Nosso gringo e o Instituto Acaia (parte 1), que trabalha para superar a divisão social do Brasil - São Paulo São

Imagine uma escultora, examinando intensamente a matéria-prima da qual ela deseja extrair a essência, algo rico e excitante, vibrante com novas idéias e olhares, uma obra de arte que pode enriquecer nossa cultura e mudar nossas atitudes, não importa quão difícil seja a tarefa.

Mega escultura em madeira criada por Elisa em 2002 e instalada no CCSP. Foto: Mariana Maltoni.Mega escultura em madeira criada por Elisa em 2002 e instalada no CCSP. Foto: Mariana Maltoni.

O crítico de arte Rodrigo Naves escreveu sobre o trabalho inicial da escultora Elisa Bracher: "o esforço para alcançar formas amplas e expansivas parece marcar toda a trajetória das esculturas". Imagine agora que Elisa está contemplando algo mais grandioso do que pode ser moldado a partir da pedra, mármore, madeira ou aço de um escultor. Seu desafio, o material ao seu alcance, são as muitas facetas da complexa estrutura social do Brasil, com longa resistência à mudança, difícil de abordar sob qualquer ângulo.

Elisa, de aparência jovem, sensível e enérgica, aos 54 anos, cuja infância luxuosa poderia tê-la preparado para sua carreira como artista plástica, para a cena social de São Paulo e talvez para fazer caridade e aliviar qualquer culpa que possa ter sentido por aqueles menos afortunados. Mas não foi nisso que ela se tornou.

Enquanto ela pesava os elementos do mundo ao seu redor, o assunto 'amplo' da sua arte, se deparou com a divisão de classes aparentemente invisível que Foto: Fernando Moraes / Veja SP.Foto: Fernando Moraes / Veja SP.permeia a sociedade brasileira, separando brutalmente os 'ricos' dos 'pobres', fingindo que enquanto alguns estão economicamente melhores do que outros, todos são brasileiros e compartilham as alegrias e tristezas de serem 'brasileiros'. Ela passou a acreditar que, a menos que a divisão de classes pudesse ser superada, conhecendo e integrando em seu próprio ser a vida do outro lado, nada no país mudaria. Tornou-se determinada a superar a divisão: sua missão de construir um relacionamento honesto e íntimo com as pessoas esquecidas da favela, para si mesma e para seus filhos "fazerem contato com a qualidade dessas pessoas".

É muito fácil para um gringo paulistano privilegiado como eu ficar deslumbrado com o Brasil rico e sofisticado, os elegantes apartamentos em terraços altos com porteiros uniformizados e segurança murada. É igualmente fácil olhar para longe da pobreza abjeta que vive lado a lado com essa afluência, marginalizando-a, ignorando a dor escondida atrás dos sorrisos, gravada nos rostos dos favelados. Elisa Bracher, tem a coragem de não desviar o olhar e fazer algo a respeito.

"Em fins de 1997, descia de carro a rua do Ateliê com um de meus filhos quando deparei-me com meninos jogando capoeira na ilha do canteiro central em frente ao Ceagesp. Resolvi parar, pois ele queria participar daquela roda, mas o grupo rapidamente se dispersou com nossa aproximação: – Mãe, eles não gostam de mim! – disse meu filho. Difícil explicar para uma criança de três anos toda a gama de problemas que existiam naquela situação. Já era constante uma vontade de fazer alguma coisa pelas crianças de rua; mas a partir daquele dia percebi que era pelos meus filhos, pela construção de uma bagagem comum, com origens na história de nosso país que eu tinha que fazer alguma coisa (2000, p.1)."

O início. Foto: Reprodução site Acaia.O início. Foto: Reprodução site Acaia.Reconhecendo que, por mais bem intencionada que fosse, 'visitar' uma favela não faria sentido para ela, nada mais que turismo de favela,"percebi que se eu não pudesse ir lá, a alternativa seria convidá-los para o meu estúdio e nós poderíamos trabalhar juntos", diz ela. O convite para sete meninas trabalharem com ela em seu estúdio foi o início de sua longa jornada pessoal. E foi então que decidiu mudar o estúdio do Alto de Pinheiros para um maior no bairro da Vila Leopoldina e não fechá-lo, mas mantê-lo como o tipo de espaço livre e aberto que define o Atelier de um artista.

