Pedalar não tem idade - São Paulo São

Imagem: Arquivo pessoal / Reprodução.Imagem: Arquivo pessoal / Reprodução.Pelo que tenho escrito por aqui, acho que já deu pra perceber o quanto eu me divirto andando de bicicleta. E não é de hoje, na verdade. Primeiro vieram os velocípedes, que logo se transformaram nas magrelas com rodinhas, que foram abandonadas assim que conquistei equilíbrio e confiança. Sem exagero, pedalar sozinho, sem qualquer tipo de apoio, é como começar a andar com os próprios pés, sem dar a mãozinha pro pai ou pra a mãe.

Eu e as magrelas temos uma relação íntima há umas boas dezenas de anos, sem que a paixão e o amor tenham diminuído. Ao contrário, os olhos ainda brilham quando penso em fazer um bom passeio de bicicleta. E, felizmente, as pernas ainda estão fazendo a parte delas, me levando para todos os lugares. Aqui em Portugal, com tanta gente mais velha do que eu circulando com leveza e disposição pelas ciclovias do país, reforço minha crença de que ainda conseguirei girar o pedal por muitos anos.Ole Kassow. Foto: CWA.Ole Kassow. Foto: CWA.

E quando não tiver mais força nas pernas ou equilíbrio? Admito que cheguei a ficar cabisbaixo com a ideia de um dia perder essa liberdade de movimento que a bicicleta proporciona. Foi aí que conheci um projeto bem bacana (por que eu não tive essa ideia?) que já existe há alguns anos e que acaba de chegar em Portugal, mais precisamente no Porto. Trata-se da iniciativa “Cycling Without Age”, lançado em 2012 na Dinamarca e que hoje já está em 42 países (já há no Brasil também).

O fundador, Ole Kassow, tinha o desejo de fazer com que pessoas mais velhas, já com dificuldade para encarar um selim de bike, pudessem retornar para as suas bicicletas. A solução foi adaptar um triciclo, inicialmente oferecido para as casas de repouso de Copenhagen, no qual uma ou duas pessoas podiam pegar carona (ou boleia, como dizemos aqui em Portugal). Mas o projeto, que vai muito além do “direito ao vento nos cabelos”, foi crescendo e ganhando mais adeptos. É uma experiência de generosidade, de criação de relacionamento, de dignidade, de troca de histórias e experiência, e também, claro, de retomar contato com os passeios sobre rodas.

Já há mais de 2 mil triciclos do projeto rodando pelo mundo, com cerca de 15 mil ciclistas treinados e capacitados a “pilotar” a bike de três rodas. Mais de 60 mil idosos já voltaram a sentir o vento no rosto, em circuitos que, somados, ultrapassam os 2,8 milhões de quilômetros ao ano. E para provar que não há idade para encarar o pedal, o piloto mais velho das bikes é um “jovem” dinamarquês de 90 anos e a passageira mais idosa é uma jovem de 107 anos, de Singapura.

Ole Kassow, tinha o desejo de fazer com que pessoas mais velhas, já com dificuldade para encarar um selim de bike, pudessem retornar para as suas bicicletas. Foto: CWA / Divulgação.Ole Kassow, tinha o desejo de fazer com que pessoas mais velhas, já com dificuldade para encarar um selim de bike, pudessem retornar para as suas bicicletas. Foto: CWA / Divulgação.

Neste início de pedaladas aqui no Porto, cerca de 200 “passageiros” já circularam pela cidade, em parques ou à beira mar. A “ventoleta”, como é carinhosamente chamado o triciclo adaptado para o projeto, também tem entre os seus “motoristas” um senhor de 78 anos, que toda semana faz força no pedal. Além dele, há outros 11 pilotos voluntários, que assumem o guidão em passeios de pouco menos de 1 hora. E sempre sem pressa e com muita conversa, troca de experiências e histórias ao longo do percurso. Por enquanto, há apenas uma ventoleta rodando pela cidade, mas esta semana foi lançada uma campanha nas redes sociais para angariar fundos para a compra de ao menos mais um triciclo.

