Manuel virou João - São Paulo São

Cartões de controle de entrada de imigrantes portugueses no Brasil no início do século XX. Imagem: Arquivo Nacional.Cartões de controle de entrada de imigrantes portugueses no Brasil no início do século XX. Imagem: Arquivo Nacional.

Durante muito tempo, principalmente na minha infância no Rio de Janeiro, até o final dos anos 1970, sempre que surgia alguma história sobre portugueses, os personagens eram Joaquim ou Manuel. Nas piadas ou nas padarias, eles eram onipresentes. Era como se o critério para ser imigrante fosse ser chamado por um desses nomes. Dá até para imaginar o controle de passaporte na chegada do navio no Rio de Janeiro.

- Seu nome, por favor

- Manuel

- Seja bem-vindo

- E o do senhor?

- Joaquim

- Ok, pode seguir

-O senhor aí de trás, nome?

- Vicente

- Como assim? E esse passaporte português? Só pode ser falso... Português verdadeiro é Manuel ou Joaquim... Pode voltar para o navio, seu impostor...

O Alcântara estava entre os navios utilizados pelos imigrantes portugueses. Foto: Arquivo pessoal /Laire José Giraud)O Alcântara estava entre os navios utilizados pelos imigrantes portugueses. Foto: Arquivo pessoal /Laire José Giraud)

Brincadeiras à parte, minha percepção sobre os “Manuel” e “Joaquim” não é de toda errada. Entre os anos 1900 e 1930, os indicadores mostram a chegada de mais de 700 mil portugueses ao Brasil. A imigração caiu um pouco durante o Estado Novo, mas retomou o fôlego entre 1950 e 1960, quando mais de 200 mil atravessaram o Atlântico Ao cruzar os dados de nascimentos com os nomes escolhidos para os “miúdos”, fica claro que a chance de termos milhares de “Manuel” e “Joaquim” era realmente muito grande: o primeiro foi o nome mais utilizado pelas famílias nos anos 1920 e 1930. Seguiu no Top 4 em 1940, 1950 e 1960. Foi perdendo a preferência nos anos 1970 e 1980, quando deixou o Top 10, e passou a ser apenas o trigésimo quarto nome na lista dos mais usados pelos portugueses na década de 1990, posição parecida com a que tem atualmente (está entre os 30 preferidos). “Joaquim”, por sua vez, ainda que menos badalado que “Manuel”, esteve entre os Top 5 em 1920, 1930 e 1940, mantendo firme entre os Top 10 nas duas décadas seguintes. Ou seja, aquele português da padaria, um “velhinho” com seus 50 anos no final dos anos 1970, é da geração dos anos 1920, 1930. Portanto, ganhou o nome da moda naquele distante início do século XX.

“Joaquim”, por sua vez, ainda que menos badalado que “Manuel”, esteve entre os Top 5 em 1920, 1930 e 1940. Foto: José Abílio Coelho.“Joaquim”, por sua vez, ainda que menos badalado que “Manuel”, esteve entre os Top 5 em 1920, 1930 e 1940. Foto: José Abílio Coelho.

Mas se minha referência naqueles anos 1970 eram esses dois nomes, hoje posso dizer que me sinto cercado de “João”, o campeão da última década. Vale dizer que em Portugal a escolha dos nomes não é “esculhambada” como no Brasil. Aquelas nossas misturas de nome de jogador de futebol com parte do nome do avô querido, que juntos formam aberrações quase impronunciáveis, não são aceitas por aqui. Mesmo que já tenha sido mais rigoroso o sistema (é o que me disseram), ele é regulado pelo INR (Instituto de Registos e Notariado) que disponibiliza uma relação dos mais de 7 mil nomes atualmente aceitos. Se não estiver na lista, precisa aprovação formal. Aliás, alguns nomes acabaram sendo aceitos e entraram na lista porque passaram para o repertório português graças às novelas e músicas brasileiras. Reproduzo abaixo parte do trecho oficial do INR sobre a escolha dos nomes:

“O nome completo deve compor-se, no máximo, de seis vocábulos gramaticais, simples ou compostos, dos quais só dois podem corresponder ao nome próprio e quatro a apelidos. Os nomes próprios devem ser portugueses, de entre os constantes da onomástica portuguesa ou adaptados, gráfica e foneticamente, à língua portuguesa. A grafia dos nomes próprios deve obedecer à ortografia oficial à data do registo. O nome próprio não pode suscitar dúvidas sobre o sexo do registrando. A concordância do nome com o sexo do registrando limita-se ao primeiro vocábulo do mesmo. Assim, é aceitável um nome próprio masculino em cuja composição entre um elemento feminino e, inversamente, um nome próprio feminino em cuja composição entre um elemento masculino, desde que se verifique que o primeiro dos elementos do nome próprio se acha subordinado à concordância com o sexo do seu titular. A irmãos não pode ser dado o mesmo nome próprio, salvo se um deles for falecido. São admitidos nomes próprios estrangeiros, sob a forma originária, se o registrando for estrangeiro, se tiver nascido no estrangeiro, se tiver outra nacionalidade para além da portuguesa, se algum dos seus pais for estrangeiro ou, se algum dos seus pais tiver outra nacionalidade para além da portuguesa.”

