São Paulo 466: complexidade fértil que enriquece a experiência - São Paulo São

São Paulo que faz Londres parecer uma vila, exagero de londrino apaixonado que aprendeu rápido a chamar-lhe realidade. Foto: Getty Images.São Paulo que faz Londres parecer uma vila, exagero de londrino apaixonado que aprendeu rápido a chamar-lhe realidade. Foto: Getty Images.

São Paulo completou 466 anos no último dia 25. A nossa paulicéia desvairada contemporânea, melhor e mais completa síntese e tradução de tantos Brasis. Aquela que foi um dia chamada de mau gosto, mau gosto, pelo poeta narcísico que ainda não a compreendera, recém se descobriu um dos destinos mais desejados no mundo. Desejada... Nada mal para uma quatrocentona já se aproximando dos cinco séculos de história.

“O Grande Cortejo Modernista” na comemoração do aniversário de São Paulo. Foto: Leon Rodrigues / Secom.“O Grande Cortejo Modernista” na comemoração do aniversário de São Paulo. Foto: Leon Rodrigues / Secom.

São Paulo que faz Londres parecer uma vila, exagero de londrino apaixonado que aprendeu rápido a chamar-lhe realidade. Superlativa em suas dimensões do sobrevoar sem fim, da diversidade, da solidariedade de sua gente, mas sobretudo nos problemas. A pauliceia é a expressão do urbano, ou melhor, humano, que nasce torto nas palavras de Kant, citado por Sennett. A cidade é torta, porque é diversa, cheia de gente de múltiplas origens falando dúzias de línguas e criando um melting point de culturas e costumes; é torta porque suas desigualdades saltam aos olhos e chocam sensibilidades, de bairros com propriedades suntuosas a poucos blocos ou mesmo vizinhas de muro de favelas; a cidade é torta por seu estresse da luta por sobreviver e ser cidadão da cidade em meio à selva de concreto, a vila, onde cada vez mais gente procura empregos que parecem escassear à olhos vistos. 

Obra prima de Rafael Sanzio. Ao centro e ao alto, Platão à esquerda, usando toga vermelha, dialoga com Aristóteles, vestindo uma toga azul. Imagem: Reprodução.Obra prima de Rafael Sanzio. Ao centro e ao alto, Platão à esquerda, usando toga vermelha, dialoga com Aristóteles, vestindo uma toga azul. Imagem: Reprodução.

Aristóteles já entendera, quatro séculos antes de Cristo, que cidade pressupõe encontro de homens (e mulheres) diferentes, tudo junto e misturado em esforço de síntese e sinergia; “pessoas similares não são capazes de inventar uma cidade.” Podem até planejar e inventar uma, mas lhe faltará vida, sendo mais um amontoado de edifícios e ruas e avenidas sem esquinas, nem encontros. A cidade é um lugar, um sistema complexo, conforme a definição do arquiteto Robert Venturini, citado também por Sennett, cheia (o) de contradições e ambiguidades. E o mais importante, sua complexidade é fértil, enriquece a experiência, ao contrário da claridade e simplicidade que a dilui ou a ofusca.

Celebrar o aniversário de um gigante como São Paulo é celebrar a complexidade dos sistemas urbanos abertos de possibilidades, “open source” em alternativas e soluções que não sabemos bem ao certo onde vão dar. Esta é a magia cantada em versos do Premê do “é sempre lindo andar na cidade de São Paulo / o clima engana, a vida é grana em São Paulo / a japonesa loura, a nordestina moura de São Paulo”. 

A magia cantada em versos do Premê: “é sempre lindo andar na cidade de São Paulo / o clima engana, a vida é grana em São Paulo / a japonesa loura, a nordestina moura de São Paulo”. Foto: Hélvio Romero.A magia cantada em versos do Premê: “é sempre lindo andar na cidade de São Paulo / o clima engana, a vida é grana em São Paulo / a japonesa loura, a nordestina moura de São Paulo”. Foto: Hélvio Romero.

Estas sínteses e sinergias possíveis da multiplicidade e da complexidade das cidades é que estão em riscos diante do clima de crescentes fobias sociais para com o outro, o diferente, a segregação entre pobres e ricos e a incapacidade de lidar, administrar este sistema complexo e todas as suas contradições e ambiguidades sociais, econômicas, políticas e valores. Como se fosse cada vez mais difícil para pessoas de diferentes circunstâncias viverem juntas no mesmo espaço, um paradoxo em uma sociedade cada vez mais urbana. O tragicômico contexto social, descrito por BONG Joon Ho em seu “Parasita”, filme indicado a seis Oscars. Um mundo triste, onde relações humanas baseadas em coexistência ou simbiose não se sustentam, e um grupo é forçado a uma relação parasitária com outro. 

A percepção desumanizada, a falha em considerar espontaneamente a mente de outra pessoa, funciona como mecanismo psicológico que facilita atrocidades ou mesmo nos torna imunes às dores dos outros. Criamos muros cada vez mais altos para nos protegermos do outro. Como define Byung-Chul Han em tempos de sujeitos narcísicos é difícil “perceber o outro e reconhecer esta alteridade”. E continua o autor coreano, o sujeito só encontra significação quando consegue reconhecer de algum modo a si mesmo no outro.

Equipe do Sidewalk Talk comemorando o aniversário da cidade na Avenida Paulista em calçada do Parque Trianon. Foto: Divulgação.Equipe do Sidewalk Talk comemorando o aniversário da cidade na Avenida Paulista em calçada do Parque Trianon. Foto: Divulgação.

Como ensinava Aristóteles, a cidade deve e pode ser um lugar de encontro entre pessoas. É isto que nós do Sidewalk Talk – Conversas na Calçada desejamos e tentamos trazer para a nossa cidade. Sem uma visão romântica, à la Alice no País das Maravilhas, nós desejamos que apesar dos pesares, das complexidades, das ambiguidades e contradições do real, possa haver trocas, gentileza e generosidade em nossa São Paulo. A generosidade na definição de Comte-Sponville da virtude da doação, da capacidade de dar para aqueles que não os seus, o outro. Que possamos neste aniversário de São Paulo, tornarmo-nos mais gentis, mais atentos, mais generosos. Que os muros possam tornar-se pontes entre os diferentes e conectar os inúmeros mundos que coexistem na nossa cidade. E que as relações, entre nós cidadãos, sejam simbióticas e não parasitárias. Parabéns, São Paulo!

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Por Patrícia Maria Martins & Luiz Alfredo Santos do Sidewalk Talk - Conversas na Calçada, que escrevem quinzenalmente no São Paulo. 

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