Nós que nos amávamos tanto - São Paulo São

Cena final de C'eravamo tanto amati ('Nós que Nos Amávamos Tanto') filme de Ettore Scola lançado em 1974. Imagem: reprodução.Cena final de C'eravamo tanto amati ('Nós que Nos Amávamos Tanto') filme de Ettore Scola lançado em 1974. Imagem: reprodução.

Algum tempo atrás, encontrei por acaso, na rua, um amigo que conheço há décadas e de quem fui bem próxima por muitos anos. Não nos víamos pessoalmente há cerca de quatro ou cinco, e aquele encontro inesperado suscitou em mim sentimentos difusos, que transitavam entre afeto, estranhamento, euforia e pesar. Numa fração de segundo, minha memória foi invadida por lembranças das inúmeras viagens e festas, dos aniversários, réveillons, cafés, almoços, dos pileques, das broncas, de choros e conselhos mútuos, e montou-se em minha cabeça uma colagem com centenas de pedaços de nossa história: amigos em comum, casamentos, separações, novos parceiros, casas, empregos, nascimento de filhos, perdas familiares, infinitas situações vivenciadas de maneira próxima, afetiva e companheira. Onde foi mesmo que nos perdemos?

Perguntei a ele sobre seus pais, e soube que haviam falecido – um há cerca de dois anos, outro há poucos meses.

– Você não soube?

– Não, ninguém me avisou.

–  A gente postou no Face.

–  Ah... 

Uma tristeza me invadiu. Pensei em dizer o quão me pareceu injusto não ter tido a possibilidade de me despedir daquelas pessoas, tão queridas e presentes em boa parte de minha vida... E dizer também como lamentava não ter estado perto da família naqueles momentos. Mas as únicas palavras que saíram de minha boca foram 'sinto muito'. Depois de três ou quatro frases genéricas, nos despedimos com o habitual "vamos marcar alguma coisa", e cada um seguiu seu caminho, eu pensando na famosa cena de um dos filmes mais lindos de Ettore Scola (No original 'C'eravamo tanto amati' de 1974 com Vittorio Gassman, Nino Manfredi, Stefania Sandrelli e Stefano Satta).

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A primeira rede social de estrutura próxima às que hoje conhecemos parece ter surgido nos Estados Unidos em 1995 – chamava-se Classmates e tinha por objetivo conectar estudantes universitários. Na mesma época nasceu também a The Globe, que em três anos fez um aclamado IPO e, uma década  depois, encerrou definitivamente suas atividades. Os últimos vinte e tantos anos nos trouxeram, não necessariamente nessa ordem, MySpace, LinkedIn, Orkut, Photobucket, Tumblr, Facebook, Instagram, Twitter, Pinterest, Foursquare, TikTok e outras tantas redes de diferentes propósitos mas mesmo princípio. Isso sem falar em aplicativos de mensagens instantâneas, do antigo MSN ao atual WhatsApp.

O site tinha layout bem simples e um objetivo definido: possibilitar reencontros entre amigos que estudaram juntos, seja no colégio ou na faculdade. Imagem: reprodução.O site tinha layout bem simples e um objetivo definido: possibilitar reencontros entre amigos que estudaram juntos, seja no colégio ou na faculdade. Imagem: reprodução.

Alternando períodos de atividade mais frequente com outros de total ausência, mantenho no Facebook um perfil pessoal há quase dez anos e uma página de meu projeto SobreTodasAsCoisas há nove. De início, a possibilidade de me conectar a um número infinito de pessoas – próximas ou distantes, seja no tempo ou no espaço – me deslumbrou: cotidianamente, (re)encontrava no Face antigos vizinhos, colegas de colégio, de faculdade, ex-professores, ex-clientes, ex-chefes, amigos que mudaram de cidade, de país, personalidades que admirava... e, claro, também aqueles que faziam parte de minhas relações próximas mas com quem a intensidade da vida paulistana nem sempre me permitia estar. Além dessas, o conteúdo que produzia para o SobreTodasAsCoisas fazia com que muitas outras pessoas se conectassem comigo. Minha rede crescia exponencialmente e eu acreditava estar agregando, somando. 

No decorrer do tempo, vários daqueles que conheci nesse ambiente romperam a barreira virtual e entraram de fato em minha vida, criando comigo relações profissionais ou pessoais. No entanto, o inverso também aconteceu: muitos de quem era verdadeiramente próxima foram deslocando nossa amizade para o ambiente digital e restringindo nossa interação a likes e coraçõezinhos. Semana passada, por ocasião de meu aniversário, recebi pelo Face centenas de mensagens carinhosas, vindas tanto de pessoas com quem nunca troquei mais do que duas palavras quanto de amigos que, anos atrás, me telefonavam ou vinham até minha casa ou me chamavam para uma cerveja. Como no dia em que encontrei meu amigo, experimentei a um só tempo sentimentos diversos: alegria, gratidão, carinho, saudade, frustração. Ouvi a voz de Nana Caymmi: "É a vida que afasta, apaga ou faz brilhar a chama no peito dos homens" (Voz e Suor de Sueli Costa e Abel Reis, 1989).

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Cena de 'O Reencontro' filme estadunidense de 1983, dirigido por Lawrence Kasdan. Imagem: Reprodução.Cena de 'O Reencontro' filme estadunidense de 1983, dirigido por Lawrence Kasdan. Imagem: Reprodução.

Por não saberem ao certo como funciona o algoritmo do Facebook, muitos usuários acreditam que suas postagens são visualizadas pela totalidade de seus amigos. Muitos também dão como certo que todas as pessoas acessam o aplicativo diariamente, e portanto ele seria o meio mais adequado para divulgar uma informação, mesmo que relevante ou urgente. Nessa mistura entre desconhecimento e deslumbramento, estamos perdendo uma parte importante de nossa humanidade: o olhar amoroso, o sorriso que alegra, a mão que ampara, o abraço que acolhe.

Há dias que tenho saudades do tempo de poucos amigos.

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Valéria Midena, arquiteta por formação, designer por opção e esteta por devoção, escreve quinzenalmente no São Paulo São. Ela é autora e editora do site SobreTodasAsCoisas.



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