Pequeno glossário para um mundo pós-pandêmico - São Paulo São

Jenny Holzer, "Truism: In a Dream You Saw a Way to Survive and You Were Full of Joy", 1994 ::Jenny Holzer, "Truism: In a Dream You Saw a Way to Survive and You Were Full of Joy", 1994 ::

Acho que o Homo Sapiens de sapiens não tem nada – mais correto seria chamá-lo Homo Asinus. E o Sapiens Sapiens, então, deveria ser o Asinus Asinus. Sim, porque precisa ser duplamente asno para, ao longo de doze mil anos – doze mil! – não ter aprendido quase nada sobre a vida. Há um provérbio chinês que diz  "O burro nunca aprende, o inteligente aprende com sua própria experiência e o sábio aprende com a experiência dos outros." O que significa que somos Asinus Asinus mesmo, já que não conseguimos aprender nem com nossa experiência, nem com a dos outros.

Por isso chegamos ao difícil momento que estamos vivendo – por asnice, burrice, estupidez. Matamos, morremos, destruímos, arrasamos, deformamos, explodimos, exaurimos, secamos, consumimos, esgotamos. Fizemos isso com tudo, com todos e com nós mesmos. Milhões de Asinus Asinus transmutados numa espécie híbrida, mistura perversa de ouroboro sem divindade, Narciso sem beleza e Chronos sem Zeus. Estamos agora  à beira do abismo – um passo em falso e pronto, acabou-se. Ou melhor, acabamo-nos, porque o planeta, claro, vai sobreviver, e nele todos seus reinos: Monera, Protista, Fungi, Plantae, Animalia. Todos os reinos e todos os seres – menos nós, os Asinus Asinus. 

***

Tenho passado meus dias tentando sabotar o raciocínio acima, que insiste em ocupar meus pensamentos. Faço um grande esforço para acreditar que saberemos dar o passo certo e então, tendo sobrevivido à nossa quase autodestruição, poderemos construir uma nova sociedade. Penso tanto nisso que decidi escrever um pequeno glossário daquilo que julgo fundamental para viabilizar a existência humana em um mundo pós-pandêmico. Não que a atenção a esses meus pensamentos seja garantia de sucesso, mas talvez eles possam ajudar na formação de um homem um pouco mais Sapiens, e de uma sociedade um pouco menos perversa. 

Organizei conceitos, conselhos e ideias – alguns sublimes, outros mundanos – em vinte e três itens, listados em ordem alfabética. E espero que sejam lidos não como guia ou manual, mas como o conjunto das reflexões de alguém que, talvez por ser Asinus Asinus, ainda não deixou de acreditar na raça humana.

Arte

Deguste, aprenda, veja, ouça, sinta, produza, leia, discuta, respire arte em todas as suas formas. Só por meio dela é possível elaborar a realidade e ampliar o sentido de nossa existência.

Beleza

Deve estar em todos os lugares, o tempo todo – na fala, no gesto, na mesa, na casa, na roupa, na paisagem. É uma das fontes do Prazer (vide letra P, mais abaixo). 

Coragem

Remédio de uso contínuo. Para tomar todos os dias, sem gelo e num trago só. 

Damasco

Fresco, cozido, seco, em conserva, de dia, à noite, no verão, no inverno, na salada, em geleia, no drinque. Quem não sabe apreciar um damasco está alguns passos atrás na escala evolutiva.

Educação

Condição existencial. Deve ser igualmente fornecida a cada indivíduo desde o primeiro até o último dia de sua vida. 

Filhos

Podem ter dois pés, quatro patas, muitas raízes. Ou ser mais velhos que você, não importa. Crie, adote, cultive seres. Dedique-se a eles. É por meio dessa relação que se constrói o entendimento da vida.

Grana

Importante e necessária em todos – todos – os bolsos. E que não seja nem demais, nem de menos, já que em ambos os casos pensa-se muito nela.

Honestidade

Conceito relacionado a outro de mesma inicial, honradez. Não é virtude, é compromisso – com você, com o outro, com tudo e com todos. Seja honesto em cada ato, cada fala, cada escolha. E lembre-se: honestidade não varia em frequência nem intensidade – ou você tem, ou não tem.

