As lindas pragas voadoras - São Paulo São

Moramos no último andar de um pequeno edifício no centro de Ovar. A cidade não tem prédios altos, como se pode imaginar, e a minha janela do quinto andar se abre para praticamente todos os telhados das lindas casas azulejados. É um privilégio, sem dúvida. Mas, da varanda também vejo o sobrevoo de monstrinhos alados ou das pragas voadoras, como também falam por aqui. Sim, estou me referindo aos pombos, esses pequenos seres que, quando branquinhos, participam de cerimônias de abertura de Copa do Mundo e de Olimpíadas, que fazem parte do nosso imaginário ao carregar ramos de oliveira nos bicos, que já ajudaram a trocar mensagens importantes, mas que são realmente sem graça quando se enfileiram nas beiras dos telhados, como filme de Hitchcock. Parecem apenas esperar o melhor momento (enquanto não estão tentando fazer a “dança do acasalamento” com direito a bicadas na cabeça das pombas), para fazer coco na turma que anda na rua, preferencialmente sobre ombros e cabeça. A pobre da minha mulher já foi uma das vítimas e teve que voltar para casa correndo pra tentar salvar a roupa do trabalho e, pior, o penteado.

Dia desses, chuva forte na cidade, começa a pingar água pelo lustre. Pingar é modéstia. Cachoeira sobre o colchão, baldes espalhados pelo chão. E lá fomos nós reclamar na administradora do condomínio, que em tese deveria cuidar da limpeza dos telhados e checar se há telhas quebradas. No dia seguinte estava no telhado o sujeito que havia feito a limpeza nas calhas poucas semanas antes. E eles mais uma vez: três pombos mortos entupiam as calhas e ainda ajudaram a emporcalhar ainda mais a água preta que caiu nas nossas coisas.

O último censo realizado pela Faculdade de Medicina Veterinária contou mais de 23 mil pombos em Lisboa. Foto: Ana Silva.O último censo realizado pela Faculdade de Medicina Veterinária contou mais de 23 mil pombos em Lisboa. Foto: Ana Silva.

Os pombos (e também as gaivotas) costumam aparecer com algum destaque nos jornais, nas discussões, no planejamento urbano das autoridades e na definição de leis e regras que tentam conciliar o fim dessas aves com o respeito pelos animais. Vez ou outra, porém, ainda vemos as pessoas se divertindo com aquela tradicional e aparentemente inofensiva brincadeira de jogar milho, farelo e pão para os pombos. E o que não falta é alerta para não os alimentar. As leis são reeditadas, ajustadas ou simplesmente relembradas. Campanhas de comunicação e cartazes nas ruas refrescam a memória dos que se distraem como se estivessem na Praça San Marco, em Veneza. Na bonita Aveiro, há vários cartazetes espalhados pela cidade. Nos últimos dias, foi publicado o Regulamento de Fiscalização dos Serviços de Gestão de Resíduos Urbanos e Limpeza do Espaço Público no município do Porto, que define multas que vão dos 75 aos 5 mil euros para quem der comida para as aves em espaço público.

E no caso da cidade do Porto, o problema vai além dos pombos. Em uma caminhada na Ribeira, com aquela vista maravilhosa do Douro, sempre teremos a companhia das gaivotas, que também ajudam a compor o cenário e a produzir fotos lindas, com suas grandes asas abertas, dando rasantes sobre o espelho de água e enfeitando ainda mais o pôr do sol. Mas elas já perderam totalmente o medo e a vergonha: se deixar, dividem com você os petiscos sobre a mesa ou furam os sacos de lixo nas ruas, numa grande disputa com eles, os pombos.

Regulamento da cidade do Porto, define multas que vão dos 75 aos 5 mil euros para quem der comida para as aves em espaço público. Foto: Getty Images,Regulamento da cidade do Porto, define multas que vão dos 75 aos 5 mil euros para quem der comida para as aves em espaço público. Foto: Getty Images,

Tanto os pombos quanto as gaivotas podem transmitir doenças graves, além de degradar monumentos com suas fezes. No caso das gaivotas, ainda há o perigo de um “ataque”, estilo Hitchcock mesmo. As mais ousadas partem para cima das mesas para bicar comida e o que estiver na frente. Pesquisa recente de estudantes da Universidade de Aveiro aponta que mais de 85% da população concorda com a necessidade de controle da população. Mas quando se fala dos pombos, mais especificamente, a vontade esbarra na dificuldade de aceitar o extermínio das aves, uma vez que existe uma forte ligação emocional com elas.

