O audiovisual argentino é um bom exemplo para inspirar toda a América Latina - São Paulo São

175 empresas já funcionam no Distrito Audiovisual de Buenos Aires. Foto: Distrito Audiovisual/GCBA.175 empresas já funcionam no Distrito Audiovisual de Buenos Aires. Foto: Distrito Audiovisual/GCBA.

A Argentina tem forte tradição em produzir audiovisual de altíssimo nível, desde filmes aclamados em festivais internacionais, programas de televisão até a sua criativa publicidade reconhecida mundialmente.

O governo argentino de forma estratégica aprovou em 2011 a Lei de Promoção da Indústria Audiovisual transformando o segmento audiovisual em indústria e criando o Distrito do Audiovisual em Buenos Aires com o objetivo de concentrar e conectar empresas, produtoras, fornecedores e instituições vinculadas ao setor. 

O Distrito Audiovisual de Buenos Aires está localizado em uma área de 550 hectares nos bairros de Chacarita, Villa Ortúzar, La Paternal, Palermo e Colegiales. O ecossistema do audiovisual portenho conta com aproximadamente 500 empresas com perfis de TV, Cinema, Animação, Efeitos Visuais e Publicidade, sendo que 80% são pequenas e médias empresas e 25% localizadas no Distrito. O setor emprega mais de 50 mil pessoas e 8 mil estudantes se preparam por ano para entrar nesse mercado.

Cerca de 80 países colocam em sua grade de televisão programas produzidos na Argentina que é considerado o quarto país exportador global de conteúdos televisivos (formatos), atrás apenas de Estados Unidos, Inglaterra e Holanda.

Os governos latino-americanos têm uma grande inspiração no ecossistema do audiovisual argentino para fomentar não apenas um setor, mas uma potente indústria na geração de conteúdo, empregos e receitas.

Cine.ar, plataforma de streaming pública e gratuita, faz sucesso na Argentina

Cine.ar Play, a plataforma online de cinema argentino. Imagem: Divulgação.Cine.ar Play, a plataforma online de cinema argentino. Imagem: Divulgação.

A Argentina encontrou no Cine.ar seu Netflix particular, uma plataforma de streaming pública e gratuita que promove conteúdo audiovisual nacional, com mais de mil filmes, séries e curtas-metragens no seu catálogo e permite às pessoas assistirem a estreias no mesmo momento em que elas ocorrem nos cinemas pagando menos de um dólar.

Esta aposta do Instituto de Cine y Artes Audiovisuales (Incaa) para “democratizar” o acesso aos projetos que subvenciona, permite às pessoas assistirem gratuitamente filmes famosos como Nove Rainhas, Elza & Fred ou Esperando la Carroza, e, se as negociações avançarem, serão incluídos O Segredo dos seus Olhos eRelatos Selvagens.

“Hoje, as plataformas provaram que são o destino, o futuro do consumo de entretenimento”, disse o presidente do Incaa, Ralph Haieke.

Atualmente, o Cine.ar conta com 1,3 milhão de assinantes digitais e obteve cinco prêmios, o último deles o de melhor plataforma de filmes e séries da América Latina.

A plataforma se divide em Cine.ar Play, que dá acesso aos conteúdos gratuitos, e Cine.ar Estrenos, onde pode ser vista a maioria dos lançamentos de filmes nacionais por 30 pesos (US$ 0,75);

De acordo com Ralph Haieke, a ideia é que a plataforma se transforme em uma espécie de filmoteca digital da produção audiovisual argentina acessível em todo o país e mesmo fora dele, hoje com cem mil assinantes.

'O Segredo dos Seus Olhos' é um dos muitos filmes disponíveis na plataforma Cine.ar Foto: Tornasol Films.'O Segredo dos Seus Olhos' é um dos muitos filmes disponíveis na plataforma Cine.ar Foto: Tornasol Films.

Para Haieke, a Cine.ar acabou com o mito de que o público não consome conteúdo local e tem permitido que, apesar da extensão do território nacional e as “poucas salas de cinema” do país, a obra audiovisual argentina chegue a qualquer local.

Possivelmente, as mais beneficiadas pelo sucesso de Cine.ar são as produtoras independentes ou de baixo orçamento, que obtêm uma janela para exibir seus produtos diante das dificuldades para apresentá-los no cinema ou na televisão.

Foi o caso da série La chica que limpia, da produtora independente Jaque Content, que, embora lançada nos Estados Unidos e no Reino Unido, não conseguiu espaço em nenhum canal de TV argentino.

Paola Suárez, produtora da série, disse à EFE que isto responde “à lógica do mercado argentino, que está muito concentrado, mas agora surgiu a oportunidade de exibi-la no Cine.ar.

La Chica que limpia foi a série mais vista na plataforma em 2017, conquistou o Martín Fierro Federal de Oro e depois a TV pública argentina colocou-a em sua programação no horário nobre. Quanto às estreias nacionais, o presidente do Incaa afirmou que muitas das obras subvencionadas pelo instituto não “chegam ao público nas salas de cinema”.

“Há semanas em que seis filmes são lançados e, além disto, este é um país que não possui tantas salas, então isto cria um gargalho e a Cine.ar Estrenos é a solução”, afirmou ele.

Cena do filme 'Relatos selvagens' Foto: Divulgação.Cena do filme 'Relatos selvagens' Foto: Divulgação.

Em 2018, 170 dos 223 filmes argentinos lançados no cinema também estrearam simultaneamente na plataforma. Pode-se pensar que isso diminuiria o número de espectadores que vão ao cinema, mas segundo um relatório anual do Incaa, em 2018, 6,8 milhões de pessoas ocuparam as salas, ou seja, 4,9% mais do que no ano anterior, ao passo que a porcentagem de pessoas que assistiram a filmes nacionais foi de 14,7%, o porcentual mais alto desde 2014.

A decisão de lançar um filme na plataforma é voluntária e por isto os produtores de filmes mais comerciais que apostam em conseguir mais de 200.000 espectadores nos cinemas, não costumam exibir seu produto no Cine.ar.

O produtor Hernán Musaluppi, que participou tanto em pequenos projetos de autor como em filmes de grande sucesso, disse que as grandes produtoras têm um “medo infundado” de que a plataforma lhes tire o público que vai ao cinema.

Quanto ao Cine.ar Play, além de adquirir conteúdo também incorpora no seu catálogo produtos para os quais foi solicitada uma subvenção por meios eletrônicos, entre dois e quatro anos após sua exibição. O que, segundo Musaluppi, provocou uma discussão já que os produtores acham que não deveriam ceder os filmes gratuitamente e que o instituto deveria adquirir os direitos da obra.

No momento, Cine.ar tem despertado o interesse de outros países e já começa a surgir a ideia de que poderá servir como base para se criar um projeto que englobe a produção audiovisual latino-americana.

Luz, câmera e ação América Latina!!!

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Luís Cláudio SP, é publicitário, idealizador do projeto AL+ que é um contraponto positivo da América Latina por meio da cultura, criatividade, inovação e empreendedorismo latino-americano. Escreve quinzenalmente no São Paulo São. Ps. Com informações da EFE.