Mas então é o fim do mundo! - São Paulo São

 

Foto: CBC / CA.Foto: CBC / CA.Eu certamente não estarei por aqui para confirmar. Também não estarão a maioria de vocês que me leem agora. Então não digam, em 2100, que lá naquele distante ano de 2020, quando a fake news era encontrada até em receita de bolo, eu espalhei mentiras porque queria criar pânico com aquele tal de coronavírus. Mas vamos lá: daqui a 80 anos, tudo indica que alguns países vão ser metade que são hoje, em termos de população. O estudo publicado na revista The Lancet e reproduzido em partes pelo jornal Público, mostra o começo do fim lá pelo ano de 2064, quando atingiríamos o pico da população mundial, com 9,7 bilhões habitantes. De lá até 2100, um bilhão de pessoas, em todo o planeta, deixariam de estar entre nós. Quem sou eu para questionar os pesquisadores, mas não sei nem se chegamos até lá...

Bom, entre os países com menos gente, minhas duas terras (Brasil e Portugal) vai haver quedas importantes. Aliás, nunca o apelido carinhoso de “terrinha” fez tanto sentido. De cerca de 10 milhões de portugueses de hoje, a população pode cair para 5 milhões. No Brasil, do jeito que confina e desconfina, abre bar, fecha bar, toma vermífugo, reza, não reza, toca acordeon, admite ministro, demite ministro, a queda até que não parece tão assustadora: de 212 milhões de pessoas iriamos para 165 milhões, uma redução de 22% aproximadamente. Mas ainda cresceríamos até 2043, quando teríamos o pico de população, com pouco mais de 235 milhões de brasileiros. Haja aglomeração. 

Um outro dado apontado pelo estudo é o tamanho das principais economias mundiais em 2100. China e Estados Unidos seguirão trocando de posições entre eles ao longo das décadas, sem chance para os demais. Já o Brasil... bom, a previsão é que seremos a décima terceira economia global, menor, relativamente, do que somos hoje. Na frente do Brasil, além dos Estados Unidos e da China, Índia, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Austrália, Nigéria, Canadá, Turquia e Indonésia.

 China e Estados Unidos seguirão trocando de posições entre eles ao longo das décadas, sem chance para os demais. Foto: Business Insider. China e Estados Unidos seguirão trocando de posições entre eles ao longo das décadas, sem chance para os demais. Foto: Business Insider.

Os pesquisadores são muito elegantes e dizem que a principal causa para essa redução global é a queda na taxa de fertilidade. Se me perguntassem, já seria mais direto. Taxa de fertilidade? Que casal segue com uma vida sexual minimamente ativa em tempos de pandemia? E os solteiros, que poderiam dar uma força para a população mundial, que nem podem se encontrar para dar uma conferida na fertilidade... Em tempos de encontros virtuais e trocas de nudes, não há óvulos e espermatozoides “facinhos” que consigam dar uma incrementada nos números. Aí dá nisso. O número médio de filhos por mulher, de pouco mais de 2 (2017), desce para 1,6 (2100), globalmente. No Brasil, passaríamos de uma taxa de 1,76 para 1,37 no mesmo período. Entre as portuguesas, a taxa, ainda de acordo com o estudo, iria de 1,29 para 1,21. E isso, claro, se a gente (ops, a gente não, os solteiros, quis dizer) puder voltar a trocar fluidos além do álcool gel. Lembrando, felizmente, que esse encontro de “sementinhas” nem sempre é para gerar “mudinha”. Aliás, brincadeiras à parte, a tal redução se deve também à educação feminina, empoderamento, autonomia e ao maior acesso aos métodos contraceptivos. 

Além de Portugal e Brasil, mais um grande número de países deve ter a população reduzida pela metade. Itália perderia 30 milhões dos seus atuais 61 milhões de habitantes. Espanha iria de 46 milhões para 23 milhões. Para quem não quer pegar fila no Coliseu ou no Museu do Prado, vale esperar. Um pouco mais longe de nós, Tailândia também veria sua população minguar de 71 milhões para 35 milhões. Japão, de acordo com o estudo, passaria de 128 milhões para 60 milhões.

Imagem: Lancet / reprodução.Imagem: Lancet / reprodução.

No sentido oposto, alguns países verão suas populações darem um enorme salto, ainda que não seja suficiente para entupir ainda mais o mundo de gente. A República Democrática do Congo poderá triplicar a população nos próximos 80 anos, passando de 81 milhões para 246 milhões; Tanzânia quase quadruplicaria, com números que iriam de 54 para 186 milhões; Etiópia e Egito praticamente duplicariam, atingindo 223 milhões e 199 milhões, respectivamente.

E se menos gente nasce, uma consequência óbvia é que a população vai ficando cada vez mais velha. O estudo aponta, por exemplo, que o número de crianças com menos de 5 anos poderá passar dos atuais 680 milhões para cerca de 401 milhões em 2100. Na outra ponta, as pessoas com mais de 80 anos (sim, a expectativa de vida na maior parte dos países também está crescendo) chegariam a uma parcela de 866 milhões de pessoas, contra os atuais 141 milhões. Fica a dica, se você está nascendo agora, já sabe que poderá ter quase 1 bilhão de colegas, em 2100, que podem ter estudado com você, que brincado no mesmo parquinho, que ido às mesmas festinhas... 

Nem precisa dizer o impacto que tudo isso tem na economia, na saúde, na forma como a sociedade terá que se estruturar para tentar seguir adiante por outras décadas. A imigração, por exemplo, pode ser a salvação para alguns países. Ninguém lacrou, que eu saiba, a data da extinção da raça humana, mas me parece que estamos dando um jeito de acelerar esse processo. 

Um em cada cinco portugueses tinha mais de 65 anos em 2016, o que torna Portugal num dos países mais envelhecidos da União Europeia (UE). Foto: Cepese.Um em cada cinco portugueses tinha mais de 65 anos em 2016, o que torna Portugal num dos países mais envelhecidos da União Europeia (UE). Foto: Cepese.

Aqui em Portugal, o envelhecimento populacional já é uma realidade e já escrevi há um tempo sobre isso. Um estudo mais recente mostra que Portugal já reduziu sua população em cerca de 300 mil pessoas na última década e aumentou o número de idosos em 18%. Hoje, há 161 idosos para cada 100 jovens de até 15 anos de idade. Se considerarmos a população economicamente ativa, há 34 idosos para cada grupo de 100 pessoas, proporção que era de 27 para 100 há dez anos. A situação só não é mais drástica porque o saldo migratório é positivo: em 2019, saíram 28 mil pessoas do país e entraram 72 mil. Aliás, desde 1976 que não há tanto estrangeiro morando em Portugal. Pelos dados do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras), há quase 600 mil “forasteiros” com título de residência em Portugal. E nós, brazucas, que éramos pouco mais de 100 mil em 2018, já passamos dos 150 mil em 2019. E contando.

Mas em época de pandemia e de tantas dúvidas e incertezas pairando sobre todos nós, todo esse cenário pode mudar radicalmente. Mal consigo planejar meu final de semana, minhas férias, e sinto que vivemos em compasso de espera, por mais que a vida siga mais ou menos como era meses atrás. Estimativas de tão longo prazo parecem-me exercício de futurismo, por mais que eu valorize o trabalho sério dos pesquisadores. O que posso garantir é que aqui em casa a taxa de fertilidade do casal, por nossa vontade, é zero e que eu não estarei aqui em 2100. Portanto, acho que não faço parte das estatísticas.

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Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.



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