O ano do Jerricã e da Pirralha - São Paulo São

A escolha das palavras é, de certa forma, uma retrospectiva daquilo que mais marcou a sociedade ao longo do ano. Foto: Correio da Manhã. A escolha das palavras é, de certa forma, uma retrospectiva daquilo que mais marcou a sociedade ao longo do ano. Foto: Correio da Manhã.

E aí, você sabe o que é Jerricã (ou Jerrican, como também já vi)? Eu assumo a minha ignorância e reconheço que ouvi (ou li, melhor dizendo) pela primeira vez dias atrás. Como atenuante para a minha limitação, tenho a impressão que a palavra não é usada no nosso “português brasileiro”, língua que eu costumava usar até 2017 (ou será que a minha burrice é ainda maior e todo o brasileiro sabe o que é um jerricã?). Enfim, o Jerricã (ainda não foi pesquisar o que é?) apareceu na minha vida quando soube que esta é uma das 10 palavras que pode ser eleita “A Palavra do Ano” em Portugal, em uma votação que já está na sua décima edição. A iniciativa é de uma grande editora portuguesa e costuma mobilizar boa parte da população. No ano passado, foram mais de 200 mil votantes. Até o momento, “Sustentabilidade” é a que tem o maior número de votos, seguida por “Violência” e “Desinformação”. “Jerricã” (agora já deve ter ido pesquisar e já sabe o que é, não?) aparece na quarta posição, à frente de “Nepotismo”, “Trotinete”, “Seca”, Influenciador”, “Lítio” e “Multipartidarismo”

Meu voto já deve estar claro para vocês, certo? Vou de “Jerricã” na cabeça, a única palavra nova para mim entre essas 10 finalistas. Se quiser votar, clique no (http://www.palavradoano.pt./) até o dia 31 de dezembro. Ajude a minha “Jerricã” a ser eleita! Aliás, pelo meu critério - palavras desconhecidas em português - minhas dez finalistas deveriam ter também Xizato, Quispo, Berbequim, Esferovite, Autoclismo, Dióspiro, Rebuçado, Montra e Trolha (não, não é aquilo...). Mas os critérios não são meus e a escolha das dez finalistas é feita pela editora, a partir da “análise de frequência e distribuição de uso das palavras e do relevo que elas alcançam, tanto nos meios de comunicação e redes sociais como no registo de consultas online e dos dicionários da editora”. Durante o mês de novembro, o site do concurso também ficou aberto para que os portugueses sugerissem palavras para a votação final. 

Vou de “Jerricã” na cabeça, a única palavra nova para mim entre essas 10 finalistas. Foto: Lusa.Vou de “Jerricã” na cabeça, a única palavra nova para mim entre essas 10 finalistas. Foto: Lusa.

A escolha das palavras é, de certa forma, uma retrospectiva daquilo que mais marcou a sociedade ao longo do ano. Fatos importantes, grandes discussões, debates, tendências e polêmicas estão sempre por trás das palavras finalistas. Ou seja, cada palavra traz um pouco do que o país viveu durante o ano. É como sintetizar em uma única palavra o conjunto emoções, ações, reações causadas por algo importante e marcante para a sociedade, para o bem ou para o mal. De volta à minha Jerricã, ela certamente entrou na lista porque foi muito usada durante umas boas semanas, graças à greve dos motoristas de caminhão responsáveis pelo transporte de mercadorias perigosas, entre elas o combustível nosso de cada dia. Sim, havia posto sem uma gota de gasolina e muitos com grandes filas, com gente que enchia o tanque e...o jerricã (a essa altura, não creio que seja um spoiler. Já foi lá no Google, né?).

Nos últimos 10 anos, as Palavras do Ano foram “Enfermeiro”(2018), “Incêndios”, “Geringonça”, “Refugiado”, “Corrupção”, “Bombeiro”, “Entroikado”, “Austeridade”, “Vuvuzela” (Lembram da Copa de 2010?) e “Esmiuçar”.

Esta iniciativa da Porto Editora não é a única que destaca o papel e a força das palavras. O dicionário Priberan e a agência Lusa também acabam de destacar as palavras que mais marcaram 2019, entre elas, quem diria, “Pirralha”, proferida pelo presidente Bolsonaro. Vale dizer que quem fizer uma pesquisa nesta quarta-feira, dia 18 de dezembro, no site do Prebiran (https://dicionario.priberam.org/sobre.aspx) vai ver na nuvem de palavras mais pesquisadas os termos “Energúmeno” e “Rinha”. Que orgulho ver o Brasil ensinando tantas palavras para o mundo...

Imagem: reprodução.Imagem: reprodução.

A lista Priberan/Lusa tem como base as mais de 133 milhões de consultas feitas online. A retrospectiva está no site www.oanoempalavras.pt. que destaca as duas palavras mais buscadas em cada mês do ano, sempre associada a algum evento importante no país ou no mundo. O Brasil tem sido alvo da curiosidade dos portugueses, digamos assim, por fatos que acabaram sendo notícia por aqui também. Em janeiro, o acidente de Brumadinho fez saltar as pesquisas por “Mineradora”. Dois meses depois, a palavra mais pesquisada foi “Massacre”, graças aos dois ex-alunos  atiradores na escola em São Paulo. Em julho, só deu Brasil nas pesquisas: “Bossa-Nova”, por causa da morte de João Gilberto, e “Nepotismo”, graças mais uma vez ao presidente Jair Bolsonaro, que disse não ser nepotismo indicar o filho para a posição de embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Agosto deu mais uma palavra para o Brasil: “Calhorda”, termo usado pelo Ministro da Educação para definir o presidente francês, na discussão sobre o fogo na Amazônia. Em novembro, o time do Flamengo e o título da Libertadores impulsionaram a busca por “Rubro-negro”. Por fim, “Pirralha”, a palavra do mês de dezembro para os portugueses, resultado dos comentários do presidente brasileiro sobre a jovem ambientalista sueca Greta. “Pirralha” foi também a palavra mais pesquisada em todo o ano de 2019. Ainda em dezembro, uma outra palavra, ainda que não dita por um brasileiro, foi o grande destaque para as pessoas aqui da terrinha: “Espúria”, falada pelo ex-primeiro-ministro José Sócrates para criticar a “aliança espúria entre justiça e jornalismo” no Brasil.

E você, conseguiria definir o seu ano em 10 palavras apenas?

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Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.

 

 



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