Duas palavras - São Paulo São

Foi em junho de 2016 que vi no Facebook um post de um amigo querido, Daniel Benevides, recomendando uma oficina literária que seria ministrada no mês seguinte pelo escritor e tradutor Antonio Xerxenesky. Segundo Daniel (ele também escritor e tradutor, além de jornalista, editor, músico e pai de três meninas lindas), seria uma oportunidade ímpar, pois raramente Xerxenesky ministra cursos livres.

Fiquei interessada. Leitura e escrita são atividades que me dão enorme prazer desde muito criança e, com maior ou menor intensidade e em diferentes vertentes, sempre estiveram presentes na minha vida. A leitura, claro, de maneira mais cotidiana – de textos teóricos a poesia, passando por uma infinidade de gêneros, assuntos e autores. Já o exercício da escrita ficcional havia se perdido em algum momento entre o fim da adolescência e o início da juventude, dando lugar aos escritos acadêmicos e profissionais.

Como a essa altura eu já me dedicava ao SobreTodasAsCoisas e começava a produzir conteúdos específicos para marcas, achei que algumas aulas com um autor premiado, doutor em Teoria Literária, poderiam ampliar meus recursos e enriquecer minha escrita. Na verdade, fizeram muito mais que isso. Nem bem chegava à terceira aula e um ser até então adormecido dentro de mim já tinha despertado – alguém que um dia eu havia conhecido, de quem tinha uma vaga lembrança e que agora parecia querer se impor a mim mesma. Um misto de criança, pessoa e bicho, atento, curioso, fascinado, irracional, compulsivo. Obcecado com as palavras, com a busca, o aprendizado. E feliz, muito feliz.

Leitura e escrita são atividades que me dão enorme prazer desde muito criança. Foto: Kültür Tava.Leitura e escrita são atividades que me dão enorme prazer desde muito criança. Foto: Kültür Tava.

Àquelas aulas se seguiram muitas outras, sem parar desde então. Tive o privilégio de estudar com Alice Ruiz, Áurea Rampazzo, Luiz Ruffato, Ronaldo Bressane, entre outros. E de ter como colegas escritores incríveis, alguns já experientes e com livros publicados, outros iniciando seu percurso. Como eu, todos absolutamente apaixonados pela escrita literária.

Em meados do ano passado, eu e alguns desses colegas, unidos por essa paixão e por outras afinidades – naquele momento ainda intuídas –, decidimos formar um grupo de estudos. A ideia era nos reunirmos semanalmente para ler e analisar a produção de textos de cada integrante, sempre sob orientação da profissional que elegemos como mestra. E assim tem sido.

Somos oito os aprendizes, homens e mulheres. Mais de trinta anos separam o mais velho do mais novo e, excetuando-se nossa professora, nenhum de nós tem na literatura sua atividade principal. Há quem esteja na medicina, na física, no teatro, na fotografia. Também há economista, paisagista, jornalista. Um tem filhos, outro gatos, outro avós, outro irmãos. Diferentes histórias, diferentes experiências com a linguagem, diferentes experiências de vida.

Não fosse a escrita, talvez nunca tivéssemos nos encontrado, tão diversos nossos percursos. Por meio dela, no entanto, ao longo desses meses temos nos admirado com as infinitas semelhanças entre nós – preferências, escolhas, olhares, valores. Há algo intangível permeando o grupo, uma espécie de amálgama que a cada encontro (mesmo quando virtual, como agora) consolida a amizade, aumenta a admiração e o carinho mútuos e faz com que, cada um e todos, cresçamos juntos.

Foto de Victor Moriyama para o ensaio "O Grande Vazio" (The Great Empty) publicado no The New York Times.Foto de Victor Moriyama para o ensaio "O Grande Vazio" (The Great Empty) publicado no The New York Times.

Escrevo este texto porque tenho pensado muito sobre a dimensão da amizade. Neste momento tão inédito em que estamos todos assustados, socialmente isolados e privados de tantas coisas, fica ainda mais evidente que o principal suporte da vida são os afetos reais – amor e amizade. O primeiro, mesmo com todas as dificuldades, de modo geral temos inerente às nossas relações familiares e mais íntimas. Já a segunda, tão rara, construímos a partir de encontros e da justa medida entre afinidades e diferenças, proximidade e distanciamento, respeito, generosidade, dedicação e sorte, muita sorte. Como então, parodiando Caetano Veloso, podemos negar que esta (a amizade) não lhe é superior (ao amor)?*

A meus amigos da escrita, e a todos os amigos da minha vida, hoje envio duas palavras, esperando que ecoem por dezenas de anos ainda: muito obrigada!

*

"... Gosto do Pessoa na pessoa

Da rosa no Rosa

E sei que a poesia está para a prosa

Assim como o amor está para a amizade

E quem há de negar que esta lhe é superior?..."

(Trecho de 'Língua', composição de Caetano Veloso lançada no álbum 'Velô', 1984).


Leia também: O público e a privada***
Valéria Midena, arquiteta por formação, designer por opção e esteta por devoção, escreve quinzenalmente no São Paulo São. Ela é autora e editora do site SobreTodasAsCoisas.

 



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