Sobre a escuta ativa, o que as crianças têm a dizer? - São Paulo São

Por conta das comemorações do Dia das Crianças (dia 12 de outubro), nós do Sidewalk Talk – Conversas na Calçada daremos sequência a reflexão da infância na cidade e os desdobramentos da escuta ativa praticada em espaços públicos. Será que as crianças gostam de conversar? O que as crianças têm a dizer? Será que estamos ouvindo as necessidades reais dos nossos pequenos? Na nossa rotina tão frenética, damos ouvidos às crianças? Como seria nossa cidade se ouvíssemos mais as necessidades das crianças? Vamos trazer aqui um breve relato sobre um encontro entre uma de nossas voluntárias e uma criança que teve interesse em sentar-se nas nossas cadeiras. Para nós, conversa de criança é coisa que deve e precisa ser levada a sério.

“Um dia ensolarado, embalado ao som de uma banda de Jazz, exposições de arte ao redor, produtores autorais e ótima gastronomia, compunham o cenário. Voluntários a postos, de repente, despretensiosamente uma menina aparentemente jovem e menor de idade, sentou-se em uma cadeira e permaneceu por alguns instantes conectada ao seu celular. Fui ao seu encontro, sentei-me em sua frente, pronunciei um singelo oi e perguntei se ela gostaria de conversar. Neste instante, timidamente ela interrompeu o uso do celular me direcionou os olhos e perguntou espantada: - “Mas eu sou só uma criança, não tenho nada importante para dizer” (sic). 

Como seria nossa cidade se ouvíssemos mais as necessidades das crianças? Foto: Shutterstock.Como seria nossa cidade se ouvíssemos mais as necessidades das crianças? Foto: Shutterstock.

Fiquei surpresa com a sua colocação e automática desvalorização. É como se uma criança não pudesse conversar, ocupar este lugar de troca em que um outro, adulto, está disposto a ouvir o que ela tem a dizer. Imediatamente me coloquei à sua disposição e demonstrei meu interesse em ouvir, conhecer, conversar sobre qualquer coisa do seu mundo infantil. Pontuei que no nosso projeto,  estamos disponíveis e queremos escutar crianças e adolescentes. 

Comecei perguntando sua idade, ela respondeu 11 anos e engatou uma longa conversa que se iniciou com o motivo que a levou à feira, seguindo para a relação familiar com os pais, escola, mudanças, medos, desejos, responsabilidades, amizades, escolha profissional, desempenho escolar, foram muitos os assuntos... Temáticas complexas, profundas, que permeiam sua vida e que pediram espaço naquele dia quente. 

Após quase uma hora de conversa, nossa conversa foi interrompida pela mãe da criança. A garota respondeu que conversava e a mãe sugeriu que ela fosse comprar algo para comer, pois deveria estar com fome. A menina pediu para a mãe lhe comprar algo e não demonstrou estar muito preocupada com isso no momento. Sua alma tinha fome do quê? O que de fato desejava? Conversar parecia mais importante naquele exato momento, mas infelizmente sua mãe não pôde perceber isto e ordenou que a filha fosse comprar algo para comer. Rapidamente despediu-se e saiu para realizar o desejo de sua mãe. 

Será que as crianças gostam de conversar? O que as crianças têm a dizer? Foto: Shutterstock.Será que as crianças gostam de conversar? O que as crianças têm a dizer? Foto: Shutterstock.

Após algum tempo, surpreendentemente, a mesma menina que havia questionado meu interesse sobre a sua história e seu direito de falar dos percalços de sua vida aos 11 anos, voltou a se aproximar de nossas cadeiras. No momento eu estava conversando com outra pessoa e ela permaneceu por alguns instantes por perto, sem sentar-se, depois foi embora. Mais tarde, quando eu estava livre, insistentemente ela retornou disposta a continuar a conversa anteriormente interrompida, desejante de um lugar de escuta e troca. Contente com a situação, novamente me disponibilizei e seguimos por mais uma hora conversando, prolongando os assuntos antes descritos. Até que, mais uma vez, sua mãe apareceu e solicitou que ela a ajudasse. A menina disse que iria em instantes, conseguiu se despedir de mim e finalizou dizendo que em algum momento gostaria de ser a pessoa que está do “outro lado” (sic.), ocupar a minha posição, sentar disponível para escutar e se conectar com um outro desconhecido, que passeia em uma feira por aí...” (Adriana Greco, voluntária do Sidewalk Talk Conversas na Calçada)

Como podemos ver, diferentemente do que a princípio imaginado, ela tinha muita coisa importante para dizer. E, ao encontrar uma boa interlocutora a conversa aconteceu e ela pode, inclusive, manifestar o seu desejo em também poder escutar uma outra pessoa. 

Na nossa rotina tão frenética, damos ouvidos às crianças? Foto: Shutterstock.Na nossa rotina tão frenética, damos ouvidos às crianças? Foto: Shutterstock.

Os pais/responsáveis muitas vezes esperam que os filhos realizem seus desejos, esquecem que eles são dotados de desejos, necessidades próprias e que como pais, precisam estar atentos e abertos para acolherem as demandas. Isto não significa concordar com o filho, ou aceitar sem nenhuma reflexão, mas se permitir escutar e estabelecer um diálogo. As crianças precisam brincar, estudar, conviver, conversar, manifestar seus desejos, realizar trocas com outras crianças e construir vínculos. 

A cidade nos parece ser um ótimo palco para ser explorado entre pais e filhos e render boas conversas, caminhadas e brincadeiras que possam surgir desta exploração. Em tempos de hiperconectividade, um passeio pelas ruas, uma paradinha estratégica  numa praça, uma conversa com os comerciantes do bairro podem ser iniciativas criativas e lúdicas; uma ótima ferramenta na descoberta e construção da alteridade, no interesse pelo Outro que cruzar o seu caminho.

Habitar uma sociedade mais solidária, atenta às necessidades, aos direitos infantis e que proporcione espaços públicos acolhedores, que abracem e acolham a infância.

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Por Adriana Greco & Patrícia Maria Martins & Luiz Alfredo Santos do Sidewalk Talk - Conversas na Calçada, que escrevem quinzenalmente no São Paulo. 

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