No confinamento, filhos entre tapas e beijos - São Paulo São

Nada se compara ao embate dos últimos quatro ou cinco meses de confinamento. Foto: iStock.Nada se compara ao embate dos últimos quatro ou cinco meses de confinamento. Foto: iStock.

Levanta a mão aí quem não teve ao menos um arranca rabo com os filhos pequenos nessa fase de “prisão domiciliar”! Pois é. Aqui em casa já foram vários. E com exagero dos dois lados. Pais descontrolados, filhos respondões. Tem a luta do banho, a guerra dos dentes bem escovados, a batalha do “põe-o-prato-na-pia, dobra-as-roupas, arruma-a-cama”, o conflito do desliga o videogame e alguns focos isolados de rebeldia do tipo “faço-se-eu-quiser”, hoje-pulo-o-banho” e o mais radical “você-não-manda-em-mim”. Guerra dos 100 anos? Fichinha... Nada se compara ao embate dos últimos quatro ou cinco meses de confinamento. Claro que há o lado positivo, do maior contato e proximidade com os filhos, mais intimidade e por aí vai. Mas que é duro, isso é. E o negócio é tão complicado que já há uma série de estudos sendo feitos para avaliar a dimensão do que se chama “burnout parental”, algo como “pais entrando em colapso”...

Um bom exemplo é o que está acontecendo aqui em Portugal. As universidades de Coimbra e do Porto participam de um consórcio de 40 países que estão investigando o efeito da pandemia e do confinamento na qualidade da relação entre pais e filhos. A iniciativa é liderada pela Universidade de Louvain, na Bélgica. O estudo foca o assunto sob três dimensões: a primeira é a exaustão dos pais, que sentem uma demanda muito maior de envolvimento e que muitas vezes já acordam cansados com a ideia de enfrentar mais um dia (será que eles consideram também a variável chutes e pontapés do filho que pula para a cama dos pais na madrugada?). A segunda, considera a distância emocional, quando os pais, extremamente cansados, apenas “cumprem tabela”, ou seja, a interação passa a ser simplesmente funcional e automática, quase como robôs (quem não conhece aquela “- pai, não quero jantar. Vou comer só a sobremesa. – ok, filho, faz o que quiser”). Por fim, a terceira dimensão é a sensação de “incompetência”, como se pais e mães fossem incapazes de cumprir seus papéis de maneira calma e efetiva (aquela conversinha rápida entre pai e mãe nos minutos antes de desmaiar na cama: “onde estamos errando?”)

Os estudos em Portugal apontam que a pandemia não impactou de forma igual todos os casais. Foto: Le Soir. Os estudos em Portugal apontam que a pandemia não impactou de forma igual todos os casais. Foto: Le Soir.

Apesar de o stress com o confinamento ter aumentado, os primeiros resultados do estudo em Portugal com quase 500 pais e mães (a maior parte mães), com idade média em torno dos 40 anos e nível superior, apontam que a pandemia não impactou de forma igual todos os casais. Aliás, no caso específico deste período de pandemia e do aumento enorme no convívio de pais e filhos, os pesquisadores queriam compreender se o momento e todas as suas particularidades eram exclusivamente fatores de risco para o burnout parental ou se do meio do caos poderia surgir uma melhoria na qualidade dos relacionamentos. E dois extremos ficaram mais marcados: o mais comum (19% dos pais e 31% das mães) foi a mudança no tipo de “interação” com os filhos, ou seja, crianças levando mais umas boas palmadas e sendo repreendidos com palavras e com intensidade não utilizadas antes, mesmo que depois os pais tenham admitido que se arrependeram do uso da agressividade física e verbal. Por outro lado, há também muitos casais (27% das mães e 19% dos pais) que encontraram nesse momento uma oportunidade para estar mais próximos, de maneira positiva, com os filhos. Ou seja, em época de pandemia e confinamento, tem mais tapa e tem mais beijos. Esses dois pólos opostos estão associados a um conjunto de fatores que podem piorar ou aliviar a sensação de sufoco. De acordo com o estudo, ser mais jovem, viver numa grande cidade ou em casas e apartamentos sem espaço para brincadeiras são fatores de risco para o burnout parental. O stress também é maior para aqueles com filhos com menos de 4 anos de idade, principalmente se eles estavam em creches ou escolinhas ou tinham uma babá. Ou seja, é mais ou menos “se vira que agora o filho é teu”... 

O confinamento ainda não acabou, ainda que os dias estejam sendo mais “livres” aqui em Portugal. Foto: Daily Science.O confinamento ainda não acabou, ainda que os dias estejam sendo mais “livres” aqui em Portugal. Foto: Daily Science.

Em artigo publicado pela Universidade de Coimbra, a coordenadora do estudo em Portugal, Maria Filomena Gaspar, docente da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (FPCEUC), investigadora do Centro de Estudos Sociais (CES) e membro do Laboratório colaborativo ProChild, o burnout parental é  caracterizado por um estado de exaustão e um sentimento de saturação relacionados com os papéis de pai e de mãe, com perda de prazer em estar com os filhos e distanciamento emocional. Ele surge quando há um desequilíbrio entre as novas “exigências” e os “recursos” disponíveis para lidar com elas. Nesse contexto, o confinamento acabou sendo um fator que alterou de forma intensa esse equilíbrio. 

Nós aqui em casa não participamos do levantamento, tampouco tenho alguma autoridade para chegar a conclusões, mas diria, pelo convívio com outros pais e crianças, que os dois extremos não têm sido excludentes (sim, o confinamento ainda não acabou, ainda que os dias estejam sendo mais “livres” aqui em Portugal). Ou seja, realmente o stress aumentou muito, falamos mais alto, mais grosso, mais bobagens, mais discussões... mas também tem mais pipoca no sofá, mais filho pulando pra nossa cama logo cedo, mais lições de escola juntos, mais momentos na mesa com toda a família, mais farra no banho... Ops, e por falar em banho, lá vou eu: “filho, desliga esse Fortnite já e entra no chuveiro!!”

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Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.



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