Sobre cidades e seus nomes - São Paulo São

Imagem: Shutterstock.Imagem: Shutterstock.

Portugal é um país pequeno. Uma comparação recorrente, por exemplo, é com o tamanho de Pernambuco. O país inteiro é do tamanho do estado nordestino em vários critérios. São 92 mil km2 para os portugueses, contra 98 mil km2 para os pernambucanos. Pouco mais de 10 milhões de pessoas vivem em solo português, enquanto cerca de 9,3 milhões habitam as terras pernambucanas. A maior estrada portuguesa, a lendária EN102, que corta o país de norte a sul em pouco mais de 700 km, não conseguiria unir São Paulo a Vitória, no Espírito Santo, por exemplo.

Mas se é diminuto em área e em população, que aliás vem ficando cada vez menor, é gigantesco em belezas, histórias, tradições, cultura, gastronomia e cidades. São 18 distritos, algo como os nossos estados no Brasil, e 308 municípios. Pernambuco, para voltar à referência inicial, tem 184, o que mostra como Portugal é bem mais “concentrado”. Mas se juntarmos as aldeias e vilas, já deverão ser milhares. E muitas vezes, mesmo aquelas que pertencem a um mesmo município podem ter culturas e tradições próprias. Sem exagero, basta atravessar uma ponte para conhecer hábitos e costumes diferentes.

Entre tantos lugares, vilas, cidades, regiões e freguesias, há muitos com nomes que são bem divertidos ou que escondem histórias fascinantes. Ao contrário do que temos no Brasil, o sufixo de origem grega Pólis não aparece muito por aqui. Cidades tipo Petrópolis e Teresópolis, apesar de fazerem referência ao Imperador e à Imperatriz, são coisas de brasileiros mesmo. Aqui tem Tondela, cidade no distrito de Viseu, cujo nome tem história curiosa: diz a lenda que uma mulher no alto das colinas vigiava o movimento dos mouros e, ao perceber qualquer sinal de perigo, tocava uma tropa como alerta e sinal para que a população se juntasse para enfrentar o inimigo. Assim, o então povoado resistiu ao “tom dela”.

Faro é a capital da região do Algarve, no sul de Portugal. Foto: Shutterstock.Faro é a capital da região do Algarve, no sul de Portugal. Foto: Shutterstock.

Grande parte dos nomes das cidades e vilas têm origem no passado do Império Romano da região ou da ocupação Moura. Nomes como Algarve, Alcântara e tantos outros com início em “Al”, por exemplo, trazem essa marca árabe. Mas e aqueles do tipo “Corte do Pinto”, freguesia do distrito de Beja? Não sou especialista em história antiga, tampouco domino o árabe ou o latim do passado, mas me parece que “Corte do Pinto” tem muita pouca influência dos antigos césares...

Quer mais? Para ficarmos na mesma temática, que tal “Pau Gordo”, localidade no concelho de Cascais (lembra um pouco a terra natal do Garrincha, não?)? Ou “Picha”, aldeia em Pedrógão Grande? (Picha, no popular, é um dos nomes dados para o órgão sexual masculino. Seria algo como morar na “piroca”...). Tem também “Anais”, freguesia no concelho de Ponte de Lima, mais ao norte de Portugal. E “Aldeia do Pinto”, em Beja (por coincidência ou não, Beja também tem a localidade “Mal Lavado”). Arrisco dizer que o pessoal de “Pau Gordo” não podia visitar “Anais”, sob pena de ter que passar pelo “Corte do Pinto”.... Ou, quem sabe, iria acabar sendo morador de “Moço Morto”, em Vila Nova de Famalicão. Mas como disse, entendo pouco dessas coisas de nomes. Em tempo: “Pau Gordo” parece ser uma referência a um tipo de pinheiro de tronco grosso que era comum na região; “Anais” está associado à padroeira do concelho, Santa Maria de Anais; e “Picha”, dizem, nasceu do fato da região ter muitos picheleiros, nome dado ao que chamamos de encanadores. Portanto, deixem de pensar bobagens, ou terão que ir para o “Purgatório”, na região do Algarve, que ganhou esse nome porque por lá existia uma taberna onde os homens paravam para beber aos domingos e feriados. Copo vai, copo vem, esqueciam da vida, das mulheres e dos filhos... As esquecidas então se lamentavam: “aquela casa é o nosso purgatório...”

Vila Nova de Famalicão, nascida em 1205 está situada estrategicamente entre as cidades de Braga, Guimarães e Porto. Foto: Câmara Municipal VNF.Vila Nova de Famalicão, nascida em 1205 está situada estrategicamente entre as cidades de Braga, Guimarães e Porto. Foto: Câmara Municipal VNF.

