Portugal, muito além do bacalhau e dos castelos - São Paulo São

Portugal tem menos gente que São Paulo (ainda bem!) e sua área é menor do que a de Pernambuco. Mas como pode um país “mais pequeno” Foto: Marcos Freire.Foto: Marcos Freire.(sim, aqui é certo falar mais pequeno!) do que um estado do nordeste do Brasil ser tão grande? Mesmo que a gente só pensasse no fado, no pastel de nata, no bacalhau, nos doces conventuais, na sardinha, nos castelos medievais e nos conventos centenários, já teríamos milhões de motivos para confirmar a grandeza da terrinha.

Mas o bom é que é que há muito mais para ver por aqui do que o tradicional circuito Lisboa – Cascais - Sintra – Óbidos – Évora - Porto (o que, diga-se de passagem, já é sensacional). E a gente, com um pouco mais de um ano de vida portuguesa, não se cansa de ir descobrindo coisas novas.

Uma das deliciosas descobertas desta semana foram as fragas de São Simão, as praias fluviais e as lindíssimas casas de pedra de uma das pequenas aldeias do circuito “Aldeias do Xisto”. Do alto das Fragas, o que para nós está mais para penhasco, miradouros exibem uma vista espetacular da Serra de Lousã, cascatas e trilhas por onde logo iriamos passar. Mas tudo começou em Pedrógão Grande, uma pequena vila portuguesa, com cerca de 4 mil moradores, no distrito de Leiria.

De lá, partindo da porta da igreja matriz, uma construção com mais de oito séculos de história, pusemos o pé na estrada para ir desbravando a região junto com um casal de grandes amigos, moradores da vizinhança, que também decidiram deixar de lado a vida agitada do Brasil. De Pedrógão, rumo ao alto.

Uma parada rápida em um mirante já mostrou o que nos esperava. Além do visual deslumbrante da Barragem do Cabril, que aprisiona as águas do rio Zêzere e forma uma das maiores reservas de água doce de Portugal, apareciam entre árvores, como se estivessem se escondendo do nosso olhar, pequenas pontes de madeira e riachos. Seria o nossa próximo destino.

Barragem do Cabril, que aprisiona as águas do rio Zêzere e forma uma das maiores reservas de água doce de Portugal. Foto: Marcos Freire.Barragem do Cabril, que aprisiona as águas do rio Zêzere e forma uma das maiores reservas de água doce de Portugal. Foto: Marcos Freire.

E lá fomos nós, descendo as fragas por estradas sinuosas, até chegar ao início da nossa trilha. Hora de sair do carro e encarar o mato, margeando pequenas cascatas e corredeiras. E tivemos um pequeno guia mais do que especial: Tico, o cachorro dos amigos, que já fez várias vezes esse mesmo percurso e parece saber exatamente onde parar para beber água e qual caminho seguir quando aparece uma bifurcação. Mesmo eu já sendo um “veterano” dos circuitos bucólicos da região da Ria de Aveiro, conheci um Portugal completamente diferente pela mata ao pé das fragas. Pelo caminho, uma ou outra casa de pedra, muitas abandonadas, mas com um charme encantador. Lagares, pedras de moinho que já não giram mais, mas que ainda carregam muitos anos de história.

E a gente, com um pouco mais de um ano de vida portuguesa, não se cansa de ir descobrindo coisas novas. Foto: Marcos Freire.E a gente, com um pouco mais de um ano de vida portuguesa, não se cansa de ir descobrindo coisas novas. Foto: Marcos Freire.

Uma das deliciosas descobertas desta semana foram as fragas de São Simão. Foto: Cláudio Nascimento.Uma das deliciosas descobertas desta semana foram as fragas de São Simão. Foto: Cláudio Nascimento.

Ao final de mais de uma hora de caminhada, uma parada para conhecer a Praia Fluvial das Fragas de São Simão, na Ribeira de Alge, afluente do Zêzere. Grandes pedras delimitam piscinas naturais, cercadas também pelo verde da Serra da Lousã e muitos sobreiros, as grandes árvores de onde se extrai a cortiça, mais um grande patrimônio de Portugal. No auge do verão, esta praia fluvial reúne famílias e muita gente também em busca de esportes radicais, como o rapel. Agora na primavera, apesar do dia lindo de sol, a água bem fria só empolgou mesmo o Tico.

Ali perto, uma outra praia fluvial merece ser visitada. A praia do Mosteiro, na ribeira de Pera, outro afluente do Zêzere. Muito verde, piscinas entre as rochas e dois percursos para caminhadas, que cortam pequenos açudes, moinhos e antigo lagares de azeite. E para quem quiser ir com o cachorro, há uma área cercada para a turma de quatro patas. O Tico já testou e aprovou...!

Praia fluvial, localizada junto à Aldeia do Xisto de Mosteiro. Foto: Aldeias do Xisto.Praia fluvial, localizada junto à Aldeia do Xisto de Mosteiro. Foto: Aldeias do Xisto.

E quando já parecia que não teríamos mais o que conhecer, o destino final do domingo ensolarado de primavera: a pequena aldeia de Casal de São Simão. Uma única rua principal, casas de pedra bem típicas, e apenas quatro moradores, como nos contou o simpático garçom do restaurante com uma vista espetacular da serra. Todas as casas foram remodeladas, mas sem perder o encanto e as características marcantes das construções de xisto. Quase todas elas ganham vida quando seus proprietários deixam as grandes cidades onde vivem e vem passar temporadas ou feriados na simpática vila.

Caminho do Xisto de Casal de São Simão.Caminho do Xisto de Casal de São Simão.A aldeia de Casal de São Simão é uma das 27 aldeias distribuídas pelo interior da Região Centro de Portugal, que integram a “Rede das Aldeias do Xisto”, um projeto de desenvolvimento sustentável em parceria com 21 municípios. Casal de São Simão chegou a ser “movimentada”, com famílias que cultivavam a terra a davam vida ao pequeno conjunto de casas. Havia hortas, rebanhos de cabras e ovelhas, criação de galinhas.

Na Ribeira de Alge, moinhos movidos pelas forças das águas, aqueles pelos quais passamos na nossa trilha, moíam o milho e o trigo que viravam pão nos fornos a lenha. Com o tempo, porém, as novas gerações foram em busca de outras oportunidades fora desse pequeno núcleo, o que praticamente acabou com a aldeia. Uma das últimas moradoras, ainda desta população “original”, faleceu em 2011, aos 97 anos, época em que a “nova” Casal de São Simão já voltava a pulsar. Hoje, como parte deste grande projeto e com o apoio de moradores e do poder público, a aldeia ganhou nova infraestrutura (cabos de eletricidade, telefone e televisão estão enterrados e não há qualquer poste com fios pelas pequenas ruas de pedra) e há cerca de 16 casas recuperadas.

Para nós, fica sempre a feliz perplexidade: como pode ser tão grande esse país tão pequeno? Do bacalhau ao vinho do Porto, do pastel de Nata ao Mosteiro dos Jerônimos, e, agora, das fragas às aldeias do xisto, o que não falta é motivo para encantamento. E vamos em frente, porque ainda tem muita aldeia pra conhecer!

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Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.



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