São Paulo em flor - São Paulo São

Os resedás são muito resistentes à poluição e à frequente alternância entre sol forte e chuvas intensas, típica do nosso verão. Foto: Getty Images.Os resedás são muito resistentes à poluição e à frequente alternância entre sol forte e chuvas intensas, típica do nosso verão. Foto: Getty Images.

Venho observando – encantada – os belíssimos resedás floridos que enriquecem a paisagem da cidade neste mês de janeiro. Caminhando por bairros como Pinheiros, Perdizes, Jardins, Itaim, Moema ou Vila Mariana, não há como não notar essas árvores tão sofisticadas e suas centenas de delicadas flores crespas de coloração branca, roxa, vermelha ou rosa (e quantos diferentes rosas!).

Sim, resedás são muito sofisticados. Diferentemente de outras espécies encontradas nas calçadas de São Paulo, eles não possuem raízes agressivas e têm um tronco muito singelo, liso e marmorizado, que mistura tons claros de cinzas e marrons – tons sempre em harmonia com os de suas flores. Ao mesmo tempo, em oposição à sua imagem de fragilidade, os resedás são muito resistentes à poluição e à frequente alternância entre sol forte e chuvas intensas, típica do nosso verão.

O porte médio de um resedá não tem a imponência de um ipê, nem sua copa é frondosa como a do flamboyant; mas sendo uma das poucas espécies a florir nesta época do ano na cidade, ele reina absoluto em sua bela e discreta elegância. Na complexidade da metrópole, um menos que é mais.

Resedá (Lagerstroemia Indica) e suas cores. Foto: Reprodução.Resedá (Lagerstroemia Indica) e suas cores. Foto: Reprodução.

Por curiosidade, decidi pesquisar a origem dessa pequena árvore tão organicamente inserida em nossa paisagem, e, leiga que sou, fiquei surpresa ao descobrir que o resedá é uma espécie exótica (sua origem é asiática). Mais surpresa ainda, no entanto, fiquei ao saber que 80% das árvores e plantas de São Paulo vieram de outros estados ou países. Das dez árvores mais comuns na cidade, apenas uma – o jerivá – é nativa de nossa região. A tipuana veio da Bolívia; a sibipiruna, da Mata Atlântica do Rio de Janeiro; o pau-ferro, do Nordeste do Brasil; e o jacarandá-mimoso, da Argentina. Até a azaléia, flor considerada símbolo da cidade, tem origem na China e no Japão.

Passado o espanto do primeiro momento, essa heterogeneidade no paisagismo da cidade me pareceu absolutamente natural – ora, sendo São Paulo composta por migrantes e imigrantes de todas as partes Brasil e do mundo, por quê seria diferente com suas árvores e flores?

80% das árvores e plantas de São Paulo vieram de outros estados ou países. Foto: Reprodução.80% das árvores e plantas de São Paulo vieram de outros estados ou países. Foto: Reprodução.

Acho que nenhuma outra composição paisagística traduziria tão bem a mistura de raças, cores, crenças e culturas presente em nossa população. Na verdade, essa multiplicidade de espécies de plantas, e sua variedade de cores, formas, origens, perfumes, tamanhos e épocas de floração, só reitera a natureza de São Paulo: uma cidade viva, em constante mutação, que todos os dias morre, germina, renasce e floresce, para então morrer de novo – e assim eternamente persistir, cada vez mais bela e mais forte.

Ps. Com alguns dias de atraso, esta é minha singela homenagem à nossa cidade por seu 465º aniversário.

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Valéria Midena, arquiteta por formação, designer por opção e esteta por devoção, escreve quinzenalmente no São Paulo São. Ela é autora e editora do site SobreTodasAsCoisas, produtora de conteúdo e redatora colaboradora do MaturityNow.