Pequenas grandes vitórias - São Paulo São

Tenho apenas duas filhas, que residem atualmente fora do Brasil – em diferentes lugares e por diferentes motivos. Quando me perguntam como, unidas que somos, tenho suportado as (imensas) saudades, costumo dizer que fortes mesmo foram os pais que tiveram filhos distantes na era pré-internet – tempos de cartas que demoravam a chegar, telefonemas que mal se completavam e passagens aéreas de valor proibitivo.

Como já cantou Gilberto Gil, "... antes longe era distante / perto, só quando dava / quando muito, ali defronte / e o horizonte acabava / hoje lá trás dos montes, den de casa, camará..."  Hoje, FaceTime, Skype, WhatsApp e tantos outros permitem que diariamente eu e elas nos vejamos, possamos conversar e acompanhar de maneira próxima o cotidiano uma da(s) outra(s).

No entanto, dadas as distintas atividades e a diferença de fusos horários, nem sempre temos a mesma disponibilidade no mesmo momento. Assim sendo, pequenas conversas e mensagens permeiam todos nossos dias, mas bate-papos mais longos são agendados com antecedência.

No último domingo, uma de minhas filhas sugeriu termos um desses bate-papos na quarta-feira, dia 08, "já que é feriado e a gente tem mais tempo". Feriado? Não me lembrava da data, fui pesquisar: V-E Day, o Dia da Vitória.

A Segunda Guerra Mundial terminou oficialmente na Europa em 8 de maio de 1945, às 23h01min – dia seguinte à capitulação da Alemanha nazista, formalizada em Reims. (Na verdade, os aliados haviam acordado que o dia 9 de maio seria o dia da celebração. No entanto, a divulgação antecipada da notícia da rendição alemã acabou precipitando as celebrações no ocidente, e apenas a União Soviética manteve a data combinada – ainda hoje, é em 9 de maio que a Rússia comemora o fim da Grande Guerra. No Japão, a vitória aliada é festejada em 15 de agosto.)

Como já cantou Gilberto Gil, "... antes longe era distante / perto, só quando dava / quando muito, ali defronte / e o horizonte acabava / hoje lá trás dos montes, den de casa, camará..." Foto: Getty Images.Como já cantou Gilberto Gil, "... antes longe era distante / perto, só quando dava / quando muito, ali defronte / e o horizonte acabava / hoje lá trás dos montes, den de casa, camará..." Foto: Getty Images.

Ler um pouco sobre esse assunto me fez pensar na importância de celebrarmos nossas vitórias. E me refiro a 'vitória' não como resultado de um combate, mas como conquista de algo que queremos ou precisamos. Sejam coletivas ou individuais, essas conquistas são de grande valia para nossa construção como indivíduos e como sociedade, e mantê-las vivas em nossa memória contribui para que sigamos em busca de novas.

Tenho uma certa antipatia pela ideia recorrente de que "a vida é uma luta". Imaginar-se em um eterno combate pressupõe aceitar que o sofrimento (constante) é condição inerente à busca pela felicidade (distante). Além de ingênua, acho muito negativa essa forma de se relacionar com a (própria) história. Entendo a vida como um caminho, uma jornada da qual fazem parte coisas boas e ruins, problemas, dificuldades, alegrias, prazeres, doenças, decepções, surpresas, descobertas, amores, frustrações... e é a maneira de lidar com tudo isso que nos faz mais ou menos felizes. (Lembrando Guimarães Rosa, "felicidade se acha é em horinhas de descuido.")

 Uma multidão se reúne para festejar o general Charles de Gaulle na Place de la Concorde, em Paris, no final da II Guerra Mundial. Foto: Time Magazine. Uma multidão se reúne para festejar o general Charles de Gaulle na Place de la Concorde, em Paris, no final da II Guerra Mundial. Foto: Time Magazine.

Nós nunca esqueceremos nossos quarenta e sete milhões de mortos, mas enaltecer aquela vitória é fundamental. A eliminação do nazismo foi uma conquista de toda humanidade, e a lembrança dessa conquista nos fortalece e estimula a enfrentar tentativas de retrocesso ou ameaças de terror. Celebrá-la coloca um pouquinho de felicidade no nosso presente e revigora nossa esperança no futuro.

Em outro plano, podemos ter ainda no estômago a dor de uma dificuldade financeira vivida, mas é lembrar tê-la ultrapassado que nos renova a capacidade de superação. Podemos lamentar uma doença, mas é festejar sua cura que amplia nossa conexão com a vida. Podemos chorar um relacionamento infeliz, mas é cantar o seu fim que nos prepara para um novo amor.

Eu posso me sentir triste por ter minhas filhas a milhares de quilômetros de distância. Ou celebrar o privilégio de ter à disposição uma tecnologia que me permite acompanhar de perto cada conquista das minhas meninas. Todos os dias, eu escolho a segunda opção.

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Valéria Midena, arquiteta por formação, designer por opção e esteta por devoção, escreve quinzenalmente no São Paulo São. Ela é autora e editora do site SobreTodasAsCoisas



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