A grafia dos nomes próprios deve obedecer à ortografia oficial à data do registo. O nome próprio não pode suscitar dúvidas sobre o sexo do registrando. Foto: Getty Images.A grafia dos nomes próprios deve obedecer à ortografia oficial à data do registo. O nome próprio não pode suscitar dúvidas sobre o sexo do registrando. Foto: Getty Images.

Em resumo, aqueles sobrenomes (apelidos) que não acabam, tipo os nossos “quatrocentões”, não são aceitos. Se quiser esnobar com um Almeida Prado Cerqueira César de Camargo, fique pelos Jardins ou Higienópolis mesmo. Escolher “Ariel” também parece que não dá certo:

- Que bebezinho lindo. Qual o nome:

- Ariel

- Que linda, nome de sereia

- É menino...

Quanto a ter filhos com nomes iguais, nunca pensei que alguém faria isso. Mas não custa deixar lá registrado. O mais perto que imaginei seria quando adotamos o sobrenome como forma de chamamento, o que acaba nos obrigando a identificar os “fofuchos” como 01, 02, 03 e, quem sabe, 04. Por fim, se pretende nomear seu herdeirinho de Romarison Gabigol, melhor ter o filho no Brasil. Desconfio que mesmo puxando a sardinha para as celebridades portuguesas a escolha não ia passar. Nada de Cristianisson Ronaldson Oliveira Pereira...

Voltando ao “João”, ele tem sido a principal, ou uma das principais escolhas ao longo dos últimos anos, fazendo par com “Maria”, a líder desde 2005. Um país tão católico como Portugal talvez explique a predileção pelas “Marias” (por outro lado, “Jesus” não é um nome comum aqui). Mas agora em 2019, “João”, ainda que entre os queridinhos, perdeu a liderança para “Francisco”, que em 2018 ocupava a segunda posição. De acordo com o último balanço, Portugal ganhou 1618 “Francisco” no ano passado e 5198 “Maria”, o que também indica – considerando uma divisão mais ou menos equilibrada entre os sexos – que o “mercado” de nomes femininos é bem mais concentrado do que o masculino. Quem subiu muito foi “Leonor”, passando de 290 (2018) para 1451 (2019), o que a colocou no segundo lugar do ranking dos nomes. “Matilde” veio em terceiro, tendo sido escolhido para 1374 menininhas (em 2018, foram 292). Por outro lado, “Ana”, a segunda principal escolha em 2018, passou para a nona posição, mesmo que tenha mantido os seus números absolutos (pouco mais de 700 em cada um dos dois últimos anos). Perdeu posições para “Carolina”, quarta colocada com 1064 bebezinhas, “Beatriz”(974), “Alice”(915), “Benedita” (896) e “Mariana” (794).

Casal escolhendo nome para filho na lista de nomes permitidos em Portugal. Foto: Euro Dicas.Casal escolhendo nome para filho na lista de nomes permitidos em Portugal. Foto: Euro Dicas.

Entre os gajos, os santos estão com tudo: “Francisco”, “João” e “Santiago”. O líder teve uma grande subida em números absolutos: passou de 487 (2018) para os atuais 1618. “João”, mesmo com leve subida em números absolutos (1189 x 1544) não acompanhou o ritmo do “Francisco”. E “Santiago”, numa modesta sétima posição em 2018 (383), subiu ao pódio graças aos novos 1391 novos portuguesinhos. “Pedro” também foi um nome que cresceu na preferência (478 x 846), mas despencou no ranking dos Top 20 (de terceiro para décimo sexto) por causa da subida de “Afonso”, “Gabriel”, “Duarte”, “Lourenço”, “Miguel”, “Rodrigo”, “Tomás”, “Martim”, “Vicente”, “Guilherme”, “Lucas” e “Salvador”

Meu nome “Marcos” é bem pouco comum por aqui, mas felizmente está na lista do INR. Muitas vezes acaba é virando “Marco”, que parece não soar tão diferente para a turma de cá. Ou, quando reforço o “S” final, a dúvida fica para a letra anterior. “É Marcos ou Marcus?...” Ah, “Manuel” e “Joaquim” são só os velhinhos, pois os nomes já não aparecem mais nem nos Top 20.

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Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.



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