Fim da praia 'normal'? - São Paulo São

O Governo Português fixou que é “obrigatório manter o distanciamento social de dois metros”. Foto: Ambitur.O Governo Português fixou que é “obrigatório manter o distanciamento social de dois metros”. Foto: Ambitur.

Os dias começam a ficar mais quentes em Portugal, literalmente. E para quem mora em cidade de praia, a temporada de caminhada na areia e banho de mar parece que já está aberta. Mas de qual praia estamos falando? Aquela praia “normal” do último verão ou da “nova” praia, dos “novos tempos”, da nossa “nova” vida? Pois é. Algumas coisas não mudaram, ok. A água segue fria como antes do vírus e o vento também não dá uma aliviada. Fora essas coisas “normais” das praias do Atlântico acima do Equador, já não iremos mais à praia como íamos antigamente. Eu e a família já nos empolgamos com um dia bem ensolarado no Furadouro, praia ao lado de casa, e, ainda que as regras oficiais para frequentar a praia sejam válidas só a partir do começo de junho, pisamos numa praia em que a máscara, por exemplo, ganhou tanta importância quanto os biquínis e sungas. Aliás, acho até que serão mais importantes: imagino que em praia de nudismo as pessoas possam ficar peladas, mas de máscaras... (haja fetiche). Mantivemos uma distância razoável dos vizinhos (a praia não estava cheia ainda e foi fácil), mas vimos muita gente agindo como antigamente, em grupos grandes, lado a lado e, como nos velhos tempos, deixando um rastro de latinhas de cerveja, garrafas e outras tranqueiras. Sim, estamos no chamado primeiro mundo, mas ainda nos deparamos com esse tipo de coisa (e para registro, saímos da praia com um saco plástico cheio de lixo dos outros...). Mas essa é outra história.
Na praia de Furadouro pisamos numa praia em que a máscara, por exemplo, ganhou tanta importância quanto os biquínis e sungas. Foto: Guia da Cidade, Ovar / Divulgação.  Na praia de Furadouro pisamos numa praia em que a máscara, por exemplo, ganhou tanta importância quanto os biquínis e sungas. Foto: Guia da Cidade, Ovar / Divulgação.

Fora o vento, o lixo de alguns e o mar meio geladinho, as praias realmente não são mais “normais”. Já nas próximas semanas, as novas regras vão nos obrigar a encarar uma série de mudanças na nossa rotina. E a vigilância promete ficar de olho, principalmente do dia 6 de junho em diante, data em que fica aberta oficialmente a “época balnear”. Até um aplicativo para celular (ou telemóvel, como dizemos aqui) deve ser usado para ajudar a organizar o entra e sai nas areias, indicando se a praia está lotada ou se ainda há espaço para mais gente. Em um primeiro momento, não deverão ser tomadas medidas mais drásticas para proibir a entrada em praias lotadas, mas o governo conta com o bom senso dos banhistas para evitar as aglomerações e aposta na sinalização para ajudar as pessoas. Os códigos de cores – vermelho, amarelo e verde – serão as indicações utilizadas. Quer dar um pulinho na praia? Cheque antes de dá pra entrar. Mas como tudo ainda é muito novo para todos nós, vamos ver como vai funcionar, principalmente porque o entra e sai nas praias é grande. Ou seja, se for rigoroso, em praia cheia só entra gente quando sair gente... A medida para definir a sinalização de cada praia é a possibilidade de se manter a distância de pelos menos dois metros entre as pessoas (não vale para as famílias ou amigos que estão juntos). Se já não houver espaço para que seja mantida essa distância, a praia ganha bandeira vermelha.

Mas não é só o vai e vem que ganha regras. Para entrar é preciso passar álcool gel nas mãos (será que é para garantir castelos de areia limpos e desinfectados?). Depois que entra, a praia passa a ser um mundo novo. Se vai armar guarda-sol ou coisa parecida, precisa estar a três metros de distância do vizinho, por exemplo. E a recomendação é de não ter mais de cinco pessoas por barraca ou guarda-sol. Futebolzinho na areia? não rola mais. O máximo é o frescobol. Para uma simples caminhada também será preciso se organizar. Deverão ser criados corredores de circulação, obrigando as pessoas a manterem a devida distância umas das outras. Os caminhos pré-definidos serão especialmente importantes para os vendedores ambulantes, que também devem usar máscaras e viseiras. Como aqui só se vende bolinhas de Berlim nas areias (algo como o nosso “sonho”, com muito recheio), o drama não é tão grande. Fico imaginando o engarrafamento que teríamos se fosse como nas praias brasileiras: mate, biscoito, camarão, sorvete, pulseirinhas, canga, sanduíche natural, empada, pastel, repentistas...

Algumas praias vão ganhar um semáforo virtual para definir a taxa de ocupação em tempo real. Foto: Smart City Sensor / Divulgação. Algumas praias vão ganhar um semáforo virtual para definir a taxa de ocupação em tempo real. Foto: Smart City Sensor / Divulgação.

Para quem vai de carro, o controle será mais rigoroso com o estacionamento. Só vale em áreas delimitadas formalmente. Aquela tradicional paradinha numa vaguinha que parece ótima subindo na calçada vai dar multa ou apreensão do carro. As autocaravanas, trailers e reboques vão ter ainda mais restrições no quesito estacionamento.

Bares e restaurantes de praia devem seguir as orientações gerais para este tipo de serviço e estabelecimento, mas espera-se que sejam feitas ao menos quatro limpezas diárias. Em alguns casos, será preciso fazer ajustes na configuração dos espaços, garantindo que as pessoas mantenham a distância. Nós já estivemos sentados de frente para o mar neste novo “normal” e sentimos na pele o que é tomar um chopp nos dias de hoje. Só entramos, e de máscara no rosto, se houver mesa livre e guiados pelo garçom. Mãos higienizadas na entrada e a possibilidade de ficar sem máscara na mesa (ufa! Como daria pra tomar um chopp de máscara?). Deu vontade de dar aquela passadinha no banheiro pós-chopp? Coloca a máscara de novo! Cardápio? Aponta o celular para o QR Code que está na mesa e acessa o cardápio digital. Nada de cardápio físico, possível foco de vírus. Sabe aquele “rabo de peixe” no balcão do Frevo ou a cerveja gelada com pastel de camarão na mureta em frente ao Bar Urca? Se fosse aqui em Portugal, ia ter que esperar algum tempo pra matar as saudades.
Fora o vento, o lixo de alguns e o mar meio geladinho, as praias realmente não são mais “normais”. Foto: Reuters.Fora o vento, o lixo de alguns e o mar meio geladinho, as praias realmente não são mais “normais”. Foto: Reuters.

Essa é a nossa praia “normal” por aqui. Vai dar tudo certo, sem conflitos ou sem necessitar de ajustes? Provavelmente não. Mas é o que precisa ser feito para esse mundo novo. Já há críticas, claro, e pontos não muito explicados, como os cuidados e procedimentos para quem está no mar, por exemplo. Vale a mesma regra de distanciamento? E para pegar jacaré, tem regras? Rodízio de ondas? Crianças brincando na areia é perigoso? E a turma que insiste em levar cachorro pra praia?  Enfim, quem viver, verá! O governo português já alertou que não dá pra ter fiscais e policiais em todas as praias, contando com o bom senso e o respeito das pessoas. Mas deixou clara uma mensagem: se as regras de convivência deste novo “normal” não forem cumpridas, fecha-se a praia...

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Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.



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