Os trilhos que viraram trilhas - São Paulo São

 Se quiser conhecer Portugal pelos caminhos de ferro, é só subir na magrela e se aventurar pelo país. Foto: Aveiro Tours. Se quiser conhecer Portugal pelos caminhos de ferro, é só subir na magrela e se aventurar pelo país. Foto: Aveiro Tours.

Uma das melhores maneiras de conhecer uma cidade é, sem dúvida, caminhando. Ou, claro, sobre uma bicicleta. Já rodei muito aqui por Portugal, principalmente de Aveiro em direção ao norte. E quando vejo que o desafio é grande demais, ponho a bike no comboio e divido o percurso entre a magrela e o trem. E por falar em trem e em pedaladas para desbravar o país, nada mais lindo do que encarar as Ecopistas, longos trechos criados por onde antes circulavam os vagões. O que era trilho, virou trilha para bicicleta. E aqui em Portugal há muitos trajetos de Ecopistas.

A mais recente delas, ainda no papel e sujeita a aprovação da Câmara Municipal do Porto, vai ser, se tudo aprovado, uma beleza. Ligará a estação de Campanhã à Alfândega do Porto, ao longo da encosta que margeia o rio Douro. Pode estar nascendo mais um cartão postal da cidade. Este trecho de linha ferroviária de cerca de 4 km foi importante no final do século XIX e início do século XX, mas está desativado há algumas décadas. Se o projeto for aprovado, ganhamos uma nova pista para as pedaladas e um novo parque urbano, resultado da requalificação ambiental e paisagística.

Foto: Marcos Freire. Foto: Marcos Freire.

Foto: Marcos Freire.Foto: Marcos Freire.

Foto: Marcos Freire.Foto: Marcos Freire.

Mas não é preciso esperar para pedalar pelas rotas que eram dos vagões. Se quiser conhecer Portugal pelos caminhos de ferro, é só subir na magrela e se aventurar pelo país. Ainda não conheço todos, mas já me encantei pela Ecopista do Vouga, ainda que, infelizmente, tenha ido apenas caminhar (sim, bicicletas e pedestres convivem pacificamente pelas ecopistas). Esta ecopista tem cerca de 11 km e acompanha o Rio Vouga, passando por pequenos túneis e pela linda ponte do Poço de Santiago, uma das atrações do caminho. E vale uma paradinha na antiga estação de Paradela, também desativada, e que hoje é um gostoso café. 

Mas a maior de todas e, dizem, a mais bonita é a Ecopista do Dão, com seus quase 50 km. Ocupa o lugar dos trilhos de uma linha originalmente inaugurada no final do século XIX e totalmente encerrada em 1988. Ela atravessa os concelhos de Viseu, Tondela e Santa Comba Dão. O projeto ficou entre os três melhores na categoria Excelência, em premiação da Associação Europeia de Vias Verdes (2013). Parte da Ecopista do Dão margeia o rio Dão e o seu afluente, o rio Paiva, acompanhando a sinuosidade das águas. E pelo caminho, entre os sobreiros (as árvores da cortiça) e carvalhos, é possível avistar as serras do Caramulo e da Estrela. Já está na minha lista de desejos, com certeza.

Trecho da Ecopista Do Dão. Foto: Maria João Gala. Trecho da Ecopista Do Dão. Foto: Maria João Gala.

Mais ao norte, a Ecopista de Guimarães ocupa um trecho desativado dos trilhos que uniam a cidade à vizinha Fafe. São cerca de 15 km já prontos, mas há outros 6 km no total do projeto. No caminho, a antiga estação de Cepães – agora um bar e café - também é uma boa parada para recuperar o fôlego.

Ainda mais para cima, já praticamente na fronteira com a Espanha, a Ecopista do Minho, com seus 15 km, faz a ligação das cidades de Valença e Monção, acompanhando o Rio Minho. Ao longo do percurso, as deslumbrantes paisagens minhotas (no final, qual será a mais bonita ecopista?), aldeias, capelas, miradouros, florestas e grandes vinhedos de Alvarinho. Inaugurada em 2004, a Ecopista do Minho foi eleita a terceira melhor Via Verde da Europa.

