A vertigem das listas - São Paulo São

Alighiero Boetti, "Untitled", 1987 :: Neue Gallery, Kassel :: Foto: Christie's.Alighiero Boetti, "Untitled", 1987 :: Neue Gallery, Kassel :: Foto: Christie's.

O título deste texto foi roubado de um dos livros mais apaixonantes de Umberto Eco. 'A vertigem das listas', publicado no Brasil em 2010, dá continuidade a um projeto editorial que teve início com 'História da Beleza' e 'História da Feiúra' (ambos também disponíveis em português) e, assim como seus antecessores, consiste de um ensaio crítico acompanhado de uma antologia literária e de uma belíssima seleção de trabalhos artísticos, que ilustram e ancoram os textos apresentados.

Umberto Eco conta que o livro surgiu de um pedido que recebeu do Museu do Louvre para organizar "uma série de palestras, exposições, leituras públicas, concertos e projeções" sobre algum tema de sua livre escolha. E ele propôs as listas (ou elencos, ou catálogos de enumeração), uma preferência que nasceu de seus estudos sobre textos medievais e joyceanos, e que aparece em quase todos os seus romances. 

No ensaio, Eco reflete sobre como a ideia dos catálogos mudou no decorrer do tempo e como, de um período a outro, expressou o espírito de cada era. Das listas práticas, como o conjunto de ornamentos a serem reproduzidos por um ebanista, às poéticas, como a Biblioteca de Babel de Borges, ao longo da História catalogamos coisas segundo modelos de organização e fechamento harmônico e completo, tanto quanto segundo outros, capazes de nos abrir sucessivas portas e conduzir ao infinito.

Quais são as letras de um alfabeto? E as palavras que com elas construímos? Quantas são minhas memórias? E as estrelas do céu?

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Capa do livro de Nick Hornby e pôster do filme de Stephen Frears.Capa do livro de Nick Hornby e pôster do filme de Stephen Frears.

'Alta fidelidade' é um livro de Nick Hornby sobre o qual muito já se falou. Publicado em 1995 e levado às telas do cinema cinco anos depois pelas mãos de Stephen Frears, tem como narrador Rob Fleming – um londrino de trinta e cinco anos, proprietário de uma loja de discos à beira da falência, viciado em cultura pop e que não consegue pensar a vida senão em termos de listas dos 'cinco melhores de todos os tempos': livros, filmes, bandas, cantores, álbuns, solos de guitarra, notícias, amantes, separações etc.. Et cetera.

À época desses lançamentos, montar listas – mentais ou em rodas de amigos – virou febre. Todos queríamos discutir os 'cinco melhores' de nossas vidas, em todos os assuntos. No entanto, a brincadeira que divertia também gerava angústia, pois para cada lista de coisas escolhidas, outra ainda maior se montava: a das coisas rejeitadas.

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Qualquer processo individual de seleção e escolha, se feito com consciência, é um exercício de autoconhecimento. Por meio da reflexão – por que este e não aquele? – podemos ampliar o entendimento acerca de nossa própria visão de mundo, de nossos valores, emoções e prazeres, o que talvez ajude a nos tornarmos um pouco mais seguros diante de novas escolhas.

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Pôster do filme "Amor à Flor da Pele" de Wong Kar-Wai. Pôster do filme "Amor à Flor da Pele" de Wong Kar-Wai.

Pensei em tudo isso há poucos dias, quando fui convocada por uma amiga a um desses desafios frequentemente compartilhados no Facebook: fazer uma lista dos dez filmes que mais me influenciaram e ajudaram a construir meu gosto por cinema. Embora minha atuação nas redes sociais seja quase toda vinculada a trabalho (curadoria e criação de conteúdo, seja para meu projeto SobreTodasAsCoisas, seja para clientes), entrei no jogo – apaixonada que sou por todas as formas de expressão artística, e estudiosa do valor estético das obras humanas, achei que a brincadeira permitiria, a um só tempo, refletir sobre mim mesma, relembrando minha história cinéfila, e compartilhar conteúdos sinérgicos com minha atividade.

Depois de revirar a memória e me dividir entre preferências e abandonos, cheguei à minha lista de filmes (agradecendo por ter sido chamada a escolher dez, e não cinco como propõe Rob Fleming):

  • Amor à Flor da Pele, Wong Kar-Wai, 2000.
  • O Céu que nos Protege, Bernardo Bertolucci, 1990.
  • Ligações Perigosas, Stephen Frears, 1988.
  • Era Uma Vez na América, Sergio Leone, 1984.
  • Blade Runner, Ridley Scott, 1982.
  • O Poderoso Chefão - Parte II, Francis Ford Coppola, 1974.
  • Morte em Veneza, Luchino Visconti, 1971.
  • Um Corpo que Cai, Alfred Hitchcock, 1958.
  • O Sétimo Selo, Ingmar Bergman, 1957.
  • Rashomon, Akira Kurosawa, 1950.

Cena do filme "Era uma vez na América."Cena do filme "Era uma vez na América."

Claro que a brincadeira (mais uma vez) me contagiou, e segui ensaiando em meu imaginário outras tantas listas: de músicas, de autores, poemas, pinturas... No entanto, como esta aqui acima, nenhuma delas é definitiva – são apenas recortes, e expressam as reflexões, as escolhas e o espírito de quem sou neste momento. 

Talvez eu não faça as mesmas escolhas amanhã, pois espero não ser amanhã a pessoa que sou hoje – não me congelar em meu conhecimento e minhas crenças, manter-me em movimento, vendo e revendo filmes, ouvindo e reouvindo canções, lendo e relendo livros, descobrindo e redescobrindo artistas. Sobretudo, espero continuar a aprender, reaprender, e poder sempre olhar para dentro de mim como quem olha para uma lista poética de histórias, gostos, valores, imagens e memórias. Uma lista que termina em et cetera.

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Valéria Midena, arquiteta por formação, designer por opção e esteta por devoção, escreve quinzenalmente no São Paulo São. Ela é autora e editora do site SobreTodasAsCoisas.



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