Levantamento feito em 2010 pelo Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental contabilizou cerca de 16 mil gaivotas de 12 espécies diferentes no Porto, o que pode tornar a simples tarefa de estender a roupa nos varais um inferno. Para piorar, os dejetos das gaivotas secam e se transformam em um pó fino, facilmente inalado. Outra análise recente identificou a presença de bactérias resistentes a mais de vinte diferentes medicamentos. E quando a gente acha que não pode ficar pior, as autoridades já alertam para os riscos de os navios e barcos pesqueiros que trazem os peixes no convés receberem dejetos das gaivotas e serem igualmente contaminados.

Então, fazer o que? Liberar o tiro ao pombo? Muitas cidades têm tentado diferentes tecnologias para acabar com a “praga”, seja de pombos ou gaivotas. Na região de Lisboa, há o que eles chamam de “pombais contraceptivos”, locais onde as aves vão para chocar seus ovos, que acabam sendo trocados por outros ovos “não fecundados” que jamais farão pombinhos ou gaivotinhas. Assim, “enganando” as aves, já se reduz um pouco o nascimento, sem ser agressivo com os animais. E elas ainda ficam ali ocupadas, chocando um ovo sem vida... Mas precisa reduzir muito: o último censo realizado pela Faculdade de Medicina Veterinária contou mais de 23 mil pombos em Lisboa.

Em Lisboa, pombais contraceptivos “enganam” as aves para reduzir o nascimento, sem ser agressivo com as aves. Foto: Câmara Municipal de Lisboa.Em Lisboa, pombais contraceptivos “enganam” as aves para reduzir o nascimento, sem ser agressivo com as aves. Foto: Câmara Municipal de Lisboa.

Aqui em Ovar, várias iniciativas já foram implementadas ou pelos menos discutidas. Da “contratação” de aves de rapina para atacar os pombos até a distribuição de ração com anticoncepcional para os pombos, da emissão de corrente elétrica em pontos estratégicos às ondas sonoras só percebidas pelas aves. A opção da comida com anticoncepcional, apesar de ter se mostrado eficaz em várias cidades, esbarra no fato de muitos pombos se sentirem tão satisfeitos com os pãezinhos e milhos que ganham nas ruas que deixam a ração de lado... E as pessoas, nas suas varandas, vão também tentando fazer justiça com as próprias mãos: penduram objetos que brilham (como os antigos CDs) e podem assustar os pombos ou qualquer outro tipo de espantalho improvisado.

Um exemplo que estão considerando é a experiência implementada em Cádiz, na nossa vizinha Espanha, onde estima-se que mais de 9 mil pombos dividem as calçadas e parques (e as mesas!) com a população. Por lá, a proposta foi capturar cerca de 5 mil pombos e levá-los para uma região longe das cidades, a pelo menos 300 km de distância. De acordo com os comerciantes locais, os pombos de lá perderam totalmente o medo e o respeito pelas pessoas. Participam das refeições nas mesas externas, pousam nos pratos, derrubam copos e garrafas. Uma estimativa do comércio local aponta para uma redução de 20% nas receitas de turismo graças às pragas voadoras.

Os pombos andam por todo o lado em Cádiz, no sul de Espanha. Foto: Raquel Maria Carbonell Pagola / Getty Images.Os pombos andam por todo o lado em Cádiz, no sul de Espanha. Foto: Raquel Maria Carbonell Pagola / Getty Images.

Eu, assim que tomei posse do meu apartamento, fui “premiado” com dois pombinhos, filhotes ainda, chocados e deixados pela mãe numa pequena floreira abandonada na varanda. Bem feios, depenados, sem saber voar, dependiam da visita e dos cuidados diários da pomba-mãe para crescerem, ganharem penas e partirem para essa vida louca de fazer coco nas pessoas. Meu primeiro impulso, claro, foi expulsa-los da varanda, o que provavelmente os mataria. Mas notei o cuidado da pomba, que ficava em um telhado próximo, sempre de olho nos filhotes. Não descuidava. E aos poucos se tornaram mais emplumados. Até que um dia, acordei e já não estavam mais lá. Devem ter ganho os céus de Ovar. Há muitas varandas por perto, quase todas com pombos pousados. E a minha segue tranquila, sem pombos, sem coco. Acho que rolou um acordo de cavalheiros: cuidei dos filhotes e eles deram um jeito de preservar minha varandinha! E posso garantir para as autoridades: deixei-os ficar na varanda, mas nunca alimentei os pombos.

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Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.



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