Inquietude

Sensação de ter shpilkes in tokhes*, alfinetes na bunda. Deve ser constantemente alimentada, pois nos tira do conformismo, da indiferença e da desambição.

Juventude

Está para a vida como a flor para o hanami. Vivencie, reverencie, contemple, aprenda e alegre-se com ela, desfrute cada instante. Só não esqueça de sua efemeridade – a florada é linda, mas o que fica são seus frutos.

Leveza

O melhor tempero para o cotidiano. Atenua diferenças, torna as relações pessoais mais suaves e a vida mais agradável para todos. Especialmente recomendada em situações tensas ou complexas.

Muay-Thai

Nada melhor para ampliar a capacidade aeróbica, aumentar a rigidez muscular, espantar o estresse, ativar a memória, trabalhar o autocontrole e, de quebra, divertir-se de montão. Em casos extremos, pode ser usada como autodefesa. (Mas se por algum estranho motivo você não gostar, sem problemas – descubra outra atividade que lhe traga os mesmos benefícios, e pratique com frequência.)

Nutella

Se um dia deixar de existir, invente: basta misturar creme de avelã, cacau e leite. Uma colherada na boca é suficiente para chegar à porta do Paraíso.

Organização

Aliada ao Tempo (letra T, logo abaixo), é o segredo para fazer bem o que se quer e o que precisa ser feito. 

Prazer

Tem três fontes, diferentes e complementares: o corpo, os hábitos e conceitos socioculturais, e a própria existência. De vez em quando, uma dessas fontes seca, depois renasce. Só não permita que mais de uma seque ao mesmo tempo.

Queijo

A mais sintética e saborosa forma de nutrição: alia cálcio, fósforo, gordura e proteína, tem longa durabilidade e é fácil de transportar. São dezenas de tipos e centenas de processos – impossível não gostar de algum. 

Respeito

Nasce da compreensão de que nada existe em si e por si – a vida é um fenômeno de interdependência.     Respeitar os seres, a natureza, coisas, fenômenos, sentimentos, relações, diferenças, tudo enfim, é respeitar a si mesmo. Tem a ver com dignidade.

Sexo

Pratique durante toda vida adulta – por esporte, desejo, amor ou diversão (melhor ainda se for por tudo isso junto). Mas sempre de forma consensual, e com outro(s) adulto(s) que tenha(m) a mesma capacidade de discernimento e mesmo nível de consciência que você.

Tempo

Assim como a grana, é valioso e não pode sobrar nem faltar. O segredo está na sincronização: não queira correr mais que ele, nem deixe que ele corra mais que você. 

Utopia

É como o horizonte – você jamais a alcançará, não importa o quanto caminhe. E justamente por isso é tão necessária: ela nos faz caminhar.**

Vinho

Tão importante que já os gregos tinham um deus para representá-lo. O vinho é saboroso, alimenta, aguça os sentidos e, consumido com moderação, diminui o risco de várias doenças. Ótimo para tomar com conselhos, péssimo para decisões – para essas, prefira água. 

Xote

Ou xaxado, ou samba, frevo, rock, pop, valsa, bolero, rumba, funk, whatever. Dance. Dance sempre, dance muito, dance sozinho, junto, certo, louco, torto, errado. A dança transforma nosso caos interno em luz.

Ziriguidum

Ginga, traquejo, savoir-faire: mistura de habilidade, conhecimento, elegância e bom-humor. Cada ser humano tem seu próprio ziriguidum. Descubra o seu, aprimore, lapide – você vai precisar dele para dar conta de tudo que foi descrito acima.

Leia também: 

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Valéria Midena, arquiteta por formação, designer por opção e esteta por devoção, escreve quinzenalmente no São Paulo São. Ela é autora e editora do site SobreTodasAsCoisas.

* Tradicional expressão judaica, em iídiche.
** “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”    Fernando Birri, citado por Eduardo Galeano em seu livro ‘As palavras andantes’, publicado no Brasil pela Editora LPM, 2004.



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