O azeite nosso de cada dia - São Paulo São

Nunca consumi tanto azeite quanto nesta minha etapa de vida portuguesa. Foto: Getty Images.Nunca consumi tanto azeite quanto nesta minha etapa de vida portuguesa. Foto: Getty Images.

Portugal é o oitavo maior produtor de azeite do mundo, mas deverá ter uma queda na produção na safra 2020/2021, de acordo com os dados recentes do relatório da Comissão Europeia. E o que eu tenho a ver com isso? Talvez o fato de não passar um dia sem “azeitar” a goela possa explicar alguma coisa. Nunca consumi tanto azeite quanto nesta minha etapa de vida portuguesa. Que me perdoem a soja, o girassol, o milho, o gergelim, o coco, mas óleo para mim é o que sai da prensa das azeitonas. Nem sei se é correto abrir mão dos outros ou praticamente dar exclusividade para o bom e velho azeite, mas vai em tudo, sem muito critério para os virgens, os extra virgens ou os mais “simples”: desde chuchar o miolo do pão com um pouquinho de sal, passando pelo refogado da cebola e do alho, pelas sopas, pelos ovos e bifes fritos, até, claro, para cobrir a bela bacalhoada. Eu certamente puxo para cima o consumo per capita português, que é de aproximadamente sete litros por ano (era de pouco mais de 2,5 litros nos anos 1990). Na verdade, acho que estou mais para os gregos, que consomem cerca de 15 litros por ano. Pensando bem, será que não gasto uma embalagem daquelas de dois litros por mês?

O Largo da Oliveira em Guimarães, deve o seu nome a uma secular oliveira plantada no local. Foto: Shutterstock.O Largo da Oliveira em Guimarães, deve o seu nome a uma secular oliveira plantada no local. Foto: Shutterstock.

Bom, deixando minha overdose de lado, o azeite por aqui é realmente um bem importante. E não só pelas divisas que traz para o país e pelo dinheiro que movimenta internamente. O azeite tem história. Há oliveiras milenares em Portugal que ainda produzem azeitonas (há uma secular linda, numa praça em Guimarães, no norte de Portugal, que não à toa se chama Largo da Oliveira). Dizem que as árvores vieram e se espalharam pelas mãos dos árabes e romanos (a palavra tem como origem o vocábulo árabe “az-zait”, que é algo como sumo de azeitona). E daqui ganharam o mundo graças, principalmente, às embarcações portuguesas e espanholas. O Brasil, aliás, é o maior mercado para as marcas portuguesas. Quase um terço das exportações de Portugal vai para o Brasil. Ou seja, não há um mercadinho brasileiro que não tenha uma marca portuguesa de azeite nas gôndolas. Posso dizer que minha mudança para cá exigiu – e ainda exige – uma série de adaptações e ajustes. Mas nenhuma delas está relacionada com o azeite. Neste quesito, sinto-me em casa, consumindo as marcas praticamente “brasileiras”.

Herdade do Esporão, localizada no distrito de Évora, em Portugal. Foto: Divulgação.Herdade do Esporão, localizada no distrito de Évora, em Portugal. Foto: Divulgação.

Mas mesmo sendo um dos maiores exportadores do mundo, o mercado interno português não deixa de ser abastecido. O país é autossuficiente desde 2014, ainda que o consumidor também ache marcas italianas e espanholas, por exemplo, como alternativas. A safra de 2020/2021 em Portugal deve produzir 100 mil toneladas, 40 mil a menos do que na temporada anterior, que havia sido o recorde dos últimos 80 anos. Os especialistas dizem que é assim mesmo: quando uma safra é excepcional, a seguinte tende a ser um pouco menor. Fico mais tranquilo. De qualquer forma, a produção total da Europa deve crescer 7%, atingindo pouco mais de dois milhões de toneladas de azeite. Por aqui, o maior volume vem da região do Alentejo, que responde por 75% de toda a produção nacional.

Quando se quebra o mercado por tipo de azeite, ou seja, virgem, extra virgem etc, Portugal assume a liderança mundial proporcional na produção do “topo de linha”. Os virgens e extra virgens representam cerca de 95% da produção portuguesa. Em outros importantes países produtores, essa fatia fica nos 70%. Tenho ou não bons motivos para consumir o azeite local?  Aliás, eu e o resto do mundo andamos empolgados com o azeite. A previsão é que o consumo de azeite aumente 7% globalmente em 2020/2021. O que me faz ficar novamente preocupado. Mais consumo e menos produção... Ok, nenhuma indicação de falta de azeite no mercado. Posso ficar tranquilo, eu acho.

Os virgens e extra virgens representam cerca de 95% da produção portuguesa. Foto: Verde Louro.Os virgens e extra virgens representam cerca de 95% da produção portuguesa. Foto: Verde Louro.

Sim, sim! Na verdade, nem a pandemia fez com que esse mercado deixasse de rodar perfeitamente. De acordo com os dados do governo, o país vai alcançar nesta temporada a marca histórica de 600 milhões de euros na exportação de azeite e não vai deixar de atender o mercado interno com bastante folga, uma vez que o país produz 160% do volume que precisa. Ou seja, vai ter pra mim e para os brasileiros do lado de lá do Atlântico.

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***Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.



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