Do campo para a praia, a Ecopista de Famalicão une o interior ao litoral, mais especificamente Póvoa de Varzim, também no norte de Portugal. Como as outras, a pista segue o caminho dos antigos trilhos que ligavam as duas cidades, inaugurados no final dos anos 1800 e desativados em 1995. São cerca de 28 km entre áreas rurais e florestas, em percurso relativamente plano. Mas para quem realmente não quer fazer muita força, o sentido interior-litoral é mais tranquilo.

A Ecopista do Rio Minho é 3a. maior via verde da Europa. Foto: Blogue do Minho.A Ecopista do Rio Minho é 3a. maior via verde da Europa. Foto: Blogue do Minho.

Indo um pouco mais à direita no mapa de Portugal, outra ecovia que aparece é a do Tâmega, que liga a linda cidade de Amarante, banhada justamente pelo rio Tâmega, a Cabeceiras de Basto, passando ainda pelo município de Celorico de Basto, num total de aproximadamente 40 km. O ramal desativado em 1990 é deslumbrante. Muitas pontes, túneis, aldeias, antigas estações reformadas, equipamento da antiga infraestrutura ferroviária recuperado e, claro, o visual maravilhoso de toda a região do Tâmega. 

Do Tâmega para o Douro, outra ecopista gostosa até no nome: Ecopista do Sabor, em pleno Alto Douro Vinhateiro, num percurso ainda não totalmente finalizado, mas que permite um pedal de mais de 30 km. A antiga Linha do Sabor, inaugurada nos anos 1930 e desativada no final da década de 1980, tem mais de 100 km, de Pocinho até Miranda do Douro e já está “pedalável” em um trecho inicial até Torre de Moncorvo.

Estação de Mondim de Basto em trecho da Ecopista do Tâmega. Foto: Porto e Norte.Estação de Mondim de Basto em trecho da Ecopista do Tâmega. Foto: Porto e Norte.

Uma opção mais curta é a Ecopista do Montado, na cidade de Montemor-o-Novo, distrito de Évora, na região do Alentejo. São pouco mais de 12 km a partir da antiga estação de Montemor-o-Novo até a estação de Torre de Gadanha, no mesmo município. Pelo caminho, a ponte sobre o rio Almansor, mirantes e as antigas construções também tornam o passeio muito bonito. O trecho original da via férrea esteve em operação de 1909 a 1988 e foi transformado em ecopista em 2009.

Ainda na mesma região, a Ecopista de Mora parte de Évora para Mora, também ocupando o antigo ramal ferroviário que unia as duas cidades, em um total que chegará a aproximadamente 60km (ainda há pequenas interrupções ao longo do trajeto), o que fará dela a maior do país. Sair de Évora já uma atração. A cidade é realmente encantadora e o que não falta são lugares para conhecer e delícias conventuais para experimentar antes de encarar a pedalada. O percurso ainda passa pelo Solar da Sempre Noiva, considerado um dos Monumentos Nacionais desde 1910, próximo de Arraiolos, a cidade conhecida pelos tapetes. A linha férrea foi inaugurada em 1908 e estava desativada desde 1990.

Trecho de Ecopista passa pela antiga estação de Arraiolos. Foto: Viagens à solta.Trecho de Ecopista passa pela antiga estação de Arraiolos. Foto: Viagens à solta.

Por fim, já no distrito de Setúbal, mais perto de Lisboa, a curta Ecopista de Montijo, no trecho da ferrovia desativado em 1989, vai da estação de Pinhal Novo, na cidade de Palmela, até o município vizinho de Montijo, percorrendo cerca de 6km, de um total que deverá chegar a 10 km. Originalmente, a linha era utilizada para transporte de carga, principalmente porcos, até a estação de Montijo.  

Ainda que todas essas ecopistas não sejam integradas, é uma deliciosa maneira de conhecer o país. E quando as bikes não puderam percorrer as ferrovias desativadas, façam como eu: embarque com a magrela nas linhas em operação e rode o país. Para quem gosta de pedalar, a dobradinha bike e comboio é a melhor maneira de desbravar esse país lindo.

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Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.



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