A valorização do espaço público fez de Copenhague uma das cidades mais felizes do mundo - São Paulo São

Espaços públicos da capital dinamarquesa ajudam a entender a maneira particular de encarar a vida. Foto: Getty Images.Espaços públicos da capital dinamarquesa ajudam a entender a maneira particular de encarar a vida. Foto: Getty Images.

Uma cidade com alto índice de qualidade de vida e felicidade dos habitantes. Espaços públicos estruturados a 15 minutos de distância de qualquer cidadão, mais de 125 playground abertos para as crianças, ciclovias conectando toda a cidade, piscinas públicas, uma usina de queima de resíduos, gera energia e tem uma pista de esqui em cima, geração de energia eólica, alimentação orgânica. Não é História dos irmãos Grimm, é Copenhagen.

Copenhagen desperta a atenção mundial quando se fala em cidades humanas, sustentáveis, inteligentes, mas principalmente pelo foco nas pessoas. A própria Dinamarca possui atualmente um sistema de governo e uma organização social e política de invejar.Jan Gehl, criador da teoria das Cidades para Pessoas. Foto: The Place Brand Observer.Jan Gehl, criador da teoria das Cidades para Pessoas. Foto: The Place Brand Observer.

A cidade, que é o berço de Jan Gehl, criador da teoria das Cidades para Pessoas, vem trabalhando no enfoque de se tornar a cidade com a melhor qualidade de vida no mundo há muitas décadas. Eles consideram tão relevante o trabalho do arquiteto, que, em 2017, no aniversário de 850 anos da cidade, Gehl foi nomeado uma das personalidades da história da cidade, ao lado de Absalão, seu fundador, e do Imperador Christian IV. 

Mas, apenas olhar e invejar não nos levará a construir cidades melhores. Cabe compreender como esta cidade se estruturou ao longo de sua história para chegar na Copenhagen que conhecemos.Superkille, parque urbano projetado por Bjarke Ingels em 2011. Foto: Ana P. Wickert.Superkille, parque urbano projetado por Bjarke Ingels em 2011. Foto: Ana P. Wickert.Desde seu surgimento como um pequeno castelo medieval, até enfrentamento de um grande incêndio no século XVIII, que durou 3 dias e destruiu grande parte da cidade medieval, a ataques de suecos, uma grande epidemia de cólera no século XIX, invasão nazista, foram muitas as dificuldades enfrentadas para a construção e fortalecimento desta cidade, em especial do espírito colaborativo que há entre seus habitantes. 

A cidade que nasceu muralhada, viu a abertura dos muros para expansão do seu território na metade do século XIX, assim como outras capitais europeias que viviam a modernidade e a belle époque. Novos bairros foram surgindo e em 1947 foi implementado um Plano Estruturador chamado Finger Plan, onde as linhas de trem se implantaram como os dedos de uma mão a partir do centro. 

Copenhagen é uma cidade que facilitou a mobilidade por bicicleta em um plano que vem sendo implantado há décadas. Foto: Copenhagen Cycle.Copenhagen é uma cidade que facilitou a mobilidade por bicicleta em um plano que vem sendo implantado há décadas. Foto: Copenhagen Cycle.Atualmente os 170 km de trem do Five Finger Plan, juntamente com um extenso sistema de ônibus, quatro linhas de ônibus aquáticos e um sistema de metrô pequeno, mas eficiente, compõem o sistema de transporte público da cidade de Copenhague. 

Dentro das diretrizes de planejamento urbano de Copenhagen, desde a década de 1960 já se tem clareza do objetivo de alterar a orientação de uma cidade planejada para o carro para uma cidade pensada para as pessoas.  Uma visão forte e pensada para o longo prazo. 

Na primeira fase de implantação, entre 1960 e 1980, o foco foi a estruturação das ruas de pedestres, implantadas na área central da cidade. Depois, entre 1980 e 2000, a fase de retirada dos carros estacionados sobre as praças e ruas para devolver os espaços públicos para uso das pessoas. Nesta mesma época inicia-se a implantação de ciclovias com enfoque de mobilidade urbana.

No século XXI a cidade se estrutura em direção à água, ampliando sua relação com os bairros separados pelo canal, e também investindo pesado na estruturação de praças e parques de lazer. Também, novos bairros totalmente sustentáveis, com energia renovável e mobilidade ativa são implantados.

Na Israel Plads promove-se o uso conjunto dos espaços públicos por escolas e público em geral. Foto: Cobe Architects.Na Israel Plads promove-se o uso conjunto dos espaços públicos por escolas e público em geral. Foto: Cobe Architects.

Essa forma de pensar a cidade e implantar estruturas para bicicleta originou o termo “Copenhagenize”, usado quando uma outra cidade se inspira no exemplo da capital dinamarquesa. 

Mas, sempre bom lembrar, nada disso foi passe de mágica. Qualquer foto dos anos 1960 mostra uma cidade lotada de carros como qualquer outra capital da época. Também é importante dizer que, como todas as cidades, atuais, Copenhagen enfrenta desafios como a urbanização e crescimento, problemas de saúde e obesidade, mobilidade e congestionamentos, desenvolvimento sustentável e aquecimento global. Por ser uma a mais importante cidade dinamarquesa, Copenhagen recebe um fluxo de 1000 novos habitantes por mês, quer sejam estrangeiros ou moradores de outras regiões da Dinamarca. 

'Black Diamond', a Biblioteca Real da Dinamarca, projeto dos arquitetos Schmidt, Hammer & Lassen. 1999. Abertura da cidaded para a água. Foto: Schmidt, Hammer & Lassen.  'Black Diamond', a Biblioteca Real da Dinamarca, projeto dos arquitetos Schmidt, Hammer & Lassen. 1999. Abertura da cidaded para a água. Foto: Schmidt, Hammer & Lassen.

Manter os altos índices de qualidade de vida e de estruturação urbana configuram um desafio permanente, especialmente quando se trata da implantação de novos bairros e do crescimento da cidade e de suas relações metropolitanas.

Porém, alguns fatores são fundamentais para o sucesso de Copenhagen, dentre eles o planejamento a longo prazo. Pensar a cidade para além de uma gestão, com um objetivo coletivo traz clareza para que as ações sejam coordenadas e complementares. 

Ao contrário do que vemos em outros lugares, onde um prefeito implanta ciclovias e o outro retira, em Copenhagen as ações vêm acontecendo desde os anos 1960 com o único objetivo de criar uma cidade sustentável e com alto índice de qualidade de vida. E qualidade de vida é para pessoas, não para carros, nem mesmo para os interesses políticos temporários. 

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No curso em que participei em 2017 no Gehl Institute, o aspecto político foi muito destacado. Não é possível transformar as cidades sem políticas estruturadas e bem orientadas. Um dos módulos focava no Changing Mindsets. Talvez a ação mais difícil, pois não é por falta de capacidade técnica que não conseguimos dar o pulo do gato nas nossas cidades. Na grande maioria das vezes é por falta de vontade política em implantar projetos inovadores e revolucionários que possam causar algum desconforto ao status quo.

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Ana Paula Wickert é arquiteta e urbanista, mestre em Arquitetura e MBA em Marketing pela FGV. É palestrante, consultora e criadora do portal ArqAtualiza



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