A poética do espaço em tempos de quarentena - São Paulo São

Decoração afetiva. Quadros, lembranças, heranças e animais. Casa da autora. Foto: Ana Paula Wickert / Acervo Pessoal.Decoração afetiva. Quadros, lembranças, heranças e animais. Casa da autora. Foto: Ana Paula Wickert / Acervo Pessoal.

“Os homens sabem fazer tudo, menos ninhos de pássaros” (provérbio).

Na história da humanidade esta é a primeira vez que temos tantas pessoas confinadas em suas casas, com restrições sociais e de circulação. Nestes dias as relações com o espaço público, com a cidade, com a família e com a própria casa vem mudando, associadas a uma nova dialética com a tecnologia e a informação. Neste contexto muitas pessoas que nunca passaram nenhum tempo de ócio em suas casas estão tendo a oportunidade (obrigatoriedade) de ter esses momentos inseridos em sua rotina.

Segundo o filósofo francês Gaston Bachelard, “A casa é o nosso canto do mundo”, o nosso primeiro universo, um verdadeiro cosmos. (p. 24) Mas quantos de nós tem na sua casa um verdadeiro lar? O que contribui para que a casa seja o ninho que os poetas e filósofos remetem? 

A casa é por natureza o local da nossa memória, nela estão abrigados nossos devaneios e a casa é, por conceito, o local em que nos sentimos protegidos, ou deveríamos nos sentir.Detalhe de vaso de planta com decoração de fada. Casa em Freudembeg, Alemanha. Foto: Ana P. Wickert / cervo pessoal.Detalhe de vaso de planta com decoração de fada. Casa em Freudembeg, Alemanha. Foto: Ana P. Wickert / cervo pessoal.

Pensando na parte concreta da casa, na forma como a decoramos, como a organizamos, não importa o tamanho que ela tenha, a casa construída difere da alma da casa. A casa é um objeto geométrico, um espaço físico definido por paredes e telhado. Porém quando fazemos a transposição para o humano entendemos que a casa tem alma, podendo ser entendida como um espaço de conforto e proteção, como um espaço que deve defender a intimidade. 

Me parece que na quarentena estamos muito mais conectados com essa alma. Com essa casa  “que mantém o homem através das tempestades do céu e das tempestades da vida.”(Bachelard, 1998, p. 26) No nosso caso, nos protege de algo invisível, não de uma tormenta ou de um vendaval, mas de um mundo que guarda lá fora o perigo de uma doença letal. Janela de uma casa em Copenhagen com plantas e a luz da vela, exemplificando o conceito dinamarquês “hygge”. Foto: Ana P. Wickert / Acervo pessoal.Janela de uma casa em Copenhagen com plantas e a luz da vela, exemplificando o conceito dinamarquês “hygge”. Foto: Ana P. Wickert / Acervo pessoal.Tal como em filmes de ficção, "Bird Box" (Caixa de Pássaro) ou "I’m the Legend" (Eu Sou a Lenda), não podemos sair, só para buscar mantimentos e remédios e sempre com extremo cuidado. Assim vamos recriando uma vida dentro da nossa casa, dentro dos nossos limites, do nosso canto no mundo. Sem a casa o homem seria um ser disperso, sem referências ou identidade. 

Nestes dias de tantas incertezas, passa a ter importância reconhecer o valor do insignificante. O insignificante torna-se signo de uma sensibilidade extrema para significações íntimas. Aquele detalhe, aquele objeto, aquela peça ou quadro que remete a um momento em que não estávamos presos nessa situação.

A decoração afetiva e objetos passam a ter outro significado. Uma casa impessoal pode ser um tanto deprimente em tempos de isolamento social. Bachelard chega a afirmar que o ninho, como toda imagem de aconchego, associa-se à imagem de uma casa simples, casa ninho nunca é nova, ela é o lugar do habitar. Uma casa habitada tem objetos de valor, remendados ou colados, tem brinquedos pela sala, pêlo de cachorro no sofá. Uma casa habitada está em movimento, em constante uso, em um ciclo de renovação e recriação. 

Me parece que a inexistência de objetos com significado pode ser comparada a perda do patrimônio histórico na escala urbana. Na cidade os prédios históricos e lugares de memória cumprem essa função da referência e da identidade. Na casa a identidade está no objeto herdado, no quadro pintado pelo filho, nas lembranças de viagens. Para a memória, mais importante que a datação dos fatos, é a localização nos espaços da nossa intimidade. Ou seja, o espaço retém o tempo. O espaço e os objetos são a referência do tempo. 

Parede de fotografias. Memórias em família reconfortam a solidão da quarentena. Foto: Ana Paula Wickert / Acervo Pessoal.Parede de fotografias. Memórias em família reconfortam a solidão da quarentena. Foto: Ana Paula Wickert / Acervo Pessoal.

Mas hoje essa leitura do espaço da casa não pode ser dissociada da janela que se abre a partir da conectividade. É possível estar sem perceber, ou seja é possível estar em quarentena em casa mas nunca olhar e perceber seu espaço, criando uma atmosfera de não lugar dentro da própria casa. O ciberespaço é um não lugar, ele não tem temporalidade, nem referência, não respeita a intimidade e penetra em qualquer momento da vida. 

Obviamente que a tecnologia e conectividade estão sendo aliados perfeitos para vencer a epidemia com o mínimo de sanidade e continuidade de atividades cotidianas, mas temos que ter também o cuidado de saber desconectar, de sentir e perceber onde e porque estamos. O crescimento humanístico só irá acontecer se nos permitirmos sentir, perceber sem negar. Dentre os benefícios mais preciosos da casa está o de abrigar o devaneio, proteger o sonhador. Poeticamente e simbolicamente a casa permite sonhar em paz. Na prática sabemos que esta não é a realidade de muitas pessoas. 

Assim como a casa protege ela também esconde. Tristes são os números da violência doméstica que aumentou neste período de isolamento. Triste é a realidade daqueles em que a casa é apenas um cômodo que abriga pessoas demais, que em uma rotina normal se alternavam no uso do espaço.

A importância do sol entrando na casa. Foto: Ana P. Wickert / Arquivo Pessoal.A importância do sol entrando na casa. Foto: Ana P. Wickert / Arquivo Pessoal.De qualquer forma a casa tem sua poética no imaginário humano, e penso que em qualquer uma das hipóteses, estar isolado em casa, no nosso ninho, no nosso âmago, é melhor que qualquer outra situação. Em guerras a humanidade estava presa em guetos ou campos de concentração ou mesmo em casas sendo bombardeadas.

Na luta contra o Covid-19 podemos pensar em ressignificar nosso espaço e nossa vida. Analisar a poética de nossa casa. Deixar que ela cumpra seu papel de nos levar ao devaneio, ao ócio criativo (porque não, ter novas ideias para o porvir?). Tirar um tempo para a nossa casa, para entender se ela está cumprindo seu papel em nossa vida. Se estamos tendo com ela as relações afetuosas que a transformam em lar e porto seguro de nossos sonhos. 

Talvez aproveitar nosso isolamento neste lugar que nos é tão íntimo para olhar para dentro, cultivar sentimentos mais positivos, valorizar nossas memórias, limpar os cantos, abrir as janelas e deixar o sol entrar e o vento levar aquilo que não pertence ao lar. 

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Ana Paula Wickert é arquiteta e urbanista, mestre em Arquitetura e MBA em Marketing pela FGV. É palestrante, consultora e criadora do portal ArqAtualiza

Referências: Bachelard, Gaston. A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

 



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