Os professores estão envelhecendo - São Paulo São

Em abril do ano passado escrevi, aqui mesmo neste espaço, um texto sobre como estávamos cercados por “velhinhos”: nas lojas, mercados, nas ruas, no volante dos táxis, dos ônibus (autocarros, por aqui), nos balcões do serviço público e, bastante, nas salas de aulas, ensinando crianças e jovens. Sob as diversas abordagens que o cenário poderia ter sido abordado – da necessidade de seguir trabalhando pela dificuldade de acumular um patrimônio que garantisse um pouco mais de “vida mansa” nos anos mais avançados ou da sociedade que não discrimina os mais velhos, acabei optando pela última e seguindo o lado mais romântico da realidade. Um ano e meio depois, porém, um dos pontos que via com bons olhos – os professores mais “maduros” e experientes em todas as escolas e salas de aula que acabei conhecendo por causa do meu filho – parecem ser, hoje, motivo de muita preocupação.

De acordo com o relatório anual sobre educação da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), Education at a Glance, o envelhecimento dos professores em Portugal acontece em ritmo acelerado: há 10 anos, 16% da classe docente estava na faixa de idade abaixo dos 30 anos. Hoje, 41% de todos os professores do país estão com mais de 50 anos, contra 22% de 10 anos atrás. Os que estão acima de 60 anos de idade já representam uma fatia de 20% do total de professores. É um dos países com a categoria mais envelhecida entre todos os países da OCDE.

Recente pesquisa mostra que 99% dos professores em Portugal são ao menos balzaquianos, ou seja, turma prá lá dos trinta anos. Foto: Getty Images.Recente pesquisa mostra que 99% dos professores em Portugal são ao menos balzaquianos, ou seja, turma prá lá dos trinta anos. Foto: Getty Images.

Por aqui, a idade média dos professores é de 49 anos, turma mais nova apenas do que os que lecionam na Geórgia, Lituânia, Bulgária e Estônia. No ritmo do envelhecimento, a OCDE aponta que metade dos professores em Portugal terá idade para se aposentar na próxima década. Ou seja, será preciso “repor” metade dos professores em 10 anos. Um desafio e tanto, principalmente quando se tem dados que mostram a queda no número de estudantes que buscam os cursos superiores de Educação no país.

Por outro lado, indicadores do TALIS 2018 (Teaching and Learning International Survey), pesquisa da OCDE com cerca de 260 mil professores de 15 mil escolas em quase 50 países, apontam que mais de 90% dos professores em Portugal escolhem a profissão para influenciar o desenvolvimento das crianças e a consideram a primeira opção de carreira, números bem superiores ao da média dos países da OCDE. O aspecto financeiro não é o principal direcionador da decisão, que é realmente muito mais guiada pela vocação e pela vontade de fazer a diferença na sociedade. Ou seja, existe a vontade genuína de ser professor. E o que falta, então? Os próprios professores colocam o recrutamento de mais colegas (o que permite ter classes com menos alunos) e de mais pessoal auxiliar como as prioridades. Salário aparece em terceiro lugar como fator de atratividade.

Mais de 90% dos professores em Portugal escolhem a profissão para influenciar o desenvolvimento das crianças. Foto: SAPO.Mais de 90% dos professores em Portugal escolhem a profissão para influenciar o desenvolvimento das crianças. Foto: SAPO.

Outras pesquisas confirmam o cenário preocupante. Dados do Relatório Educação em Número 2019, da Direção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), também mostram o quadro geral de envelhecimento do professorado: na virada do século, Portugal tinha quase 30 mil professores na faixa de idade de até 30 anos. Hoje, são pouco mais de mil. No mesmo período, os que tinham 60 anos ou mais passaram de 3,6 mil para mais de 13 mil. No total, o país tinha cerca de 150 mil professores em 2000. Hoje, a categoria reúne pouco mais de 120 mil. Em menos de 20 anos, Portugal “perdeu” aproximadamente 30 mil professores.

A discussão, porém, não se limita a uma categoria profissional. Reverter essa tendência do envelhecimento do corpo docente parece tarefa ainda mais difícil quando se depara com outros indicadores: Portugal vai ter a população mais envelhecida da Europa em 2050, de acordo com os dados da Eurostat. A turma dos cinquentões (mais de 55, para ser preciso) vai representar quase metade de todos os portugueses (eu, se chegar até lá, vou fazer parte desta estatística. E com bastante folga...), contra cerca de 40% nos demais países da União Europeia. Hoje, a Itália é o país com a população mais velha, seguida pela Grécia e por Portugal. Na média geral da UE, quase 20% da população está na faixa de idade superior a 65 anos. E envelhecendo...

 Hoje, a Itália (foto) é o país com a população mais velha, seguida pela Grécia e por Portugal. Foto: Bloomberg. Hoje, a Itália (foto) é o país com a população mais velha, seguida pela Grécia e por Portugal. Foto: Bloomberg.

O lado positivo de tudo isso? Estamos vivendo mais. Aqui na Europa, estima-se que os homens que atualmente estão na casa dos 65 anos de idade devem viver até os 83 anos, enquanto as mulheres chegarão aos 86 anos, na média. Os portugueses têm expectativa de vida em torno dos 81 anos. A maior longevidade fica na França, com as mulheres indo até os 88 anos.

A conta, portanto, parece não fechar e torna a renovação da categoria dos professores um problemão. Portugal é o terceiro país com menos crianças e jovens até os 15 anos e possui uma das menores taxas de filhos por mulher em idade fértil, com índices abaixo da média da União Europeia. Em 2018, Portugal tinha 1,4 milhão de crianças e jovens nesta faixa etária, queda de 500 mil em comparação com os anos 1990 (1,9 milhão). No outro extremo, havia 900 mil pessoas com mais de 70 anos, contra 1,6 milhão de hoje. As crianças de até 4 anos de idade eram quase 550 mil em 1991, enquanto hoje ficam em torno de 430 mil. Ou seja, primeiro é preciso torcer para nascer mais gente. Depois, torcer para que queiram ser professores. Mas se o quadro não mudar, também não é preciso muita preocupação: tudo caminha para que também falte alunos...

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Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.



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