Mais de 60 mil idosos já voltaram a sentir o vento no rosto, em circuitos que, somados, ultrapassam os 2,8 milhões de quilômetros ao ano. Foto: CWA / Divulgação.Mais de 60 mil idosos já voltaram a sentir o vento no rosto, em circuitos que, somados, ultrapassam os 2,8 milhões de quilômetros ao ano. Foto: CWA / Divulgação.

Mas apesar de Portugal ser um país que tem incentivado tanto o uso das bikes e ter uma cultura razoavelmente estabelecida no que diz respeito às regras do pedal, além de uma infraestrutura que facilita o uso das bikes, eu vejo muito mais adultos do que crianças se equilibrando sobre duas rodas. Admito que pode ser uma percepção distorcida de quem vive numa cidade pequena (mas que, por isso mesmo, poderia ter muitas crianças pedalando...). A impressão que tenho é que as bicicletas entram na vida da garotada quando eles começam a ter autonomia para ir e voltar da escola sozinhos, ou seja, numa infância já mais avançada, beirando a adolescência (pais e mães portugueses, onde estão vocês que não levam os filhotes para aprender a pedalar nos parques?). E pode realmente não ser uma observação tão fora da realidade: um outro projeto ligado às bikes, agora também em edição na região do Porto, foi implementado justamente para ensinar as crianças a pedalar. Ou seja, não deve ser a minha percepção apenas: os miúdos realmente não andam pedalando pelos parques e ciclovias como poderiam.

“Ciclismo vai às escolas” conseguiu reduzir, em pouco tempo, de 43% para 14% o número de crianças que não sabem pedalar. Foto: Divulgação.“Ciclismo vai às escolas” conseguiu reduzir, em pouco tempo, de 43% para 14% o número de crianças que não sabem pedalar. Foto: Divulgação.

O objetivo da iniciativa recém-lançada é, também, que os pequenos conheçam as regras de segurança e de circulação pacífica na via pública. O projeto “Ciclismo vai às escolas” é uma parceria do poder público com a Federação Portuguesa de Ciclismo, resultado de um protocolo assinado em 2017. O diagnóstico da época era que havia de fato um número muito grande de crianças com pouco ou nenhum contato com as bicicletas em todo o país. Desde então, o projeto já foi adotado em diversas regiões, servindo também como ferramenta no combate à obesidade infantil. A iniciativa que chega agora há alguns concelhos do distrito do Porto atende 33 escolas do ensino básico. E os primeiros indicadores já mostram que começar cedo dá ótimo resultados: o projeto conseguiu reduzir, em pouco tempo, de 43% para 14% o número de crianças que não sabem pedalar.

A bordo de um triciclo é possível voltar a sentir o vento no rosto e a deliciosa liberdade de um passeio de bike. Foto: Getty Images.A bordo de um triciclo é possível voltar a sentir o vento no rosto e a deliciosa liberdade de um passeio de bike. Foto: Getty Images.

Ser novinho ou velhinho, portanto, não é desculpa para não se divertir com as bicicletas. O equilíbrio a gente consegue aprender fácil mesmo sendo bem pequeno (e como todo mundo sabe, depois que a gente aprende a andar de bicicleta, nunca mais esquece). Enquanto as pernas aguentarem, dá pra rodar o mundo, literalmente. Ou, em algum momento, à bordo de um triciclo, voltar a sentir o vento no rosto e a deliciosa liberdade de um passeio de bike. Isso sempre dá pedal!

***
Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.



APOIE O SÃO PAULO SÃO

Ajude-nos a continuar publicando conteúdos relevantes e que fazem a diferença para a vida na cidade.
O São Paulo São é uma plataforma que produz conteúdo sobre o futuro de São Paulo e das cidades do mundo.

bt apoio





 
 
APOIE O SÃO PAULO SÃO

Ajude-nos a continuar publicando conteúdos relevantes e que fazem a diferença para a vida na cidade.
O São Paulo São é uma plataforma que produz conteúdo sobre o futuro de São Paulo e das cidades do mundo.

bt apoio