Fé e diversão: há sempre muito a celebrar com os santos em Portugal - São Paulo São

O que mais vejo nas postagens dos amigos brasileiros são fotos e vídeos das festas juninas, dos filhos e filhas dos amigos vestidos de caipirinhas, muito rosto com sardas e bigodinhos pintados. Mas apesar de tanto “arraiá” no Brasil, acho que as comemorações aqui são ainda mais intensas e envolventes. “São festas diferentes”, afirmou uma amiga portuguesa, ao se referir aos mesmos santos que celebramos agora em junho, o Antônio, o Pedro e o João, principalmente. Ou, como falam por aqui, os Santos Populares.

É que apesar de as nossas festas terem praticamente sido levadas pelos portugueses, fomos incorporando algumas outras culturas ao longo do tempo, outras músicas, comidas e hábitos. Nossos santos, os mesmo daqui, ganham também sotaques italianos, africanos, indígenas, do outro lado do Atlântico. Curau, pamonha, pé de moleque, pau de sebo, correio elegante e algumas danças típicas são coisas dos Joãos, Antônios e Pedros brasileiros.

O dia de Santo Antônio, 13 de junho, é feriado em Lisboa, cidade onde ele nasceu. O padroeiro (ao menos no coração da maior parte dos lisboetas, porque o padroeiro mesmo é São Vicente, celebrado no dia 22 de janeiro) é lembrado com muita festa e até casamentos coletivos. São João, por sua vez, é mais celebrado no Porto, onde as festas começam dias antes do 24 de junho e se prolongam por mais um tanto de dias. Mais para o final do mês é a vez de São Pedro, padroeiro de Sintra e de Évora, por exemplo, cidades que também fazem grandes festas em homenagem ao protetor dos pescadores.

Festa do Mar para N.ª Sr.ª da Piedade em Ovar. Foto: Fernando Santos / Paróquia de Ovar.Festa do Mar para N.ª Sr.ª da Piedade em Ovar. Foto: Fernando Santos / Paróquia de Ovar.

Mas não é só com esse famoso trio que se faz festa por aqui. Em um país com quase 90% da população católica, o que não falta são santos. Um censo de 2017 mostra que há mais de 9 milhões de católicos no país, quase 50 bispos, mais de 3000 padres, cerca de 59 mil catequistas, 21 dioceses e aproximadamente 4.400 paróquias. Se cada paróquia comemorar ao menos o dia de um determinado santo por ano, já temos mais de 10 festas católicas por dia, espalhadas pelo país. E nem precisamos ir longe para declarar nossa devoção ou simplesmente aproveitar a festa: aqui mesmo em Ovar, na Freguesia de Cortegaça, na paróquia de Santa Marinha, logo teremos a festa em homenagem à Nossa Senhora de Nazaré, padroeira dos pescadores. Tem também a festa da Nossa Senhora do Amparo, padroeira de Válega e que dá nome à linda igreja desta outra freguesia de Ovar. E ainda a festa de Santa Catarina, padroeira também dos pescadores, estudantes e advogados, na pequena capela dedicada a ela na Ribeira. E mais: tem as Festas do Mar, em honra da Nossa Senhora dos Aflitos, Nossa Senhora da Boa Viagem, Nossa Senhora da Nazaré, além da celebração de São Cristóvão, padroeiro de Ovar, dos motoristas e viajantes (eu, que gosto tanto de cair na estrada e me aventurar por esse país, não poderia ter escolhido melhor cidade para viver...), da festa da Nossa Senhora da Cardia e Nossa Senhora da Ajuda. Haja fé e disposição.

A tradicional romaria de Nossa Senhora d'Agonia. Foto: Câmara Municipal de Viana do Castelo.A tradicional romaria de Nossa Senhora d'Agonia. Foto: Câmara Municipal de Viana do Castelo.

E se olhamos para além das fronteiras de Ovar, as festas e romarias se multiplicam. Nem vou entrar nas comemorações da Semana Santa e Páscoa porque seria covardia. Mas mesmo deixando de lado as datas “óbvias”, tem comemoração para santo nenhum botar defeito. Subindo para o norte, tem a Festa da Nossa Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, quando os pescadores pedem à virgem um bom mar e muita proteção. Na vizinha Ponte de Lima, a linda vila medieval, a festa é uma homenagem à Nossa Senhora da Dores, com a romaria de Feiras Novas, uma das mais antigas de Portugal. Em Guimarães, berço de Portugal, tem a romaria grande de São Torcato, normalmente no início de julho, e as Festas Gualterianas, em homenagem a São Gualter, patrono da cidade. Lamego, quase na beira do Douro, comemora a Nossa Senhora dos Remédios em outra grande festa.

Um pouco mais para baixo, em Aveiro, uma festa bem tradicional é a de São Gonçalo, que os locais chamam carinhosamente de São Gonçalinho. Além de muita comida, uma divertida atração reúne adultos e crianças ao redor da igreja: o arremesso de cavacas, um tipo de pão mais duro, coberto de açúcar, das torres da igreja para que as pessoas “pesquem”, literalmente, com redes improvisadas ou pequenos puçás. Ainda em Aveiro, Santa Joana, padroeira da cidade, é celebrada com muita festa nos meses de maio.

A tradicional procissão em honra de Santa Joana Princesa, Padroeira da Cidade de Aveiro. Foto: TVN PT.A tradicional procissão em honra de Santa Joana Princesa, Padroeira da Cidade de Aveiro. Foto: TVN PT.

De Aveiro para Vila Nova de Gaia, bem ao lado do Porto, os santos não param. São Gonçalo e São Cristóvão, aqueles que já são celebrados em Aveiro e Ovar, reúnem romeiros e peregrinos em uma caminhada com muitos cantos e devoção. Agora em junho, é a vez da Nossa Senhora da Saúde ser o centro das comemorações, em uma das maiores festas religiosas de Gaia e do norte de Portugal. Outra cidade no Norte, Barcelos, do tradicional galinho, também tem festas de santos durante todos os meses do ano: Santo Amaro, São Sebastião e São Romão, em janeiro; São Brás e Nossa Senhora de Lourdes, em fevereiro; São Bento, Nossa Senhora do Pilar, São Pedro, São João, Santo Antônio, Nossa Senhora do Bom Sucesso, São Frutuoso, Santa Leocádia... e por aí vai.

Doces fálicos vendidos na festa de São Gonçalo, em Amarante, Portugal.Foto: Reprodução.Doces fálicos vendidos na festa de São Gonçalo, em Amarante, Portugal.Foto: Reprodução.

Poderia escrever linhas e mais linhas com todas as festas em homenagem aos santos e, provavelmente, não conseguiria citar todas elas. Mesmo pedindo ajuda a São Francisco de Sales, padroeiro dos jornalistas e escritores, identificar todas as comemorações neste país tão rico em tradições é, com todo respeito, praticamente um milagre. E mesmo para aqueles que não dão muita bola para os santos, as festas são sempre uma grande atração, e uma linda expressão da cultura e dos hábitos portugueses. Ah, claro, nas festas pode não ter paçoca, pé de moleque ou pamonha, mas tem doces conventuais de comer rezando... e até uns bem divertidos, como os “colhões de São Gonçalo”, na tradicional festa em Amarante, também gentilmente chamados de “caralhinhos”. Enfim, crendo ou não nos santos, a diversidade das festas, dos trajes, dos hábitos, das danças, da gastronomia regional e, principalmente, dos doces nas quermesses e arraiás, tornam as comemorações sempre divertidas. Boas festas!

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Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.



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