A volta do drive-in em São Paulo. Pela lembrança do gostinho do cinema, vale até carro na sala - São Paulo São

 

O projeto “Belas Artes Drive-In no Memorial” chega ao Memorial da América Latina, em São Paulo, a partir de 16 de junho. Foto: Wikicommons. Foto: Divulgação.O projeto “Belas Artes Drive-In no Memorial” chega ao Memorial da América Latina, em São Paulo, a partir de 16 de junho. Foto: Wikicommons. Foto: Divulgação.

O Memorial da América Latina nunca chegou perto da lista dos espaços públicos mais amados de São Paulo.

Apesar de ocupar uma área enorme, de fácil acesso, ao lado de uma estação movimentadíssima de metrô e trem, de ter sido criada pelo maior arquiteto brasileiro, Oscar Niemeyer, e abrigar biblioteca, auditórios, exposições e um monte de eventos, o Memorial tem uma fraqueza que parece incontornável para um espaço público: a área externa.

Fora dos prédios, o Memorial é árido, sem bancos, com poucos pedaços arborizados, murado. Pois a Praça Cívica, onde está a linda escultura da mão sangrando, também de Neyemer, agora vai emprestar seu concreto para as pessoas que vão ao cinema. De carro.

A ideia de fazer um cinema drive-in no Memorial, que poderia soar exótica em outros tempos, faz todo sentido durante a pandemia e até combina com aquele concreto todo e a falta de urbanidade durante o dia.

André Sturm, sócio do cinema Petra Belas-Artes concebeu o evento e a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo topou. As sessões acontecem entre o meio de junho e o fim de julho. A programação é fantástica – desde 2001, Uma Odisseia no Espaço, até Apocalipse Now.

A lenta volta ao cinema ou o começo do fim?

Um dos principais drive-ins da cidade foi o Auto Cine Chaparral, inaugurado em 1971 na Marginal Tietê, próximo à Ponte do Tatuapé. Foto: Oswaldo Luiz Palermo / Estadão Conteúdo. Um dos principais drive-ins da cidade foi o Auto Cine Chaparral, inaugurado em 1971 na Marginal Tietê, próximo à Ponte do Tatuapé. Foto: Oswaldo Luiz Palermo / Estadão Conteúdo. Drive-in não é novidade. Já tivemos vários e inclusive um gigantesco, o famoso Chaparral, que durou até a década de 80. Mas hoje, diante de tudo o que estamos vivendo, ganha novo simbolismo.

Será que assistir a filmes dentro de carros, só em contato com as pessoas da nossa bolha é um indício do maior isolamento que nos aguarda? Será que o futuro é a volta dos drive-ins em todos os estacionamentos vazios, no Anhembi, nos Shoppings, no Autódromo de Interlagos e o fechamento dos poucos cinemas de rua que restam?

O cinema, afinal, é uma atividade que vive uma ameaça estrutural, e que a pandemia catalisou.  São Paulo tem 349 salas de cinema. Pouquíssimos delas estão na rua: Belas Artes, Espaço Itau, Reserva Cultural, Marabá, CineSesc.

Todas sofrem com a concorrência inevitável da tecnologia: quem está em casa pode cada vez mais acessar todos os filmes do mundo num clique, sem precisar sair de casa. Mas para este que vos fala e para um monte de outras pessoas, o ato de sair de casa e ir ao cinema é parte significativa da vida na cidade.

Assistir a um filme num cinema de rua é melhor ainda, pois além da chance de sair de casa e abrir uma janela mental para algo que nem sabíamos que existia, ainda oferece a experiência de encontrar outras pessoas, tomar alguma coisa e andar pelas ruas. E seguir vivendo a vida com outro olhar.

Clássico do cinema mudo, “O Homem Mosca” com Harold Lloyd, exibido na platéia externa do Auditório Ibirapuera – Oscar Niemeyer no encerramento da 41ª Mostra de Cinema de São Paulo em 2017. Foto: Divulgação.Clássico do cinema mudo, “O Homem Mosca” com Harold Lloyd, exibido na platéia externa do Auditório Ibirapuera – Oscar Niemeyer no encerramento da 41ª Mostra de Cinema de São Paulo em 2017. Foto: Divulgação.

Há algo de muito forte na simultaneidade – fazer alguma coisa ao mesmo tempo que outras pessoas. No Parque do Ibirapuera, em 2017, fui numa sessão de cinema, com música ao vivo exibida na Mostra de Cinema. O filme mudo de Harold Loyd virou uma experiência coletiva: milhares de pessoas, vendo a mesma tela, deitados ou sentado na grama, numa noite bonita. Ir a uma sala de cinema traz um pouco disso, numa escala menor, mas cheia de significado. Não é só ver um filme. É ver ao mesmo tempo que os outros.

Quem sabe o drive in seja uma boa etapa intermediária para lembrarmos de como é bom ir ao cinema. Numa entrevista, Sturm diz achar que o drive-in vai conviver com a volta dos cinemas tradicionais, “até porque quando eles reabrirem haverá uma limitação de assentos ocupados”

Mesmo de dentro do carro, as pessoas vão poder sentir um pouquinho dessa sensação de simultaneidade. Elas terão saído de suas casas e estarão enfileirados, não num gramado, mas no concreto do Memorial, com as janelas fechadas, rádio sintonizado no som do filme e talvez um cachorro quente equilibrado entre o volante e a alavanca do pisca pisca. Se não tiver insufilme, dá até para ver e trocar sinais com as pessoas do carro ao lado.

Quem sabe o drive in seja uma boa etapa intermediária para lembrarmos de como é bom ir ao cinema. Foto: Divulgação.Quem sabe o drive in seja uma boa etapa intermediária para lembrarmos de como é bom ir ao cinema. Foto: Divulgação.

Espero sinceramente que os cinemas resistam até o dia em que poderemos entrar num espaço fechado de novo. Nesse dia, vamos nos encontrar no Belas Artes, tomar um café enquanto esperamos, e depois sair pela Paulista, falando do filme e lembrando do tempo em que as ruas estavam vazias, as cabeças cheias e havia uma sombra escurecendo nossas vidas.

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Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional. Artigo publicado originalmente no seu blog Caminhadas Urbanas.



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