A luz dos olhos negros - São Paulo São

 

Gustav Klimt :: "Judith I" (ou "Judit I e a Cabeça de Holofernes") :: 1901. Acervo: Österreichische Galerie Belvedere, Viena.Gustav Klimt :: "Judith I" (ou "Judit I e a Cabeça de Holofernes") :: 1901. Acervo: Österreichische Galerie Belvedere, Viena.

Nosso relacionamento teve início em uma reunião de trabalho e foi se transmutando ao longo de duas décadas. Para espanto de ambas, as diferenças de idade e histórias de vida só fizeram aumentar nossa proximidade, e acabamos trilhando juntas um caminho que, da atividade profissional, se expandiu para outros âmbitos, passando por troca de experiências, aprendizado mútuo, conversas pessoais, acolhimento a nossos contrastes e semelhanças, risos, choros, reclamações, confidências, conselhos. Tudo sempre permeado por admiração, respeito e, claro, muito afeto.

Minha amiga era extremamente culta, dotada de uma inteligência rápida e um humor agudo, ao mesmo tempo erudito e ácido. Nascida em uma família de classe média alta com perfil intelectual e progressista, foi enviada para fora do país na década de sessenta, assim que seu pai conseguiu resgatá-la de uma prisão em Brasília, onde esteve algum tempo por conta de sua atividade política. Socióloga sem diploma, feminista, ateia e com uma postura cética frente a quase tudo na vida, era apaixonada por cinema, filosofia e música clássica, e também por ovos e creme brulée. A nossos encontros – regados a chá ou vinho, dependendo da situação – poderiam comparecer Simone de Beauvoir, os tupamaros, Givenchy, Bob Gill, o PT, Vermeer ou as realezas europeias (sobre cujas histórias ela era capaz de discorrer por horas).

Ninguém conhecia papeis, técnicas e processos gráficos tão bem. Tinha olho clínico e língua mordaz. Bastava  meio segundo para que identificasse a qualidade de um tecido, os códigos sociais de um ambiente ou o padrão de educação de seu interlocutor. Delicada e altiva, tinha preguiça de tecnologias, achava a cultura do consumo uma vulgaridade, e era capaz de dar uma aula sobre a diferença entre luxo e sofisticação. Trabalhos manuais? Executava com maestria, qualquer um: costura, bordado, arranjos florais, dobraduras, tricô, crochê, patchwork, fuxico, jardinagem (eu amava sua coleção de Marie Claire Idées!). Da fantasia que a prima precisava para ir uma festa ao cenário exigido pelo cliente em um evento, não havia o que ela não produzisse com as próprias mãos e extremo bom gosto. 

Também cuidava sozinha da decoração da casa, do cabelo, de suas unhas e seu corpo. Apenas o forno e o fogão preferia deixar com o marido, segundo ela bem mais talentoso nessa matéria. Ah, e com ele teve um casal de filhos, criados até a vida adulta praticamente sem ajuda de empregados domésticos ou familiares.

***

Já tínhamos alguns anos de amizade consolidada quando, certa vez, ela chegou a meu escritório para uma reunião, no início da tarde. Trazia no rosto uma expressão séria, fechada, sem o sorriso farto que, junto com os grandes olhos negros, faziam sua marca registrada. Logo perguntei:

– O que aconteceu?

– Val, você que é mais antenada e sabe das coisas: que diabos faz um personal shopper?

Comecei a rir, já imaginando o que viria pela frente. 

– Bem, até onde sei, é um profissional especializado em compras... que ajuda alguém a decidir o que comprar, seja uma compra pessoal, ou um presente, por exemplo.

– Fala sério...

– Estou falando.

– Não é verdade, não acredito. Quer dizer que eu vou comprar um presente de aniversário para você e chamo um personal shopper pra me ajudar a escolher?

– Ou para comprar direto, você nem precisa ir junto, dá um breifing, uma verba, sei lá...

– Mas isso é um absurdo, que coisa mais ridícula! E ninguém tem vergonha? Nem o personal, nem quem contratou?

– Ei, calma... De onde veio essa história?

– Acabei de sair de um almoço com uma cliente. A gente estava no restaurante e lá pelas tantas apareceu uma amiga dela, veio até nossa mesa cumprimentar, minha cliente nos apresentou, ficamos um tempo, as três, conversando... e na hora de se despedir, a fulana me deu este cartão.

Disse isso já estendendo para mim o pedaço de papel no qual se lia:

Fulana de Tal
personal shopper

– Ai, ai, ai... Sente aí, amore, quer um chá?

Nem me ouviu, e logo emendou:

– Juro que nem consegui mais me concentrar no resto do almoço, só tentando imaginar o que faria um personal shopper! Achei que o problema era meu inglês, que não é lá essas coisas... mas também não quis dar bandeira e perguntar pra cliente, achei melhor ficar quieta e perguntar pra você.

A essa altura, eu já intuía o que vinha pela frente. Puxei a cadeira, sentei e fiquei quietinha, só ouvindo sua indignação:

– É o fim do mundo, Val!!! As pessoas estão ficando loucas!!! Até onde vai isso??? Ninguém mais sabe nada, ninguém sabe fazer nada, não sabe escolher, pensar, decidir... as pessoas não têm referência, conhecimento, opinião. E também não querem se dispor, preferem ter um intermediário entre elas e a própria vida – alguém que limpe, que cozinhe, que cuide do filho, que pregue o botão, ponha a flor no vaso, arrume as gavetas, faça as compras, sei lá! É insano isso, precisar de alguém pra  transferir responsabilidades, avalizar as escolhas... Que sentido tem uma vida assim? Como você pode não ser o agente das coisas que te dizem respeito?

Bem, a partir daí, nossa reunião deu lugar a uma longa conversa sobre costumes, valores, cultura, necessidades e veleidades. Mais um dos deliciosos momentos de convivência que pude usufruir a seu lado, aprendendo com sua visão política, seu repertório filosófico, sua análise crítica e seus insights mordentes.

***

Perdi minha amiga em 2016, vítima de uma doença degenerativa precoce – perda que, de certa maneira, não superei até hoje, nem acredito que vá um dia superar plenamente. Penso nela com frequência, e tenho pensado ainda mais nesses tempos de pandemia, isolamento e caos político. Fico me perguntando: qual seria o olhar dela frente a tudo isso? Como ela reagiria ao exército de lúmpens que invadiu nossas ruas e instituições? Quais seriam seus comentários sobre os amigos que estão descobrindo a vassoura e o fogão dentro de suas próprias casas? Ou aprendendo a reparar um objeto quebrado, cortar cabelos e cultivar temperos? E o que ela diria sobre essa cultura instagrammer, lives, Zooms e afins? 

Não tenho respostas. Só tenho saudade, muita saudade. E a certeza de que, neste período tão sombrio, uma conversa com ela seria, mais do que nunca, um delicioso  jorro de luz.

***
Valéria Midena, arquiteta por formação, designer por opção e esteta por devoção, escreve quinzenalmente no São Paulo São. Ela é autora e editora do site SobreTodasAsCoisas.



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