Nosso 'Gringo' recomenda e conta a história dos 50 anos do Dance Theatre of Harlem que está em São Paulo - São Paulo São

Quando se pensa no Harlem de Nova York, é improvável que uma companhia de balé clássico seja a primeira coisa que venha à mente. Mas se você se apressar e conseguir ingressos para as apresentações do Dance Theater of Harlem, (sexta-feira, 11 e sábado, 12 às 21h, no Theater Alfa), você terá um verdadeiro deleite na platéia e o Harlem poderá ganhar um novo significado.

"Muitas pessoas olhavam para o Dance Theater of Harlem como uma novidade quando ele começou há 10 anos", disse-me o seu fundador e diretor artístico Arthur Mitchell em 1980. Agora, a companhia tem cinquenta anos e já provou que ele tem razão. Mas não apenas sobre a sua longevidade mas também porque não é mais uma novidade.

Voltando a 1934, Arthur Mitchell nasceu e cresceu no Harlem, e é bem provável que acabasse numa gangue de rua ao invés de ser dançarino. Ele era antes de tudo um bailarino brilhante e coreógrafo talentoso. Como primeiro bailarino afro-americano do New York City Ballet, ele subiu como um foguete na companhia e, como principal bailarino, foi visto como sendo dotado de uma gama de habilidades. "Não demorou muito até que o público parasse de notar que eu era um dançarino negro e percebesse que eu era, um dançarino clássico".

Ser uma estrela não era suficiente para Arthur, que acreditava, contra a percepção popular, que uma companhia predominantemente negra nunca poderia galgar o topo do altamente competitivo ambiente de balé de Nova York.

Arthur Mitchell in "Agon." Foto: Smithsonian Magazine / Alamy .Arthur Mitchell in "Agon." Foto: Smithsonian Magazine / Alamy .

Ele deixou o New York City Ballet e, usando suas pequenas economias, fundou uma nova companhia em um porão do Harlem, dando aulas para qualquer um que entrasse pela porta, sempre aberta, da frente. Desde o início, Mitchell quis construir uma instituição que "ensinasse e divertesse". Em pouco tempo, a escola tinha 1000 alunos, muitos dos quais nunca tinham pensado em si mesmos como dançarinos e, certamente, não como dançarinos clássicos. 

Não deixa de ser uma nota de rodapé interessante, mas em 1968, dois anos antes de fundar o Dance Theater of Harlem, Mitchell foi nomeado diretor da Companhia Nacional de Bailado do Brasil no Rio de Janeiro. Como muitas iniciativas culturais bem intencionadas aqui, a companhia parece ter desaparecido sem deixar vestígios.

Nos primeiros anos, os críticos da nova companhia de 40 bailarinos viram-se forçados a confiar no adjetivo infeliz, "promissor"... Alí estava uma companhia de dança negra que pretendia provar que o balé clássico não era uma seara exclusiva dos brancos. Mitchell e o seu mentor branco, Karol Shook, um mestre de balé de renome internacional, foi um dos poucos "grandes" do mundo da dança que sempre apoiou os dançarinos negros que co-fundaram o Dance Theater of Harlem. Entre os alunos de Shook, além de Mitchell estavam Alvin Ailey, Carmen de Lavallade e Geoffrey Holder.

Karel Shook (1920-1985). Cortesia Dance Theater of Harlem.Karel Shook (1920-1985). Cortesia Dance Theater of Harlem.

A crença popular e o preconceito eram de que os corpos negros se moviam de forma diferente dos brancos, proporcionando uma visão racial para a ausência de dançarinos negros nas principais companhias clássicas. A carreira meteórica de Mitchell com o balé de Nova York explodiu esse mito!  

Escrevendo no Guardian em 1974, o crítico Dale Harris explicou que "Mitchell não viu nenhuma razão para que os negros, que há muito se destacam no palco, em danças de gênero popular, não tivessem sucesso no balé, e o obtenham, além disso, como as outras companhias de balé, no circuíto comercial. Os bailarinos de Mitchell não são simplesmente negros. São negros americanos - com tudo o que isso implica em físico, temperamento e ambição. Os dançarinos negros têm qualidades únicas de ênfase e fraseado. Eles convertem as técnicas universais de balé para seus próprios fins expressivos, inevitavelmente não menos do que os dançarinos russos, britânicos ou chineses."

