Nossa partida de xadrez contra o vírus - São Paulo São

Pedestre com máscara anti Coronavírus em Avenida de Běijīng, capital da China em dia da semana. Foto: AFP.Pedestre com máscara anti Coronavírus em Avenida de Běijīng, capital da China em dia da semana. Foto: AFP.

Parece que a maior consequência do medo do vírus está naquilo que tínhamos de mais importante nas cidades: o encontro. É muito triste perder aquilo que demoramos tanto a começar a experimentar, a pluralidade vivida coletivamente. 

Talvez seja a lembrança de milhares de pequenos encontros, de pequenas felicidades cotidianas o que nos permita transcender as limitações do tempo que passamos por aqui.

Até agora, parecia que poderíamos viver sem pensar no vírus

Após o Carnaval de multidões nas ruas, o ano parecia finalmente começar a sério, as pessoas estavam voltando a falar de seus planos de trabalho, viagem, exercícios, desejos e tudo o mais que normalmente as pessoas planejam fazer mesmo que desistam depois.

Agora, porém, uma nuvem escura parece ter pousado nas notícias, nas bolsas, nos planos. A expectativa de uma crise mundial já chegou à vida cotidiana. Eventos e congressos são cancelados, passageiros fogem dos aviões, times jogam para estádios vazios na Europa, escolas fecham por precaução no Brasil.

Parece que a maior consequência do medo do vírus está naquilo que tínhamos de mais importante nas cidades: o encontro. Será mesmo que teremos que evitar a escola, os escritórios, os shows, a rua? Diante da perspectiva de ficarmos meses fugindo das aglomerações e de outras pessoas, comecei a pensar nas doenças e na morte.

Na década de 1980, a Aids trouxe um fantasma que ainda não sumiu e que nos afastou uns dos outros

Exatamente um século atrás, a gripe espanhola matou milhões no mundo e no Brasil. Quando acabou, contaram-se as mortes e o Carnaval do Rio de 1919 é descrito por Ruy Castro como uma festa dionisíaca de alívio e celebração da vida. Mas nada parece ter sido tão ameaçador como a Peste Negra, que dizimou quase um terço da população da Europa medieval.

Não havia para onde escapar, a não ser na ficção. Em O Decameron, alguns amigos fogem da peste e se reúnem numa vila nas montanhas, onde cada um conta uma história a cada dia. O livro de Boccaccio é satírico e iconoclasta, o que aparece vividamente na versão de Pasolini para o cinema, na década de 1970. A fuga do horror se dá pelo humor.

Mas a inexorabilidade da morte aparece mesmo é no filme O sétimo selo, de Bergman, com Max Von Sidow, que morreu há poucos dias.

No filme, que é recorrente na lista dos melhores filmes de todos os tempos, Sidow faz o papel de Antonius Blok, um cavaleiro que ao voltar das Cruzadas, encontra sua terra assolada pela Peste. As pessoas morrem em toda a parte e os corpos são levados em carroças. Os que escapam rezam, se açoitam, tornam-se violentos, lascivos, ou, como Blok, procuram um Deus, o sentido, um sentido.

A Morte o encontra, mas ele consegue adiar sua hora final, desafiando-a para uma partida de xadrez. Se ganhar, estará livre. Essa é uma das cenas mais icônicas da história do cinema, as duas figuras duelando na praia, o mar escuro ao fundo. O cavaleiro não teme a morte, mas busca encontrar o sentido das coisas antes de partir. Busca ganhar tempo e viver mais. Como todos nós.

A Morte encontra Antonius Blok, mas ele consegue adiar sua hora final, desafiando-a para uma partida de xadrez. Foto: Divulgação.A Morte encontra Antonius Blok, mas ele consegue adiar sua hora final, desafiando-a para uma partida de xadrez. Foto: Divulgação.

A busca pelo sentido parece ter fim quando ele encontra um casal de atores mambembes que gira pelos vilarejos fazendo graça e ganhando a subsistência. Eles o recebem com carinho e oferecem o que tinham: leite e morangos. Ao sol meigo do poente, eles comem juntos, enquanto o filho do casal dorme na carroça. É nesse momento que o cavaleiro se dá conta de estar vivendo um momento transcendente.

“Eu vou me lembrar desse momento de paz. Os morangos, o leite. As faces de vocês ao sol poente. O pequeno Michael dormindo na carroça. Joseph tocando sua flauta. Eu vou lembrar das suas palavras e vou guardar essa memória tão cuidadosamente quanto estou segurando essa bacia de leite agora”.

A cena é arrepiante, de tão bonita. O cavaleiro que buscava Deus através das grandes perguntas, intui o sentido  num momento pequeno, de encontro casual. A partir daí, sua estratégia de atrasar o jogo não é mais para ganhar tempo para si, mas para os outros. A família de artistas, o pequeno Michael, isso é o que passa a importar.

Cada um de nós tem sua busca, encontraremos o sentido ou aceitaremos a falta de sentido, mas o cavaleiro medieval parece encontrar  a paz ao compartilhar comida e carinho com outras pessoas.

O encontro entre as pessoas pode nos ajudar a encontrar sentido, seja na relva da ravina sueca, seja no piquenique do parque do Ibirapuera, seja tomando leite numa tigela ou cerveja num bar de Santa Cecília.  Talvez não O Sentido, mas ALGUM sentido.

Talvez seja a  soma de milhares de pequenos encontros, de pequenas felicidades cotidianas o que nos permita transcender as limitações do tempo que passamos por aqui

Seria muito triste perder aquilo que demoramos tanto a começar a experimentar, a pluralidade vivida coletivamente. Foto: Getty Images.Seria muito triste perder aquilo que demoramos tanto a começar a experimentar, a pluralidade vivida coletivamente. Foto: Getty Images.

Moramos numa cidade difícil, desigual, que às vezes nos afasta, mas que nos últimos anos tem estimulado as pessoas a se encontrarem. Hoje vemos multidões no Carnaval, vemos estádios cheios, shows ao ar livre, vizinhos que fecham a rua para fazer festas juninas, gente se beijando pelas calçadas, amigos se encontrando nos bares, estranhos tropeçando na Paulista.

Seria muito triste perder aquilo que demoramos tanto a começar a experimentar, a pluralidade vivida coletivamente. Que a doença passe logo, que a gente possa represar essa vontade de estar ao lado de quem gostamos ou de quem nem conhecemos e que não precisemos fechar tudo para escapar do vírus.

A gente sabe que no jogo de xadrez contra a Morte, o máximo que podemos fazer é adiar o final para talvez chegar aos 90 anos que Max Von Sidow viveu e carregar memórias vívidas das pessoas com quem compartilhamos morangos e leite à luz cálida do sol poente.

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Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional. Artigo publicado originalmente no seu blog Caminhadas Urbanas.



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