Portugal volta às aulas, com fé e acompanhamento - São Paulo São

Nunca antes na história deste ou de qualquer outro país a volta às aulas foi um assunto tão emocionante, tão polêmico, tão cheio de críticas, com tantos novos “especialistas” e palpiteiros. Mas o dia chegou. Cerca de 1,3 milhão de alunos retornam para a rotina das salas nesta semana por aqui. E estamos encarando com uma mistura de sensações. Nós, pais de dois, e todos os outros pais dos nossos grupos de whatsapp. A nossa ansiedade já vinha crescendo nas últimas semanas, com algumas pequenas pistas que iam sendo dadas em pílulas sobre o grande dia de volta às salas. E quando digo nossa, é a dos pais mesmo: os pequenos estudantes do meu convívio ainda não se mostram muito preocupados, apesar de bem cientes do que deveriam fazer, ou melhor, não fazer.

O primeiro ministro António Costa tentou dar uma aliviada declarando que “a escola, em si, não transmite o vírus a ninguém”. É verdade, pá. Tipo o revólver sozinho não mata ninguém. O diabo é que tem ali no gatilho um sujeito que pode não fazer bom uso da arma. Na escola é o mesmo. O giz, a carteira, as cadeiras, se bem higienizadas, são incapazes de fazer mal a alguém. Mas quando a gente junta com as crianças... Por isso mesmo que o primeiro ministro reforçou, nas suas entrevistas para marcar a volta às aulas em todo o país, que a direção da escola, os professores, os assistentes e toda a equipe de suporte podem fazer o melhor trabalho possível, mas, se cada aluno ou família não fizerem o melhor possível, não funciona.

Tantas mudanças exigem muita adequação por parte das escolas e acabam demandando reforço de pessoal. Foto: Notícias Um Minuto.Tantas mudanças exigem muita adequação por parte das escolas e acabam demandando reforço de pessoal. Foto: Notícias Um Minuto.

Por aqui, primeiro dia de aula na quinta-feira, depois de uma reunião dos pais com os professores na antevéspera. Reunião de mascarados, com direito a apenas um dos responsáveis na sala. Criança junto nem pensar.  Recomendações, orientações, novas regras. Como as escolas, para os que ainda estão nos primeiros anos, são de período integral, há procedimentos para as salas, para os intervalos e para o refeitório. Mesas intercaladas para que ninguém almoce colado no amigo, horários de almoço escalonados para ter menos gente ao mesmo tempo no refeitório. Ah, os brinquedos, que normalmente a criançada ainda leva para a aula, passaram a ser proibidos. E as máscaras não foram recomendadas para essa faixa etária. Ou seja, todos com a cara e a coragem, literalmente. A Sociedade Portuguesa de Pediatria emitiu nota conjunta com a Sociedade de Infeciologia Pediátrica e o Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos recomendando a volta às aulas presenciais, afirmando que estudos indicam que surtos escolares são raros. Então vamos, né?

No papel, tudo muito bem planejado. Mas aí chegam as crianças no primeiro dia. Entradas organizadas por filas, portões para as 1ª e 2ª séries, outros para as 3ª e 4ª. Mas, gente, são amigos que não se encontram desde março. Alguém achou que iriam se cumprimentar encostando cotovelos? Nada. Abraços, braços ao redor do pescoço, beijinhos, gritinhos, berros, correria. Não durou muito, é verdade, porque a tropa logo foi levada para a sala, onde a professora já esperava. E de máscara. As carteiras mais largas costumavam abrigar duas crianças lado a lado. E continua assim. Perguntei para o meu filho se ele não tinha achado ruim estar sentado tão colado em alguém. Ele de fato reclamou. “Papai, não sou tão amigo dela, ela é muito metida, acha que sabe tudo”. Preocupação com o vírus? Nem pensou. Isso é coisa de velho, provavelmente. Chato mesmo é ter que conviver com alguém que acha que sabe tudo, que é metida. Pois é, talvez ele tenha razão.

