A perversa equação da pandemia - São Paulo São

Nasceram quase 85 mil bebês em Portugal no ano passado, mas o número de mortos beirou os 124 mil, principalmente puxados pela Covid.  Foto: Diário de Notícias.Nasceram quase 85 mil bebês em Portugal no ano passado, mas o número de mortos beirou os 124 mil, principalmente puxados pela Covid. Foto: Diário de Notícias.

Os números das perdas na pandemia estão por toda a parte e são atualizados minuto a minuto. Temos indicadores das mortes, dos desempregados, dos prejuízos financeiros, dos infectados, dos vacinados, da queda dos PIBs, da produção de vacinas e por aí vai. Tem gráfico de tudo. Mas um outro número também triste, principalmente para Portugal - um país que já enfrenta desafios populacionais -, é o do “não nascimento”. Pois é, por aqui o último ano não foi apenas de mais mortes, mas também de menos bebezinhos. Se a taxa de natalidade já era baixa, com a pandemia o cenário ficou ainda pior. Agora, já são doze anos consecutivos de balanço negativo, ou seja, há mais mortes do que nascimentos.

Os dados preliminares do consolidado do ano mostram uma diferença bem significativa: nasceram quase 85 mil bebês em Portugal no ano passado, mas o número de mortos beirou os 124 mil, principalmente puxados pela Covid. Em comparação com 2019, os nascimentos caíram pouco menos de 3% e as mortes subiram pouco mais de 10%. É o pior saldo negativo do século. E o balanço final no total da população só não ficou tão ruim por causa da imigração, especialmente dos meus conterrâneos que continuam vindo para Portugal e que estiveram no topo da lista dos pedidos de visto de residência em 2020. Aliás, relatório produzido pelo FMI no ano passado mostra exatamente isto. Os imigrantes são cada vez mais fundamentais nas economias desenvolvidas e têm um papel relevante no desenvolvimento econômico dos países onde se estabelecem. Por aqui, o relatório de 2019 já trazia informações que confirmam as conclusões do estudo do Fundo Monetário Internacional. Os imigrantes em Portugal fizeram contribuições para a Segurança Social portuguesa de quase 750 milhões de euros ao longo de um ano e receberam benefícios do Estado que não chegaram a 100 milhões de euros no mesmo período.

O curioso é que muitos dos nascidos em 2020 foram “feitos” antes da pandemia. Foto: SAPO.O curioso é que muitos dos nascidos em 2020 foram “feitos” antes da pandemia. Foto: SAPO.

Mas de volta aos bebezinhos, eu ainda acho que a queda não foi maior porque muitos dos nascidos em 2020 foram “feitos” antes da pandemia, na fase em que os casais não estavam trancados em casa com os outros filhos, se descabelando, se irritando, olhando torto um para o outro... Se considerarmos as gestações que terminarão em 2021, portanto já fruto de “encontros” no meio da pandemia, aposto que o número de nascimentos será ainda menor. Afinal, quem é que pensa em fazer filho no meio deste caos. Aliás, quem consegue…

E não é só palpite meu. Dados preliminares de 2021, na verdade, já apontam uma grande redução na comparação de janeiro/fevereiro deste ano com o mesmo período de 2020. Foram feitos, por exemplo, quase 20% menos “testes do pezinho”, um dos indicadores utilizados no levantamento. Em números absolutos, são mais ou menos 2700 nascimentos a menos. Ter filhos parece ter sido mesmo uma decisão postergada por causa da pandemia.

A gripe de 1918 se propagou rapidamente e matou 25 milhões de pessoas nos seis primeiros meses. Foto: Getty Images.A gripe de 1918 se propagou rapidamente e matou 25 milhões de pessoas nos seis primeiros meses. Foto: Getty Images.

Na outra variável desta equação, a dos falecimentos, o número total de 2020 é o maior dos últimos 100 anos. Em 1918, foram cerca de 154 mil mortes, muitas delas ainda provocadas pela então pandemia da Gripe Espanhola. As mulheres morreram mais da Covid do que os homens aqui em Portugal, o que pode ser explicado pela expectativa de vida maior no público feminino. Ou seja, como um dos principais grupos de risco – aquele dos mais velhos – é composto mais por mulheres do que por homens, a longevidade feminina acabou penalizando mais esse segmento da população. Do total das mortes, mais de 70% foram de pessoas com mais de 75 anos de idade. Em números absolutos e consolidados do ano, a diferença não chegou a ser tão grande (cerca de 62 mil mulheres e pouco mais de 61 mil homens), mas quando se retira da conta os três primeiros meses de 2020, quando a Covid ainda não havia sido a maior responsável pelas mortes no país, nota-se que o público feminino foi consideravelmente mais atingido.

Portugal é considerado um caso de sucesso na luta contra o coronavirus. Foto: SAPO.Portugal é considerado um caso de sucesso na luta contra o coronavirus. Foto: SAPO.Escrevo esse texto em um momento em que os números de Portugal nos dão alguma esperança de dias melhores. O país começa a desconfinar, as escolas reabriram suas portas para as crianças menores e alguns serviços e comércios voltam gradativamente às atividades quase normais. Mas o caminho é longo e não aceitará deslizes. Reli notícias de um ano atrás e me dei conta que nos perdemos nos números e nas projeções, nos perdemos nas referências, nas previsões, porque tudo é muito novo e diferente. Naqueles meados de março do ano de 2020, os jornais estampavam: 6500 mortes e 168 mil infectados em todo o mundo. Já não dava para dizer que era uma gripezinha, mas estava bem longe dos números atuais, que apontam mais de 2,5 milhões de mortes e 120 milhões de infectados no planeta, se formos ficar apenas nos dados oficiais. Quantos mais vão morrer, quantos outros nascimentos serão adiados, não faço a menor ideia. Mas torço muito para que em março de 2022 eu possa voltar a escrever sobre a animação do Carnaval de Ovar!

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Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.



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