As beatas, sempre elas - São Paulo São

Os números podem não ser tão precisos, mas mesmo assim as estimativas são assustadoras. Calcula-se que cerca de 4,5 trilhões de beatas (o que nós brasileiros chamamos de guimba ou bituca) são descartadas todos os anos ao redor do mundo. Destas, talvez dois terços não cheguem aos locais corretos de descarte. Ou seja, vão mesmo é para as ruas, as calçadas, chegam, de uma forma ou de outra, aos oceanos. O problema não é novo. Esse círculo vicioso é bem conhecido e tem gente tentando resolver, ou ao menos reduzir, o estrago em vários países.

Aqui em Portugal, basta uma boa caminhada para confirmar que estas estimativas não estão tão furadas. Há quem diga que são 7 mil guimbas lançadas para as ruas por minuto em todo o país. As pessoas fumam muito e não costumam se preocupar tanto com o destino final do toquinho de cigarro, apesar de diversas campanhas e de legislações recentes que punem o sujismundo. Desde meados do ano passado, há lei: quem jogar bituca na rua pode ser multado em até 250 euros e os estabelecimentos que não oferecem cinzeiros também são penalizados em até 1500 euros.

As pontas de cigarros são o resíduo que mais aparece nas praias e representam um dos principais problemas [de lixo] no sul da Europa. Foto: Diário de Notícias.As pontas de cigarros são o resíduo que mais aparece nas praias e representam um dos principais problemas [de lixo] no sul da Europa. Foto: Diário de Notícias.

É a Lei da Beata, que, a partir do meio deste ano, deverá pesar ainda mais no bolso dos infratores, com a decisão do governo de endurecer as penalizações para essa e outras infrações. Na prática, aquele arremesso de cigarrinho pela janela, que poderia custar no mínimo 50 euros, já vai passar para pelos menos 150 euros a partir de julho. Mas alguém é efetivamente multado? Bom, digamos que a “impunidade” ainda é grande (basta ver as ruas sujas), mas dados de outubro de 2020, quando a lei começou pra valer, mostram que foram aplicadas quase 50 multas, a maioria para pessoas que jogaram a beata no chão, enquanto um número menor foi para os estabelecimentos sem cinzeiros. Vale lembrar que foi um mês de confinamento, no qual as pessoas saíram menos às ruas.

Mas como ninguém para de fumar e a ideia de ser pego em flagrante parece não ser tão assustadora, algumas cidades estão lançando iniciativas para tentar deixar as ruas mais limpas. É o caso da freguesia de Campolide, em Lisboa, que acaba de anunciar a campanha “Campolide sem Beatas”, que irá distribuir cinzeiros de bolso para os fumantes. Fumou, está na rua e não quer procurar uma lixeira para arremessar sua bituca? Não tem problema. Saca o cinzeirinho do bolso e guarda seu lixinho até chegar em casa. Prático, não? O objetivo da campanha é chegar a uma “freguesia limpa, verde e sem beatas”. Na primeira fase serão 5 mil cinzeiros para a população. E o início da campanha nesta semana não é por acaso. Estamos justamente no início da terceira fase do desconfinamento, na qual as pessoas ganham mais liberdade para ir e vir, tomar um cafezinho nos bares e esplanadas, dar aquela caminhada mais livre. Aí, é claro, dá aquela vontade de abaixar a máscara, acender um cigarrinho e arremessar a guimba na calçada, né? Ah, essa liberdade de poder respirar o ar puro das ruas novamente... 

As pessoas fumam muito e não costumam se preocupar tanto com o destino final do toquinho de cigarro. Foto: SAPO. As pessoas fumam muito e não costumam se preocupar tanto com o destino final do toquinho de cigarro. Foto: SAPO.

A mesma freguesia já havia liderado iniciativas semelhantes em 2017, quando pôs nas suas ruas uma outra campanha, que oferecia cinzeiros de pé para as portas dos estabelecimentos comerciais. As peças estampavam a mensagem "Beata do meu coração, apaga-te aqui e nunca no chão!". Não tenho dados da efetividade, mas realmente me toca a forma amorosa como foi tratada a beata, que tão bem faz ao coração... 

Em Lagos, cidade na região do Algarve, mais ao sul de Portugal, também as guimbas, ou ao menos as que costumam ser jogadas na rua, começaram a ser enfrentadas. A câmara municipal lançou no fim do ano passado a campanha “Zero Beatas”, para alertar a população sobre o impacto negativo no ambiente. O mote da campanha é “Um segundo a chegar no chão, cinco anos a sair do mar”. Além de uma série de peças de comunicação, a cidade ganhou novos modelos de lixeira, principalmente no acesso às praias. Já foram instaladas mais de 300 estruturas para que ninguém tenha a desculpa de não achar onde jogar o fim do cigarro. O grande teste certamente acontece no próximo verão, daqui a alguns meses. A ver.

Outra cidade que segue por caminho semelhante é Paços de Ferreira, mais ao norte. A estratégia foi a mesma de Campolide e Lagos: muita comunicação, distribuição de cinzeiros de bolso e a instalação de “EcoPontas”, equipamentos especialmente desenvolvidos para o descarte das beatas.

Ecopontas: contribuem para a redução de chicletes e pontas de cigarro atiradas no chão, dois dos resíduos mais encontrados nas praças e ruas da cidade. Foto: Público. Ecopontas: contribuem para a redução de chicletes e pontas de cigarro atiradas no chão, dois dos resíduos mais encontrados nas praças e ruas da cidade. Foto: Público.

Ações como essas se repetem em outras freguesias, outros concelhos, mas o hábito de fumar ainda é muito presente aqui em Portugal. Há uma série de restrições impostas pela legislação, é verdade, mas também algumas exceções ou situações especiais (como um sistema de exaustão eficiente em ambientes fechados como bares e restaurantes) que acabam abrindo brechas para que o fumo seja aceito. Esta semana, porém, foi criada uma petição pública que pede que seja proibido fumar em espaços públicos ao ar livre, principalmente praias, esplanadas, pontos de ônibus (ou paragens de autocarro, como se diz por aqui). Se vai para frente, é difícil saber. Até porque, nem preciso dizer, a pressão das grandes indústrias de tabaco é grande por aqui também. Aliás, preciso dizer que algumas dessas campanhas de distribuição de cinzeiros de bolso tem o patrocínio da indústria?

Mas cá entre nós, no meio de uma pandemia que ataca principalmente as vias respiratórias, não seria um bom momento para largar o cigarro? Imagino que seja difícil, mesmo para quem quer. Podemos só combinar uma coisa? Jogue a bituca no lixo!

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Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.



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