Portugal na luta contra o lixo nos mares - São Paulo São

Não basta recolher e reciclar: é preciso não deixar que os resíduos sejam gerados e cheguem aos mares. Foto: Getty Images.Não basta recolher e reciclar: é preciso não deixar que os resíduos sejam gerados e cheguem aos mares. Foto: Getty Images.

Os números não são tão precisos, mas estima-se que todos os anos os oceanos recebem até 12 milhões de toneladas de resíduos plásticos. E o pior é que aquele monte de plástico que vemos flutuando no mar ou emporcalhando as praias – e que tanto nos impressiona - representa apenas 6% desta montanha de lixo. O resto, infelizmente, já está no fundo dos oceanos.

Aqui em Portugal, a Associação Portuguesa do Lixo Marinho tem sido uma voz ativa neste tema e reconhece que só retirar o lixo do mar e das praias, apesar de ser tarefa fundamental, não resolve o problema. Sempre chega mais lixo do que o que é recolhido. Aliás, a pandemia tem “ajudado” muito a piorar esse cenário, com a profusão de máscaras e luvas, principalmente, descartadas de forma completamente irresponsável nas ruas. Ou seja, não basta recolher e reciclar: é preciso não deixar que os resíduos sejam gerados e cheguem aos mares. A tarefa não é fácil, mas há poucas semanas a Assembleia da República emitiu uma recomendação ao governo português para a implementação de ações que promovam a redução e erradicação de resíduos no meio marinho. A meta é ter, até o final de 2023, um plano de ação nacional e multissetorial já implementado com este objetivo.

Participantes da APLM na limpeza na Praia de Albarquel, Setúbal. Foto: Divulgação.Participantes da APLM na limpeza na Praia de Albarquel, Setúbal. Foto: Divulgação.Um projeto que também quer alterar esse quadro é o Maelstrom, liderado pelo Instituto de Ciências Marinhas do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália e que tem, em Portugal, parceria com o Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto (CIIMAR). A proposta é encontrar, ao longo dos próximos quatro anos, estratégias para reduzir o impacto do lixo marinho nos ecossistemas costeiros. Com o uso de tecnologias inovadoras e ambientalmente sustentáveis, os pesquisadores querem identificar pontos críticos de acumulação de lixo marinho e removê-los da costa. Também vão atuar nas águas dos rios para evitar que elas sejam uma “rota” que leve o lixo para o mar. Inicialmente, o foco será nas grandes áreas costeiras das cidades de Veneza e do Porto.

O projeto Maestrom vai dedicar-se, ao longo dos próximos quatro anos, a encontrar estratégias para reduzir os impactos do lixo marinho nos ecossistemas costeiros. Foto: Reprodução.O projeto Maestrom vai dedicar-se, ao longo dos próximos quatro anos, a encontrar estratégias para reduzir os impactos do lixo marinho nos ecossistemas costeiros. Foto: Reprodução.

Nestes dois pontos focais, o Projeto Maelstrom vai avaliar duas novas tecnologias – uma barreira de bolhas de ar e uma grande plataforma robótica -, que poderão depois ser aplicadas em maior escala e em outras regiões. O escopo do projeto vai além da remoção dos resíduos e prevê também a reciclagem de todo o material recolhido. Apesar de parte dele poder voltar a ser matéria-prima para a indústria, a maior inovação está associada a um protótipo de transformação dos resíduos em energia e combustível limpos que serão usados justamente no processo de coleta do lixo. Ou seja, fecha-se um círculo com o projeto se retroalimentando. É a economia circular.

Outro destaque em relação aos oceanos foi o recente prêmio recebido por pesquisadores portugueses na Web Summit, a maior conferência europeia de tecnologia e empreendedorismo. O projeto Smart, que concorreu com iniciativas de outros 13 países, vai utilizar Inteligência Artificial (AI) para construir modelos de previsão e simulação da acumulação de plástico no oceano, a partir de dados coletados por satélite.

Web Summit premiou projeto de combate ao plástico nos oceanos. Imagem: Divulgação.Web Summit premiou projeto de combate ao plástico nos oceanos. Imagem: Divulgação.

Portugal, aliás, é um dos 14 países signatários do Painel de Alto Nível para uma Economia Sustentável do Oceano (Painel do Oceano), criado em 2018 com o apoio das Nações Unidas. Em um recente manifesto, esse grupo se comprometeu a “agir e gerir de forma sustentável 100% da área oceânica sob jurisdição nacional, orientada por planos oceânicos sustentáveis, até 2025". Os países também pedem que outras nações costeiras se juntem a este esforço para garantir que até 2030 todas as áreas oceânicas sejam geridas de forma sustentável.

Todos esses movimentos não acontecem de forma isolada e fazem parte de um esforço concentrado global. No próximo dia 21 de abril, por exemplo, as Nações Unidas irão divulgar a Segunda Avaliação Mundial dos Oceanos (WOA II), uma avaliação integrada do ambiente marinho, considerando aspectos ambientais, sociais e econômicos. É o mais recente estudo, em nível global, baseado nos três pilares do desenvolvimento sustentável. A primeira avaliação (WOA I) foi apresentada no final de 2015 e serviu como base para este segundo estudo.

Na praia do Furadouro, o movimento “Fura100plástico” organizou pelas redes sociais ações de voluntários “catadores” de lixo nas praias. Foto: The Blue Therapy.Na praia do Furadouro, o movimento “Fura100plástico” organizou pelas redes sociais ações de voluntários “catadores” de lixo nas praias. Foto: The Blue Therapy.

E para quem acha que esse grande desafio de despoluir os oceanos é responsabilidade exclusiva dos governos, da academia ou das grandes corporações, deixo aqui também o exemplo de um pequeno grupo da “minha” praia do Furadouro, o movimento “Fura100plástico”, que em pouquíssimo tempo já organizou pelas redes sociais ações de voluntários “catadores” de lixo nas praias e conquistaram centenas de seguidores. E certamente não é um exemplo isolado. Ah, você não mora perto do mar? Bom, se fizer o descarte correto dos plásticos já ajuda muito!


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Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.





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