Mais praia, menos plástico e beatas - São Paulo São

Na próxima semana parte do litoral português vai receber um arsenal de gente para recolher o lixo das praias. Foto: Divulgação.Na próxima semana parte do litoral português vai receber um arsenal de gente para recolher o lixo das praias. Foto: Divulgação.

Basta ter gente nas praias para ter lixo nas praias. Estava acostumado a ver plástico, papel, bitucas de cigarro (as beatas, como falam por aqui), as famosas “palhinhas” (como os portugueses chamam os canudinhos) pelas praias brasileiras, mas aqui no “primeiro mundo” a coisa é mais ou menos parecida. E posso falar com algum conhecimento de causa, porque conhecer praias tem sido um programa nosso por aqui. Do Furadouro, a praia do nosso “quintal”, subindo em direção ao Porto ou descendo no sentido de Aveiro, não há como deixar de ver – em maior ou menor escala – os rastros da presença humana na areia (e não estou falando das pegadas...).

No ano passado na ação 400 voluntarios recolheram 360kg de lixo acumulado na Praia do Castelo do Queijo, numa iniciativa promovida pelo SEA LIFE Porto.. Foto: Divulgação.No ano passado na ação 400 voluntarios recolheram 360kg de lixo acumulado na Praia do Castelo do Queijo, numa iniciativa promovida pelo SEA LIFE Porto.. Foto: Divulgação.

A boa notícia é que na próxima semana parte dessas praias vai receber um arsenal de gente para recolher o lixo das praias, no que está sendo chamado de “a maior limpeza de praias de sempre”. Espera-se que pelos menos mil voluntários apareçam e ajudem a retirar a sujeira em cerca de três quilómetros de praia na orla do Porto, como parte da celebração do Dia Mundial dos Oceanos, em 8 de junho. O projeto é do Sea Life Porto, o grande oceanário do Porto, que também recebe a exposição “Mar de Plástico”, organizada pelo Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto. Na exposição, aberta ao público até o final deste mês, uma das divertidas atrações é o supermercado plástico: os resíduos retirados da praia são embalados e etiquetados como se fossem produtos expostos numa tradicional gôndola de supermercado. E em cada embalagem, informações como prazo de validade, ou melhor, tempo que o produto demora para se decompor, o que chega a ser de 500 anos em alguns casos.

Feito com objetos de plástico recolhidos em ações de limpeza de praias, o simbólico “mar de lixo” obriga os visitantes a “mergulharem” no problema da poluição plástica. Foto: Divulgação.Feito com objetos de plástico recolhidos em ações de limpeza de praias, o simbólico “mar de lixo” obriga os visitantes a “mergulharem” no problema da poluição plástica. Foto: Divulgação.

Outra iniciativa semelhante de “mutirão de limpeza” conseguiu limpar 45 quilómetros de praia no final de maio, mas com um número bem menor de voluntários. As pouco mais de 300 pessoas retiraram mais ou menos 15 toneladas de sujeira da beira do mar. O trabalho desenvolvido por uma ONG se repete há 11 anos, somando ao longo deste período mais de 600 toneladas de lixo, com aproximadamente 6000 voluntários.

Exemplos como esse tem se espalhado pelo país, principalmente nestas últimas semanas quando se comemora também o Dia Europeu do Mar e o Dia da Biodiversidade. O ISEC, Instituto Superior de Educação e Ciências de Lisboa acabou de reunir funcionários, alunos e professores para fazerem a limpeza da praia de Carcavelos, ao lado da foz do rio Tejo. Ações voluntárias semelhantes aconteceram nas praias de Seixal, Figueira da Foz, Ericeira, Lagos, Matosinhos e outras.

Recentemente Lisboa acolheu o "European Maritime Day and Oceans Meeting 2019" um dos maiores eventos mundiais sobre o mar. Foto: Divulgação.Recentemente Lisboa acolheu o "European Maritime Day and Oceans Meeting 2019" um dos maiores eventos mundiais sobre o mar. Foto: Divulgação.

E tem muito mais por vir, em ações que muitas vezes aliam a limpeza das praias a caminhadas ou sessões de yoga. A Costa Vicentina, no litoral sudoeste de Portugal, por exemplo, vai receber voluntários nos próximos dias 8 e 15 deste mês. Na semana seguinte, dia 22, será a vez da Praia do Amado reunir os interessados que querem colaborar com a limpeza da orla.

E se por um lado há cada vez mais grupos e entidades se organizando voluntariamente para retirar os resíduos plásticos das areias, existe também um grande movimento para diminuir a geração de tais resíduos. Uma importante rede de supermercados aqui em Portugal anunciou nesta quarta-feira que irá abolir definitivamente as sacolas plásticas das suas lojas. Até o final do ano, os clientes só poderão utilizar sacos de papel, que serão vendidos por 14 centavos de euro, direto no caixa. Com a decisão, a rede deixa de oferecer 25 milhões de sacos de plástico em Portugal (muitos dos quais iam parar nas praias...). Dados da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) mostram que cada cidadão português utiliza, em média, 466 sacos de plástico por ano.

Grande rede de supermercados anunciou que vai substituir nas suas mais de 1600 lojas com os sacos de plástico de uso único. Foto: Mercadona / Divulgação.Grande rede de supermercados anunciou que vai substituir nas suas mais de 1600 lojas com os sacos de plástico de uso único. Foto: Mercadona / Divulgação.

Mas o plástico não é o único vilão das praias. Um relatório de 2017 aponta que os portugueses consomem cerca de 10 bilhões de cigarros anualmente, ou seja, 10 bilhões de bitucas, ou beatas, que potencialmente podem acabar sendo jogadas na praia. Estima-se que sete mil bitucas são jogadas no chão a cada minuto em Portugal. Ainda que não tenha um levantamento específico sobre as pontas de cigarro na areia, basta uma rápida caminhada a beira mar para notar que o estrago é grande. Não à toa, começa-se a discutir nos próximos dias projetos de lei para regulamentar o descarte das beatas em todo o país. Hoje, já há regulamentações isoladas em alguns municípios, mas nada que tenha a força de uma legislação nacional.

10 litros de beatas, recolhidos em apenas 1 hora, na Praia da Figueirinha, por voluntários da Associação Portuguesa do Lixo Marinho. Foto: Divulgação / Facebook.10 litros de beatas, recolhidos em apenas 1 hora, na Praia da Figueirinha, por voluntários da Associação Portuguesa do Lixo Marinho. Foto: Divulgação / Facebook.

Mas, com lei ou sem lei, seria fácil diminuir muito a quantidade de plástico e pontas de cigarro nas praias se todos mudassem os seus comportamentos. Nas minhas andanças por aqui – e andar é uma das coisas que mais faço – não há como não notar as bitucas no chão. Além de eu achar que as pessoas fumam muito por aqui, algumas pesquisas mostram que 20% da população portuguesa acham normal jogar as beatas no chão, hábito até mesmo aceito socialmente.

O verão está chegando e as praias vão estar cheias. Então, vamos combinar: que tal parar de fumar (seu corpo vai agradecer) ou ao menos não jogar a beata na areia (o meu corpo vai agradecer)? Que tal também recolher o seu próprio lixo na praia? Há cada vez mais voluntários para limpar as areias, mas não vamos abusar, né...

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Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.