Essa temporada de São Paulo, a primeira visita da empresa ao Brasil desde 1996, é novamente apresentada pelo Mozarteum, que os trouxe aqui para aquela temporada inicial. Depois de São Paulo, a companhia se apresentará em duas noites, nos próximos dia 17 e 18 em Trancoso, Bahia. 

'Valse Fantaisie' de George Balanchine. Foto: Rachel Neville / DTH.'Valse Fantaisie' de George Balanchine. Foto: Rachel Neville / DTH.

O programa de São Paulo é um excelente mix de peças clássicas e contemporâneas. O domínio do idioma clássico pela empresa abre a noite com a bela 'Valse Fantaisie', de George Balanchine, dançada com a famosa partitura Glinka. Compare com 'Change' (Mudança), coreografada por Dianne McIntyre e Robert Garland em homenagem aos 30 anos do Dance Theater of Harlem, 'Return' (Regresso) e você poderá comprovar a enorme variedade de estilos da companhia.

O caminho para este 50º aniversário foi muito acidentado. Apesar do crescente sucesso crítico e popular, em 2004, a empresa foi declarada falida e forçada a cessar as operações durante oito anos, até 2012. Se ela poderia ser ressuscitada estava sempre em questão. Embora Mitchell tenha desistido da gestão da empresa há muitos anos, ao contrário de muitas empresas que perderam o seu brilho e energia após a morte dos seus fundadores, (Arthur morreu de ataque cardíaco aos 84 anos, Karol Shook morreu em 1985) mesmo sem eles, o Dance Theater of Harlem voltou a crescer em qualidade e popularidade.

Coreografia 'Change' de Dianne McIntyre e Robert Garland. Foto: Andrea Mohin / The New York TimesCoreografia 'Change' de Dianne McIntyre e Robert Garland. Foto: Andrea Mohin / The New York Times

O retorno foi gerenciado e inspirado por Virginia Johnson, uma das antigas dançarinas principais de Mitchell que assumiu a companhia, reduzida de 44 para 18 dançarinos. A subida de volta ao topo do mundo da dança não tem sido fácil. Mas ela estava claramente inspirada e sabia que mesmo que a mudança fosse difícil, ela conseguiria. Ela já tinha estado no topo antes.

Citando-a, o The New York Times escreveu:

"(Arthur) me disse que eu não sabia de nada, que não sabia dançar. Que ia ter que começar do início - que estava tudo errado com o que eu estava fazendo". 'Você é gorda, é feia'. Resumiu de forma grosseira. "Em anos posteriores, eu vim a entender que aquilo havia sido um teste, mas quando aconteceu foi devastador. Foi a primeira vez que me embebedei na minha vida. Mas sabe que mais? Eu voltei. O que ele estava dizendo era: 'Você pode mudar? Mudar vai ser difícil. Vai ser muito difícil. Você está disposto a fazer isso?'"  

"Return" com Ingrid Silva, Dylan Santos e Choong Hoon. Foto: Rachel Neville / DTH. "Return" com Ingrid Silva, Dylan Santos e Choong Hoon. Foto: Rachel Neville / DTH.

Estava e ela voltou a fazê-lo, esplendidamente. Embora a raça ainda seja um problema para a companhia e esteja refletida em alguns de seus repertórios, ela não é tão importante como era antes. A dança é o que é importante e temos a sorte de receber a visita do Dance Theater of Harlem.

Serviço

Dance Theatre of Harlem
Teatro Alfa - R. Bento Branco de Andrade Filho, 722, Jardim Dom Bosco, tel. 5693-4000.
Sex (11) e sáb (12): 21h.
Ingressos: R$ 250 a R$ 400.
Site: http://www.teatroalfa.com.br/espetaculo/dance-theatre-of-harlem/

***
Peter Rosenwald mora em São Paulo e combina sua ocupação como estrategista de marketing para grandes empresas brasileiras e internacionais. Tem também carreira em jornalismo onde atuou por dezessete anos como crítico sênior de dança e música do 'The Wall Street Journal'. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.



APOIE O SÃO PAULO SÃO

Ajude-nos a continuar publicando conteúdos relevantes e que fazem a diferença para a vida na cidade.
O São Paulo São é uma plataforma que produz conteúdo sobre o futuro de São Paulo e das cidades do mundo.

bt apoio





 
 
APOIE O SÃO PAULO SÃO

Ajude-nos a continuar publicando conteúdos relevantes e que fazem a diferença para a vida na cidade.
O São Paulo São é uma plataforma que produz conteúdo sobre o futuro de São Paulo e das cidades do mundo.

bt apoio