Na época, a Vila Leopoldina era um bairro de imensos galpões e pequenas casas, sem favelas, "apenas resquícios - longos becos estreitos", diz ela. Mas era perto das favelas a da Linha (ou Votoran) e do Nove (ou Japiaçu), além do conjunto habitacional Cingapura. Sua primeira iniciativa foi encontrar pessoas que já estavam fazendo trabalho social com a população da região. Participar de uma reunião no Cingapura deu a Elisa uma sensação de vida cotidiana no bairro e dos desafios. Isso a fez perceber que tinha que ter contato direto com a realidade da vida cotidiana da favela.

Reconhecendo que o mercado adjacente da CEAGESP fornecia muita madeira, desde paletes, caixas de frutas e verduras e flores, e que essa madeira era essencial para a construção de barracos, Elisa encontrou uma marcenaria que não só lhe ensinou o uso de ferramentas de marcenaria, mas também organizou uma aula semanal de marcenaria em seu estúdio, uma bênção para crianças expulsas de parques e outras áreas e um passo importante para sua aceitação nas favelas.

Foto: Patrícia Yanaguisawa.Foto: Patrícia Yanaguisawa.

Compartilhar o sofrimento, ouvir as histórias de pessoas esquecidas, ajudar a reconstruir casas na favela após uma enchente, aconselhar e ajudar os favelados com seus problemas legais e administrativos, alcançar o coração de todas as formas possíveis, tudo isso se uniu para dar vida ao Instituto Acaia, que foi fundado em 2001 e está prosperando com uma equipe dedicada de professores, psicólogos, estagiários e um grupo amplo e valioso de parceiros.

Foto: Patrícia Yanaguisawa.Foto: Patrícia Yanaguisawa.

Escreveu a antropóloga social Janice Perlman, autora de "O Mito da Marginalidade", o aclamado estudo da vida nas favelas do Rio, em 1976;

"Se pudermos descobrir como aproveitar a vitalidade e a criatividade das pessoas que vivem na informalidade APESAR das diferenças de poder, e como LIBERAR a criatividade de baixo para cima, estaremos dando um grande passo em direção ao futuro que esperamos ver".

Como Perlman, Elisa sabe que a "marginalidade" é um rótulo falso e conveniente para os moradores das favelas e da sociedade ao seu redor, para não ter que lidar com soluções para seus problemas reais. "Se continuarmos a marginalizar ao invés de abraçar as pessoas nessas comunidades vibrantes, perderemos não apenas seu poder de consumidores e produtores, sua cidadania ativa, mas, acima de tudo, seu capital intelectual", diz ela.

Foto: Estadão Conteúdo.Foto: Estadão Conteúdo.

Tendo comemorado no final de 2017 seu 20º ano de operações, o Instituto Acaia está se materializando nas formas "amplas e expansivas" que caracterizam todo o trabalho de Elisa Bracher. Há apenas algumas semanas, o Ateliê Escola começou seu terceiro ano proporcionando aos jovens de dentro e de fora das favelas a oportunidade de construir seu capital intelectual. É uma experiência ousada para cruzar as barreiras culturais e sociais.

Foto: Patrícia Yanaguisawa.Foto: Patrícia Yanaguisawa.

[Nota do autor: Este artigo é o primeiro de três, analisando o "Instituto Acaia, um esforço para superar a divisão social do Brasil."]

***
Peter Rosenwald mora em São Paulo e combina sua ocupação como estrategista de marketing para grandes empresas brasileiras e internacionais. Tem também carreira em jornalismo onde atuou por dezessete anos como crítico sênior de dança e música do 'The Wall Street Journal'. Escreve toda semana no São Paulo São.