Outros nomes sugestivos, como “Vale de Prazeres”, engordam a lista. Neste caso, a graça vem em dobro. O tal vale fica no concelho do “Fundão”, no distrito de Castelo Branco. “- quero te apresentar o vale dos prazeres, aqui no fundão”, teria dito a moçoila de “Desejosa”, uma freguesia do concelho de Tabuaço. O “Vale dos Prazeres” mudou de nome em 2013, quando se uniu à "Mata da Rainha”, passando a formar a freguesia do “Vale dos Prazeres e Mata da Rainha”, o que, hão de concordar, também não ajudou muito...

Algumas outras localidades também não devem orgulhar muito seus moradores com seus nomes. É o caso de “Chiqueiro”, na serra de Lousã. Felizmente, o nome não faz jus à beleza desta pequena vila, parte de um belo conjunto da Rede das Aldeias do Xisto, no centro de Portugal.  “Curral das Vacas”, vila em Chaves, cidade portuguesa do distrito de Vila Real, é outro caso em que o nome não é justo com o charme da pequena vila. É o que dizer de “Ratoeira”, no concelho de Vila Nova de Cerveira?

Na categoria comida, não faltam outros exemplos pitorescos. O “São Paio de Farinha Podre” foi um deles. Em 1985, teve seu nome alterado para São Paio de Mondego, uma referência ao rio que corre nas proximidades. O antigo “Farinha Podre” é hoje uma freguesia do concelho de Penacova (já adianto que não tem qualquer relação com um possível “pé na cova”, mas não deixa de ser divertido também). Outro que traz farinha no nome é o “Pouca Farinha”, que pertence a uma freguesia do concelho de Sabugal. Para completar o cardápio, vamos de “Carne Assada”, em Sintra, que teria recebido este nome por causa de um remoto incêndio que dizimou o gado da região, deixando um cheiro forte de carne pelas redondezas. Mas também tem “Pinhão”, “Milhão”, “Nabo”, “Manteigas” e por aí vai.

Portugal é um país pequeno cheio de história e recheado de curiosidades. Foto: Fábio Encarnação.Portugal é um país pequeno cheio de história e recheado de curiosidades. Foto: Fábio Encarnação.

Sorte ou azar? Pois é, há quem nasça em “Sortes”, em Bragança, mas também que viva no “Vale de Azares”, que uma vez já teve nome de flores, em Celorico da Beira. A mudança de Vale das Flores para o tal azar aconteceu após uma série de tragédias que aconteceu com uma família que vivia num castelo da região. Consta que o filho ia visitar a namorada e caiu do cavalo, batendo com a cabeça na pedra e morrendo na hora. Como resultado, a mãe do jovem enlouqueceu e a irmã se jogou da torre do castelo. O pai, desgostoso e dono das terras, achou que era mais adequado deixar as flores de lado e trocou o nome do vale. Faz sentido. Nesta mesma linha de nomes não muito simpáticos, tem o “Carro Queimado”, na freguesia de Vale das Nogueiras, em Vila Real; o “Chão Duro”, na freguesia de Moita, do distrito de Setúbal; “Degolados”, freguesia do município de Campo Maior; e “Matança”, freguesia do concelho de Fornos de Algodres. Esta última ganhou esse nome por motivos óbvios, uma vez que a região foi palco de batalhas sangrentas que deixaram muitos mortos.

“Curral das Vacas”, vila em Chaves, cidade portuguesa do distrito de Vila Real, é outro caso em que o nome não é justo com o charme da pequena vila. Foto: Fernando DC Ribeiro.“Curral das Vacas”, vila em Chaves, cidade portuguesa do distrito de Vila Real, é outro caso em que o nome não é justo com o charme da pequena vila. Foto: Fernando DC Ribeiro.

A lista não para por aí, claro. Quem quiser saber um pouco mais, basta abrir um mapa de Portugal e vasculhar. Ou sair rodando pelo país, conhecendo uma enorme riqueza de hábitos, culturas e costumes. Mas para não encerrar em clima de matança, deixo aqui mais três nomes muito simpáticos e que devem encher seus moradores de orgulho: a freguesia de “Amor”, em Leiria, que teria esse nome por ter sido palco dos encontros de D. Dinis, antigo rei de Portugal dos séculos XIII e XIV, com sua amante; “Paixão”, em Celorico de Bastos; e “Namorados”, do município de Mértola. Boa viagem!

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***Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.



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