Prostituição e confinamento em São Paulo: um percurso pela antiga zona do meretrício do Bom Retiro - São Paulo São

A ideia  foi escolher um lugar numa outra região da cidade nem tão longe e nem tão próxima da convivência com as famílias e o comércio. Foto: Acervo / O Estado de S.Paulo.A ideia foi escolher um lugar numa outra região da cidade nem tão longe e nem tão próxima da convivência com as famílias e o comércio. Foto: Acervo / O Estado de S.Paulo.

Quem passa pela movimentada rua José Paulino, dificilmente pode imaginar que em duas acanhadas ruas paralelas que se fecham no paredão dos trilhos dos trens que dividem os bairros de Campos Elíseos e Bom Retiro, houve durante treze anos uma área de confinamento de prostitutas na cidade de São Paulo. A zona do meretrício do Bom Retiro localizava-se  entre as ruas Aimorés e Césare Lombroso. Nas palavras do escritor João Antônio, ali era o U do Bom Retiro.

Toda esta história aconteceu no Estado Novo, período em que o estado de São Paulo foi governado pelo interventor Dr. Adhemar de Barros. Justificava-se à época que a prostituição havia se espalhado pela área central da cidade perturbando a vida das famílias e do comércio fino. Era necessário “limpar” o centro. A ideia foi escolher um lugar numa outra região da cidade nem tão longe e nem tão próxima da convivência com as famílias e o comércio. Nos anos 40, acreditava-se que os homens tinha necessidades sexuais diversas das femininas e deveriam ser toleradas. Aliás é do sentido de tolerância que o Estado conferiu aos antigos bordéis o termo “casas de tolerância.”

Foto: Paula Janovitch.Foto: Paula Janovitch.O confinamento das prostitutas num lugar determinado da cidade, também significou que pela primeira vez o Estado regulamentou um espaço de controle, vigilância sanitária e policial sobre a vida e o corpo destas mulheres.

Há muitas discussões sobre os motivos que levaram o Dr. Adhemar de Barros em escolher o Bom Retiro como local mais apropriado para instalar a zona de confinamento de prostitutas da cidade. Alguns interpretam que a eleição do bairro foi uma maneira de controlar melhor os estrangeiros ali presentes colocando um elemento desarticulador entre os “alienígenas”.

Imagem: Acervo / O Estado de S.Paulo.Imagem: Acervo / O Estado de S.Paulo.

De fato, a presença da “zona” na região do Bom Retiro durante os treze anos que permaneceu paralela a vida comercial da José Paulino, revelou-se em  inúmeros registros de época: nas memórias dos moradores e comerciantes, na ficção literária dos escritores boêmios, na crônica diária dos jornais e nos relatórios das  assistentes sociais. Cada um traçou das formas mais diversas a vida das duas animadas ruas do bairro, a Aimorés e a Itaboca, era este o nome da antiga rua Cesare Lombroso. 

No próximo fim de semana, dias 17 e 18 de agosto, acontece a Jornada do Patrimônio Histórico aqui em São Paulo. Um banho de história pelas ruas da cidade.  Faço um convite a todos que quiserem saber mais sobre os treze anos em que o Bom Retiro integrou na sua vida comercial uma área de confinamento de prostitutas, a participarem do percurso que estarei  guiando por estas acanhadas ruas do bairro. Para isso, basta inscrever-se via email no percurso "A zona do meretrício do Bom Retiro: prostituição e confinamento (1940-1953)".

Adhemar de Barros, interventor do Estado de São Paulo, escolheu o bairro como destino da prostituição que se espalhava pela região central. Foto: Estadão.Adhemar de Barros, interventor do Estado de São Paulo, escolheu o bairro como destino da prostituição que se espalhava pela região central. Foto: Estadão.

O passeio é gratuito e vai ocorrer no sábado, dia 17 agosto pela manhã (11h)  e no início da tarde (14h30).

Email para inscrição: [email protected] ou pelo site da Escola da Cidade: http://www.escoladacidade.org/

Data do passeio: 17 de agosto de 2019 ( sábado).
Local de encontro: Entrada do SESC Bom Retiro ( Al. Nothmann,185).
Horário de início: 11h e 14h30.
Limite de participantes por percurso: 25.

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Paula Janovitch é mestre em antropologia e doutora em história. Participa do coletivo PISA: pesquisa + cidade e do Escutando a cidade. É autora  do capítulo/roteiro "O mistério das passagens: galerias comerciais da área central de São Paulo" do livro "Dez percursos históricos a pé por São Paulo" ( Narrativa Um) e escreve no blog Versão Paulo sobre cultura urbana. Paula passa a escrever quinzenalmente no São Paulo São. 



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