Finados na cidade! - São Paulo São

Viaduto do Chá no centro de São Paulo. Foto: Getty Images.Viaduto do Chá no centro de São Paulo. Foto: Getty Images.

“Bendito sejas, Viaduto Paulista! Sem tu não  poderia passar desta para melhor, embalado pela brisa que te circunda. Adeus! Até para a eternidade és o passadiço de útil eficiência!”

A citação acima nada mais é do que um bilhete achado no bolso de um suicida que, segundo Paulo Cursino de Moura, pulara do nosso querido Viaduto do Chá. O caso seria só folclórico se o assunto morresse aí. Porém, através do livro de Fernanda Cristina Marquetti, "O suicídio como espetáculo na Metrópole", fica-se sabendo que o ato de dar cabo à própria vida,  quando cometido num lugar público, adquire nuances diversas de espetáculo. Um dos palcos históricos mais procurados na cidade de São Paulo para esta representação final da vida foi por muito tempo o tradicional Viaduto do Chá.

O suicídio em si já gera uma enorme polêmica. Haja vista o caso do copiloto que se trancou na cabine do avião e fez seu gran finale levando consigo todos os passageiros. Inúmeras explicações podem ser dadas para o que leva um sujeito a fazer isto e, neste caso, levar com ele tanta gente. 

O livro da Fernanda de fato não está muito preocupado em compreender e sugerir profilaxias sociais para os suicídios. O que interessa para a autora, e isso que eu achei muito original,  é perceber como o suicídio ao tomar o espaço público nos desloca do universo privado, onde historicamente tornou-se o lugar de expressarmos nossas emoções e sentimentos, para ocupar de forma radical e espetacular o espaço público. 

Não é por mero acaso que a autora faz referência ao livro de Richard Sennett, "O declínio do homem público", ao comentar sobre este caminho do homem urbano para dentro de si.  A intimidade, os amigos nem tão próximos, passam a ser o ambiente mínimo de referência dos indivíduos. É na intimidade que se colocam todas as fixas para que o homem cumpra esta difícil tarefa de se estruturar e sentir-se parte da coletividade numa grande cidade. Porém, este investimento na vida íntima também demonstra que algo se esvaziou no espaço público. Lugar que até então dava estrutura ao homem urbano. 

Comenta a autora: o espaço público não está mais disponível para sustentar as manifestações de dor ou prazer. Das vivências de sociabilidade como o lazer, práticas políticas, consumo, religião à experiência da morte há uma tendência para tudo voltar-se para o domínio do privado.”(Marquetti, 2011, 56)

A opção de pensar o suicídio num lugar público da cidade levou a pesquisadora a cercar a questão através de diversas estratégias de abordagem. Uma das mais relevantes foi selecionar as instituições que  lidam com a morte por suicídio na cidade e partir para entrevistas com seus representantes.

O metrô, por exemplo, é um dos lugares mais utilizados para as pessoas cometerem suicídios “eficientes”. Porém, apesar de taxas elevadas, não há divulgação alguma sobre o número de óbitos que ocorrem nos subterrâneos da cidade pois a empresa de transportes acredita que isso atrairia outros suicidas ao local. Por outro lado, existe um dispositivo para evitar os suicídios assim como toda uma organização para minimizar a questão quando ocorre. E isto também parece muito emblemático. Que tipo de sociedade nos tornamos que precisamos eliminar e deixar distante do nosso convívio uma condição que faz parte da existência de qualquer ser vivo? Será que não viveríamos melhor se a condição da morte convivesse de forma mais próxima no nosso cotidiano?

Especialistas oferecem conselhos sobre prevenção de suicídio no Metrô da cidade de Filadélfia, EUA. Foto: The Pennsylvania  Inquirer.Especialistas oferecem conselhos sobre prevenção de suicídio no Metrô da cidade de Filadélfia, EUA. Foto: The Pennsylvania Inquirer.

Acredito que foram estas questões que Fernanda Marquetti tenta responder neste seu livro. Através do levantamento de informações e mapeamento de lugares onde se deram estas mortes por suicídio, a autora pôde perceber as tais nuances extremamente interessantes para compreendermos melhor como se vive e como se morre na cidade de São Paulo ao  levar para o espaço público um assunto tão controverso, o ato de dar cabo da própria vida!! That is  the question!

Para saber mais:

Fernanda Cristina Marquetti, O Suicídio como Espetáculo na Metrópole. Ed FAP- Unesp. 2011.
Richard Sennett, O Declínio do Homem Público, Ed. Record. 2014.

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Paula Janovitch é mestre em antropologia e doutora em história. Participa do coletivo PISA: pesquisa + cidade e do Escutando a cidade. Escreve no blog Versão Paulo sobre cultura urbana e quinzenalmente no São Paulo São. 



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