O mais importante é o cumprimento das regras de higiene e distanciamento físico por parte dos adultos, quer na escola quer na comunidade. Foto: Sergio Azenha.O mais importante é o cumprimento das regras de higiene e distanciamento físico por parte dos adultos, quer na escola quer na comunidade. Foto: Sergio Azenha.

Essa fotografia do primeiro dia de aula na escola do meu filho pode não representar, naturalmente, a realidade em outras escolas. Mas não deve ter sido tão diferente. O assunto foi pauta dos principais veículos, que fizeram as clássicas reportagens nas portas das escolas e também registraram cenas muito semelhantes, mesmo com alunos mais velhos. Para os crescidos, é mais difícil organizar todo mundo em fila e definir muitas regras. Eles já esperam do lado de fora da escola, mesmo que os portões estejam abrindo mais cedo para facilitar a entrada. E qual adolescente quer entrar antes e ficar quietinho esperando a aula começar? Essa turma já tem que estar de máscara, mas ficam todos nos seus grupos, pondo a conversa em dia, grudados, colados, abraçados. Como bem falaram várias diretoras de escola entrevistadas, é uma fase nova para todos e haverá um período de ajustes, com certeza. Tanto das escolas quanto dos alunos.

Para ajudar nesse processo, a DGS – Direção Geral de Saúde, principal autoridade de saúde do país, editou uma cartilha com todos as orientações que deveriam ser seguidas. Portas e portões das escolas sempre abertos para que os alunos não tenham que tocá-los com frequência; máscara obrigatória só a partir do 5º ano para os estudantes e sempre para todos os professores e funcionários das escolas; recreios e intervalos reduzidos, com a indicação que os alunos devem buscar o distanciamento físico (acho que deve ser mais fácil exigir que os miúdos saibam a tabuada ou que recitem Os Lusíadas...); espaços não fundamentais para o ensino, como salas de convivência, devem ser fechados; deve-se evitar ao máximo a entrada na escola de pessoas que não façam diretamente parte da comunidade escolar. As escolas devem ter também uma área de isolamento para os casos suspeitos, com uma infraestrutura mínima que inclui telefone, água, cadeira, alimentos não perecíveis e acesso ao banheiro. Ou seja, se o aluno, depois que chegar na aula, começar a apresentar sintomas, é levado para o isolamento, onde fica até que autoridades médicas cheguem para avaliar o caso. Parece meio assustador, e deve ser mesmo. Nenhum aluno precisa ser previamente testado para voltar aos estudos presenciais e nem terá a temperatura verificada na porta dos colégios. Além destas regras, valem todas as demais que já viraram parte do novo normal das nossas vidas.

Professor desinfeta mesas da sala de aula para receber alunos na volta às aulas. Foto: iStock.Professor desinfeta mesas da sala de aula para receber alunos na volta às aulas. Foto: iStock.

Tantas mudanças exigem muita adequação por parte das escolas e acabam demandando reforço de pessoal. O governo já informou que fará um investimento de 125 milhões de euros para a contratação de professores e assistentes. Na última semana já foi anunciado a chegada de 900 técnicos, exclusivamente para apoiarem a volta às aulas nesta fase de pandemia. Vai dar tudo certo? Não sei dizer e me apoio, como tantos outros pais, na minha fé e na certeza de que, na escola do meu filho, por exemplo, todos estão fazendo o melhor. Receberam os alunos de forma carinhosa, seguindo os protocolos de saúde e higiene e, assim como nós, devem ter também suas dúvidas. Assim como nós, devem se sentir aflitos quando as crianças se beijam e se abraçam. Os casos voltaram a aumentar em Portugal e o gabinete de crise do governo voltou a ser convocado, depois de uma última reunião no final de junho. De acordo com o primeiro-ministro, se a tendência se mantiver, serão mais mil novos casos por dia. Não há decisão fácil, declarou um diretor de escola entrevistado neste momento de reabertura. Esse conjunto de regras definidas para a nova fase escolar tem grande impacto na rotina dos estudantes, dos professores, assistentes, técnicos e famílias. Como vai ser daqui pra frente? Vamos com fé e acompanhando de perto. 

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Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.



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