de rara beleza.

A união entre esses dois artistas de origens culturais tão diferentes foi registrada em 1999 no belíssimo livro “Irving Penn regards the works of Issey Miyake”, de Midori Kitamura e Mark Holborn (encontrado também em outras edições com o nome “Issey Miyake | Photographs by Irving Penn”). E esse encontro, que a princípio pareceria insólito, produziu centenas de imagens arrebatadoras, na medida em que o trabalho de um acabou se tornando espelho para o trabalho do outro.

Sob o olhar de Penn, as poses das modelos fizeram das roupas de Miyake verdadeiras esculturas, em cenas que mais se parecem com fragmentos de uma dança; Miyake, por sua vez, ofereceu a Penn a chance de exercitar seu rigor formal com texturas, formas e máscaras vindas de outra cultura. E da união desses dois “mestres da redução”, como os definiu Holborn na introdução do livro, surgiram imagens secas, exatas e cortantes, que não oferecem espaço para nada além do essencial.

Imagens: Reprodução.Imagens: Reprodução.

O resultado dessa bela parceria, a que Miyake poeticamente chamou de “silencioso entendimento”, comprova que os conceitos de beleza e elegância podem, sim, ser universais – e permanecer na mente e no coração de pessoas das mais diferentes culturas ao longo de toda a eternidade.

O belíssimo catálogo da exposição “Irving Penn | Centenário” está à venda na loja do IMS Paulista e também no site do Instituto. E o livro “Issey Miyake | Photographs by Irving Penn” pode ser encontrado nas principais livrarias do país.

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Valéria Midena, arquiteta por formação, designer por opção e esteta por devoção, escreve quinzenalmente no São Paulo São. Ela é autora e editora do site SobreTodasAsCoisas, produtora de conteúdo e redatora colaboradora do MaturityNow.



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