A arte da escuta - São Paulo São

A criadora do Sidewalk Talk, (Ong americana de escuta ativa) Traci Ruble, faz uma interessante reflexão sobre como é estar a frente de um movimento que se propõe a resgatar a arte da escuta.

Segunda ela, o Sidewalk é um simples projeto de escuta comunitária, mas de alto impacto, no qual terapeutas e voluntários treinados dedicam seu tempo a colocar cadeiras nas ruas das cidades por todo o mundo para escutar estranhos. 

E qual o sentido em fazer isso? Muitos se perguntam ao encontrar as cadeiras do Sidewalk Talk pelas calçadas...  Para a ativista de São Francisco, Califórnia, o escutar é uma arte perdida em meio ao caos da vida moderna. Visão não muito diferente de profissionais da psicologia clínica e da educação no Brasil que se sensibilizam com o estado da escuta em tempos de ensurdecimento no Brasil. 

Christian Dunker, que acaba de publicar em coautoria com o educador Cláudio Thebas o excelente “O palhaço e o psicanalista – Como escutar os outros pode transformar vidas” (Editora Planeta), afirma que escutar dá trabalho, demanda dedicação como uma forma de cultivo, quase uma arte. Por sua vez Thebas faz analogia de que escutar é “aventurar-se num oceano desconhecido”, uma experiência de se lançar pelos mares nunca dantes navegados da singularidade do outro. 

Equipe do Sidewalk Talk - Conversas na Calçada, primeira seção do Sidewalk na América Latina em ação na Vila Madalena. Foto: Divulgação.Equipe do Sidewalk Talk - Conversas na Calçada, primeira seção do Sidewalk na América Latina em ação na Vila Madalena. Foto: Divulgação.

É fácil entender a dificuldade que a grande maioria de nós, pobres mortais, enfrenta ao tentar encontrar algum senso, espaço e tempo para dar atenção ao outro em meio a todo o ruído e a alucinante velocidade da vida moderna com suas distrações sem fim, riscos e preocupações. Já dizia Immanuel Wallerstein, “é doloroso viver em meio ao caos”. 

Traci Ruble segue comentando que estamos todos tão ocupados querendo ser vistos e ouvidos que nos esquecemos deste elemento chave para a conexão humana. Escutar, com a verdadeira intenção de entender quem é e de onde vem o outro, chega a ser uma ideia radical e às vezes assustadora, mas é a única maneira de nos colocar no caminho para superar a loucura que ora vivemos. Para propor soluções para os problemas que enfrentamos como sociedade, temos que sacudir nosso próprio senso de realidade e navegar pelo “inferno” dos outros, suportar o vazio e sepultar nossas certezas. Talvez seja hora de pararmos de bancar os sábios e começar a escutar. Nós precisamos prestar atenção aos nossos próprios sentimentos marginalizados, conhecer-nos, para que possamos escutar as vozes marginalizadas fora de nós.

A alma do mundo vibrava nas ágoras, na visão arquetípica do cidadão-espectador de Hillman, um observador ativo da e na cidade. Foto: Divulgação.A alma do mundo vibrava nas ágoras, na visão arquetípica do cidadão-espectador de Hillman, um observador ativo da e na cidade. Foto: Divulgação.

Por outro lado, a reflexão sobre a importância da escuta nas cidades nos remete ao conceito de ágora da Grécia Antiga. As ágoras eram o coração das cidades... Grandes pensadores e filósofos compartilhavam deste espaço para debater e pensar sobre grandes questões da vida. Além da tertúlia filosófica, outras atividades sociais, religiosas, comerciais, artísticas e a repartição da justiça aconteciam nas ágoras. As pessoas de fato ocupavam este espaço público de congregação para exercer a sua cidadania, a gênese da ideia de democracia. 

A alma do mundo vibrava nas ágoras, na visão arquetípica do cidadão-espectador de Hillman, um observador ativo da e na cidade. Hillman reitera que não há nada que pertença mais à vida da cidade do que os espectadores que nela vivem. Ao observar, e escutar, a vida acontecer nos espaços urbanos, somos espectadores da vida na polis. A etimologia da palavra dionisíaca pólis de aglomeração, múltiplo, fluir, cheio, muitos... No meio de muitos, apertados nas calçadas, nas arenas, nos corredores, as individualidades se esbarram e se fundem em uma ciranda de milhares de espectadores, “estou na cidade e sou mais da cidade, na raiz do seu significado, do que quando estou só em meu apartamento (...)”, no claustro de nossas individualidades. 

Imagem: Divulgação. Sidewalk Talk - Conversas na Calçada. Imagem: Divulgação. Sidewalk Talk - Conversas na Calçada.

Esta escuta atenta, dedicada, é chamada de escuta ativa sendo considerada, usualmente, como uma habilidade de apoio social ou de aconselhamento, porque comunica que a pessoa que escuta entende e se preocupa com os pensamentos e sentimentos de quem fala. O ora exposto não se trata apenas de recurso retórico ou formulação teórica ou desejo pueril, há evidências empíricas da efetividade da escuta ativa em elevar a percepção do outro de se sentir entendido comparado a outras estratégias de resposta em interações iniciais.

A escuta ativa, neste sentido, deve ser tomada na sua potência de transformação da vida dos indivíduos, da comunidade, e finalmente, da polis. O ato político revolucionário, como destaca Thebas, em tempos obscuros em que o que mais se testemunha é o contrário: a tentativa de monopolizarmos a atenção e sermos colonizadores de corações e mentes. 

Leia também: 

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Por Luiz Alfredo Santos e Patrícia Maria Martins do Sidewalk Talk - Conversas na Calçada, que escrevem quinzenalmente no São Paulo.

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1. Dunker, C. e Thebas, C. 2019. “O palhaço e o psicanalista – Como escutar os outros pode transformar vidas”. Editora Planeta. 
2. Veloso, A. Mont'Alvão. 28/07/2019. Entrevista com Christian Dunker e Cláudio Thebas. A revolução da escuta em tempos de ensurdecimento. Huffpost Brasil. Disponível [online]: https://m-huffpostbrasil-com.cdn.ampproject.org/c/s/m.huffpostbrasil.com/amp/entry/escuta-poder_br_5d3b8de9e4b0c31569eaecbd/
3. Hillman, James. 2010. Ficções que curam: psicoterapia e imaginação em Freud, Jung e Adler. Tradução Gustavo Barcellos... [et al]. Campinas, SP: Verus.
4. Harry Weger Jr., Gina Castle Bell, Elizabeth M. Minei & Melissa C. Robinson (2014) The Relative Effectiveness of Active Listening in Initial Interactions, International Journal of Listening, 28:1, 13-31.



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